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O que dizer sobre a inteligência, o assunto mais polêmico da psicologia?

por em 01/03/2018 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

O que dizer sobre a inteligência, o assunto mais polêmico da psicologia?

Robert Oppenheimer e John von Neumann, posando na frente de um antigo computador, criado originalmente por Alan Turing. Essa foto tem mais de 300 pontos de QI.

Quando o assunto é Psicologia, a cabeça da maioria das pessoas é tão confusa quanto as categorias que as livrarias criam. A seção de Psicologia é uma verdadeira miscelânea. Você encontra lá desde a coleção do Augusto Cury sobre a inteligência de Jesus, até publicações dizendo que Jesus era o maior psicólogo que já existiu, ou que Salomão era o homem mais inteligente do mundo. Pasme, você encontra até livros do L. Ron Hubbard, o criador da Cientologia — que odiava psicologia/psiquiatria, seu esqueleto deve estar se tremelicando de tanta desonra! Nada disso é Psicologia. Nem os livros do Augusto Cury, que, apesar de ser psiquiatra, não escreve nada mais que autoajuda disfarçada de um vocabulário meio escola augusto-curiês-de-psiquiatria. Não tem diferença nenhuma desses livros para PowerPoints fofos e motivacionais que inundam nossos e-mails.

Isso significa que as pessoas em geral não sabem muito bem o que é Psicologia– nem os organizadores das livrarias. A desorganização das prateleiras reflete a desorganização do conceito da disciplina no imaginário popular.

A existência de tantos livros falando de inteligência de maneira tão generalista significa que assuntos específicos dessa área também parecem confundir. Por exemplo, Augusto Cury fala sobre inteligência numa série de livros de autoajuda, mas na verdade ele faz especulações generalistas e fala sobre tudo, menos sobre o que tecnicamente a Psicologia chama de inteligência. Alguns mitos difundidos até mesmo entre psicólogos parecem colocar a inteligência como um atributo psicológico impossível de medir e os testes de QI como tentativas fracassadas de medição.

Muitos ainda insistem que a inteligência é pouco estudada, que não tem marcadores biológicos, que existem múltiplas inteligências e que testes de QI só medem raciocínio lógico-matemático.

Na verdade, a inteligência está entre os assuntos mais estudados da Psicologia, com uma definição suficientemente eficaz e com os testes mais bem sucedidos em mensurar um fenômeno psicológico.

Nesse texto, vou explicar um pouco o que chamamos tecnicamente de inteligência e tentarei explicar por que os testes de QI provavelmente são os testes psicológicos mais confiáveis que você vai encontrar por aí. Também vou aproveitar para especular sobre por que tanto leigos quanto alguns acadêmicos têm uma recusa tão intensa em aceitar que especialmente a inteligência pode ser mensurada e estudada de forma séria.

Inteligência como uma entidade geral

Tecnicamente, inteligência é um nome que engloba uma série de capacidades: raciocínio sobre problemas de diferentes níveis de complexidade, memória, aprendizado de informações novas, expressão verbal clara e etc. Tudo isso funciona de maneira conjunta a ponto de podermos nos referir a esse funcionamento usando a palavra inteligência.

É como a palavra craque, no futebol. Usamos essa palavra para nos referirmos a um jogador que faz muitos gols, corre bem, marca, arma boas jogadas e etc.

A diferença da palavra “craque” para o termo “inteligência” é que, na realidade, um jogador que faz muitos gols pode não ser um jogador muito bom em armar jogadas ou marcar os adversários; já com relação à inteligência, por exemplo, uma pessoa muito boa em raciocínio lógico-matemático provavelmente vai ter boa memória e boa fluência verbal. Assim, o quociente de inteligência acaba sendo uma medida mais confiável do que um adjetivo como “craque”. Se um jogador é um craque, você não tem como saber exatamente qual função ele desempenha extraordinariamente, mas, se uma pessoa tem alto nível de inteligência, sabemos que ela tem um desempenho mais ou menos parecido em todos os atributos incluídos no construto inteligência.

Aliás, é por isso que não faz muito sentido falar em múltiplas inteligências. Um jogador de futebol pode ser um craque de diferentes formas isoladas, mas pessoas inteligentes vão ter desempenho uniforme em relação a todos os atributos da inteligência. Em outras palavras, só faria sentido definir a inteligência como uma entidade múltipla se cada uma das capacidades variasse isoladamente uma em relação a outra. Não é isso que os estudos mostram. Por isso, os pesquisadores usam termos como Fator g e Inteligência Geral.

A capacidade de raciocinar e de adquirir conhecimento

Daniel Tammet, autista savant, faz cálculos complexos de cabeça, aprende islandês em uma semana

Outra forma igualmente eficiente de descrever a estrutura empírica da inteligência é a sua concepção em dois fatores. Dito de outro modo, a inteligência pode ser dividida em inteligência cristalizada e fluida. A primeira tem a ver com a capacidade de aprender, memorizar informações e usá-las. A segunda tem a ver com a capacidade de raciocínio puramente, como resolver problemas lógicos, notar semelhanças e diferenças entre ideias, figuras, notar padrões.

Inteligências fluida e cristalizada variam até de formas diferentes ao longo do envelhecimento. Após os 65 anos é comum ter uma redução no desempenho da inteligência fluida, mas não no da cristalizada, por exemplo. Quadros de neurodiversidade também estão associados a diferentes níveis desses tipos de desempenho cognitivo. Autistas são mais eficientes em termos de inteligência fluida do que em inteligência cristalizada.

Testes de QI e suas correlações inusitadas, mas coerentes

Os testes de inteligência são tão eficientes em mensurar inteligência que tanto faz falar “inteligência”, “desempenho cognitivo” ou, simplesmente, “QI”. Mas, a rigor, QI é o nome do resultado dos testes de inteligência. E eles são medidos em pontos.

Por exemplo, Einstein parece que tinha um QI de 130 pontos (encare isso como algo ilustrativo, pois há chances disso ser boato e do físico nunca ter feito um teste de QI). A média da população em geral é em torno de 100 pontos. Isso significa que, comparativamente, Einstein tinha um desempenho cognitivo superior ao da população em geral em alguns pontos. John Von Neumann foi um importante polímata com contribuições que vão da matemática às ciências sociais. Neumann tinha um QI de 190. Em torno dos 6 anos de idade, Neumann fazia divisões com números de 8 algarismos e já conversava em grego antigo. Aos 8, resolvia equações diferenciais e integrais.

Isso significa que a pontuação de QI não é meramente uma medida artificial. O quociente de inteligência não é bem a mera habilidade de fazer testes de QI. Trata-se da mensuração de um fenômeno real. A coerência dos resultados mostra isso. Indivíduos com alto QI parecem mais frequentemente ter contribuições intelectuais importantes do que indivíduos com QI baixo. Por exemplo, a prevalência de vencedores do famoso prêmio Nobel é muito mais alta entre o grupo étnico dos judeus ashkenazy do que na população em geral. Einstein e Neumann eram descendentes de judeus ashkenazy. E, apesar de ser algo polêmico de se dizer e das explicações não serem consensuais, esse grupo étnico também parece ter o QI mais alto do que o da população em geral. Seja lá por qual motivo judeus ashkenazy tendem a ser mais inteligentes, isso parece fazer todo o sentido com suas conquistas intelectuais.

Tony Stark é o estereótipo estatístico do alto QI e suas correlações: boa pinta, boa saúde, sucesso financeiro e acadêmico. Se abstrações estatísticas explicassem casos individuais, Stark seria o exemplo perfeito.

Em geral, altos níveis de desempenho cognitivo correlacionam-se com sucesso acadêmico/profissional. Isso faz todo sentido, já que é coerente pensar que pessoas com boa memória, facilidade de aprender e de raciocinar, por exemplo, vão ter as habilidades necessárias para se dar bem em atividades acadêmicas/profissionais.

Um pouco mais inusitadamente, quanto mais alto o QI, mais saúde e maior longevidade. Isso pode ser explicado de duas formas não necessariamente auto-excludentes. Pessoas mais inteligentes podem monitorar mais seu estado de saúde indo mais vezes ao médico, se alimentando melhor. Isso obviamente vai ter um efeito, melhorando saúde e aumentando a longevidade. Outra explicação está associada à inteligência como qualidade adaptativa (fitness quality). A inteligência seria um sinal que indica o nível de saúde das pessoas, o que poderia ter papel principalmente em termos de seleção sexual. De fato, estudos vêm mostrando que sinalizar inteligência, principalmente na forma de habilidades artísticas, aumenta a atratividade dos homens perante as mulheres, o que não parece acontecer com mulheres que mostram talento artístico.

Os mitos sobre QI e inteligência mostram algo muito errado no nosso projeto de sociedade

Este é um texto curto, mas tentei condensar aqui a maior quantidade possível de conhecimento sobre inteligência, QI e tudo que a gente consegue descobrir estudando/mensurando esse fenômeno psicológico. As evidências tecnicamente são boas e há uma coerência incontestável nas suas consequências.

Por que, então, as pessoas preferem o mambo-jambo da autoajuda do que informações fresquinhas e interessantes? Talvez seja porque alguns temem que, ao mensurar seu desempenho cognitivo, venham a descobrir que possuem menor inteligência do que pensavam, por exemplo. Ou porque existe certo medo de que o grau de inteligência seja usado para fins discriminatórios. Eu não sou fã de exercícios de futurologia, nem acho que sejam eficientes em prever. Enquanto isso, prefiro contemplar as evidências.

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