Este é um conteúdo em formato podcast, mas, se preferir, pode acompanhá-lo com o texto e imagens a seguir.

Agora, em 2023, faz 20 anos que ocorreu a tragédia no Centro de Lançamento de Alcântara que matou 21 técnicos e engenheiros, e colocou um fim no programa espacial brasileiro, pelo menos até agora. E além da tragédia em si e das vidas perdidas, o que me deixa muito triste disso tudo é saber que Alcântara é o melhor ponto geográfico do mundo para lançar foguetes e o Brasil poderia se tornar o maior porto mundial no acesso ao espaço.

E quando eu digo que Alcântara, no Maranhão, é o melhor ponto do mundo é principalmente por dois motivos:

Primeiro: A base está localizada quase na linha do equador, a apenas 250 km ao sul do umbigo do planeta. E embora a Terra leve sempre 24 horas para dar uma volta completa em seu próprio eixo, a velocidade da superfície não é a mesma em todos os pontos. Pensa num disco girando numa vitro  la. Se você colar um adesivo perto do centro do disco, ele vai girar bem mais devagar do que um adesivo colado na borda do disco. Ambos levam o mesmo tempo para dar uma volta completa, mas o adesivo de fora percorreu uma distância muito maior. Da mesma forma, a linha do equador é onde a Terra é mais gordinha, é como a borda mais externa do disco. Quanto mais próximo do Equador, maior é a velocidade de giro. Ao lançar um foguete, ele já   sai do chão com essa velocidade e não precisa acelerar tanto para entrar em órbita, o que economiza combustível ou permite que o foguete carregue mais peso.

Quanto mais próximo ao equador, maior a velocidade orbital que o foguete recebe. Alcântara está no primeiro lugar do mundo.

A segunda base mais próxima do equador fica na Guiana Francesa e está a 580 km ao norte da linha central, mais do que o dobro da distância de Alcântara.

Para comparação, a base americana está a mais de 3000 km ao norte e um foguete lançado do Brasil já sai com uma velocidade 13% maior da plataforma que um lançado dos EUA.

O segundo motivo é que Alcântara tem uma vasta saída para o oceano, cobrindo de norte a leste. Lançar foguetes é uma atividade perigosa, e, de vez em quando, eles podem explodir no ar e cair em algum lugar imprevisto. Para garantir a segurança da operação, os foguetes precisam ser lançados em direções despovoadas, como o oceano. Da base de Alcântara, como a saída para o mar é enorme, é possível lançar para todo tipo de órbita, da polar até a equatorial.

Quando olhamos a base americana, nenhuma dessas duas trajetórias é possível sem passar por regiões povoadas, pelo menos não sem ter que fazer manobras complicadas que acabam aumentando bastante a quantidade de combustível.

Não é possível lançar para órbitas polares ou equatoriais do KSC.

O Centro de Lançamento de Alcântara é, sem dúvida, o melhor localizado do mundo, e para explorar esse potencial, havia um programa espacial brasileiro todo centrado na criação do VLS, ou Veículo Lançador de Satélite, um foguete de 20m de altura que poderia colocar tanto satélites em órbita quanto o Brasil no mapa do seleto grupo de países que têm acesso ao espaço.

crédito: Força Aérea Brasileira

Mas o sonho virou pesadelo em 22 de agosto de 2003, três dias antes do voo inaugural do VLS. O foguete, pesando 50 toneladas, estava na plataforma, recebendo os últimos preparativos, quando um dos motores de combustível sólido entrou em ignição (barulho de foguete queimando) e iniciou um incêndio devastador.

crédito: Agência Brasil

 O fogo durou apenas 8 minutos, mas foi o suficiente para destruir completamente a torre de lançamento e matar 21 pessoas que estavam trabalhando ali. Um dia muito triste na história do Brasil.

Para quem quiser saber mais detalhes sobre esse acidente, o Scicast publicou um episódio para falar sobre isso, lançado agora há pouco.

Mas… esse podcast que você tá ouvindo não é para falar do acidente, pelo contrário: quero contar uma história alternativa de como teria sido um programa espacial brasileiro. Vou fazer uma simulação super realista de um programa espacial a partir da base de Alcântara, começando na década de 50, e quero ver se a gente consegue chegar até a Lua.

Vai ser uma aventura muito divertida, cheia de desafios e, no processo, vou poder explicar, em detalhes, como funcionam os lançamentos de foguete, as órbitas, as dificuldades técnicas, a ciência e tecnologia por trás, e criar nosso verdadeiro foguete brasileiro que vai quem sabe, finalmente, entrar em órbita. Eu sou o Pena, físico e entusiasta do espaço, e essa é a minha maneira singela de homenagear as vítimas da tragédia de Alcântara e servir de inspiração para, quem sabe, um novo programa espacial brasileiro no futuro. Lançar foguetes nunca mais será a mesma coisa depois desse podcast, vocês vão entender, confia.

Além de mim, existe uma equipe muito profissional e empolgada aqui do Deviante que topou transformar essa história em um audiodrama… então, sem mais delongas, vamos começar.


Foguete V-2 pronto para ser lançado.

Durante a Segunda Guerra Mundial o mundo viu os nazistas desenvolverem um novo tipo de arma, os foguetes V-2, de forma que, após o fim da guerra, houve um interesse grande em entender esse novo tipo de tecnologia. Em 1945, o tenente-coronel brasileiro Casimiro Montenegro Filho viaja para os EUA onde visita centros importantes de pesquisa e conhece o chefe de engenharia aeronáutica do MIT, Richard Harbert Smith. Houve uma afinidade imediata entre os dois, de forma que Montenegro resolve fazer uma proposta ousada, cujo aceite era impensado – o não eu já tenho, pensou ele. E assim, o Brasil consegue sua primeira grande vitória espacial, ao roubar Richard Harbert do MIT com o sonho de criar um instituto aeroespacial em solo brasileiro. O local escolhido foi São José dos Campos, em São Paulo, e, durante o restante da década de 40, as obras seguem firmes.

O Tenente-coronel Casimiro Montenegro (de chapéu) apresenta a maquete do ITA.

Paralelo a isso, um outro grupo brasileiro também resolve se envolver com foguetes, e dessa vez de uma maneira mais direta. A Escola Técnica do Exército (ETE), em 1949, recebe um professor francês, Edmond Brun, para lecionar a disciplina de “Autopropulsão a Jato”. Ao se deparar com um grupo animado de alunos, o professor os incentiva a fazer um foguete. Naquele ano mesmo é, então, lançado, com sucesso, um pequeno foguete de combustível sólido que marcaria esse novo ímpeto brasileiro na autopropulsão.

No ano seguinte, 1950, a ETE segue com a ideia de criar o primeiro foguete de combustível líquido do Brasil e, enquanto isso, em São José dos Campos, as obras finalmente terminam e é inaugurado o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA. O sonho de Montenegro finalmente aconteceu, o MIT brasileiro era realidade.

É aqui que começa o nosso contrafactual. Todas as informações até aqui são verdadeiras. Mas agora, vamos imaginar o que poderia ter acontecido se, nesse momento inicial, tivesse existido já uma percepção da importância de uma base de lançamentos na região de Alcântara, próximo ao equador, e que um programa espacial tivesse sido aprovado no início da década de 1950.

Digamos que aqueles primeiros alunos da Escola Técnica do Exército, que estavam projetando um foguete de combustível líquido, tivessem sido recrutados para este programa, sediado no recém criado ITA, e que um barracão simples, com uma infraestrutura básica, tivesse sido construído em Alcântara, para lançar estes foguetes. Assim começa nossa história.


Capítulo 1 – Vai Filhão!

É 1951 e um grupo de engenheiros e estudantes do ITA se reúne ao redor da plataforma “Sonda A” na recém inaugurada Base de Alcântara. Um foguete comprido e fino está posicionado na plataforma com os dizeres “Vai Filhão” estampado na fuselagem. A contagem regressiva tem início: 10, 9, 8, 7… peraí. Mas antes, que raio de foguete é esse?

Foguete Arapuá 1 Garbosa na plataforma de lançamento.

Durante o ano de 1950, os recém contratados engenheiros e pesquisadores do ITA, liderados por Richard Harbert, o ex-chefe de Engenharia Aeronáutica do MIT (aquele que foi roubado dos americanos pelo coronel Montenegro, lembram?). Enfim, essa galera toda aí desenvolveu um motor de combustível líquido pequeno, à base de querosene e ácido nítrico fumegante. Esse nome “ácido nítrico fumegante” representa bem essa substância super corrosiva que foi inventada pelo diabo só para ver o circo pegar fogo aqui na Terra. O fato de haver mais de 300kg disso em um tanque altamente pressurizado dentro daquele foguetinho de 8 metros de altura gerava uma atmosfera de tensão absurda naquela manhã de 21 de maio.

Olha só a tarja de perigo do ácido nítrico fumegante.

Mas esse é um foguete de dois estágios, que significa que são na verdade dois foguetes montados um em cima do outro. A ideia é a seguinte:

Você aciona o foguete de baixo que dispara para cima (som de foguete funcionando). Quando esse primeiro foguete se esgotar (som de foguete vai morrendo), ele é ejetado (som de ejeção) e o segundo foguete acende (som de foguete sendo acionado) e assume o resto da viagem, sem ter o peso extra da carcaça vazia do primeiro estágio. E nesse foguetinho aqui, o primeiro estágio era movido a combustível sólido, um motor que já tinha sido lançado com sucesso em 1949, feito de uma mistura de nitroglicerina e nitrocelulose, outras duas substâncias inventadas quando as coisas estavam calmas demais no inferno.

Acontece que não foi nada fácil lançar o foguete de 49. Foram muitos testes em que o dispositivo ou não acendia (e virava uma bomba prestes a explodir na cara de qualquer aluno que ousasse se aproximar) ou queimava de maneira descontrolada. Ainda assim, todos os amigos e parentes daqueles estudantes da Escola Técnica do Exército adoravam comparecer às tentativas de lançamento. Um desses amigos, mais extrovertido, se equipava com um megafone e se punha a narrar o que estava acontecendo antes do lançamento, um jeito de entreter as pessoas que aguardavam, às vezes horas, até que os preparativos terminassem:

– Salve salve amigos da astronáutica do Rio de Janeiro, meu nome é Sérgio Cassani e vou narrar o que está acontecendo aqui para vocês.

Esse era o jeito que ele sempre começava a narrativa dos eventos mas, invariavelmente, no final, o foguete não subia, ou explodia, ou os dois (explosão de fundo, pessoas falando nãaaao, ahhhh, ooohhh). De qualquer maneira, as pessoas se divertiam por ficarem ali, ouvindo ele contar, com empolgação, tudo sobre o foguete, mesmo já antecipando um desfecho explosivo.

– Tá ali o Lucas terminando de colocar o dispositivo pirotécnico, éee galera, é isso que vai acionar o motor do foguete. Quando ele apertar aquele botãozinho vermelho ali, gera uma faísca lá dentro do motor e dá a ignição. Será que agora vai?

Em uma manhã qualquer, era só o Sérgio começar a falar no megafone que já começa a juntar gente (de fundo: Salve salve amigos da astronáutico do Rio de Janeiro). O sucesso da locução era tanto que logo eles improvisaram uma caixa de som. Mas o foguete não tinha o mesmo sucesso (várias explosões). Não que as explosões não fossem legais de ver, mas foguete subir mesmo estava difícil.

Até que, num certo dia de novembro, com o foguete na plataforma pronto para sair, o Cassani improvisa um:

– Agora vai, agora tem que ir…. Vaaaaiii Filhão!

E ele foi. Ganhou os céus e em três segundos desapareceu entre as nuvens.

A questão é que aconteceu algo parecido com copa do mundo. Quando sai o gol as pessoas se apegam a qualquer superstição besta: ah, fulano estava com com um chapéu na cabeça, e agora não pode tirar senão vai dar azar. O “Vai filhão”, que marcou o primeiro lançamento que deu certo, virou uma frase tão marcante de sorte que, 2 anos depois, viria a estampar a fuselagem do novo foguete. Voltamos para 1951, na plataforma improvisada em Alcântara e sim, esse tinha que dar certo. Muitas coisas estavam em jogo. Toda essa ousadia que começou lá na fundação do ITA e a aposta no programa espacial brasileiro dependiam desse lançamento. O objetivo era claro, alcançar a barreira do espaço, chegar a 100 km de altura, a chamada linha Karman. Valia qualquer mandinga para isso dar certo, até escrever o “Vai Filhão”.

E por falar nisso, aquele foguete era lindão. Um dos estudantes da ETE era amigo do carnavalesco da escola de samba “Unidos dos Telégrafos” e pediu para ele fazer a pintura do foguete.

Detalhe do foguete Garbosa na plataforma de lançamento

Visualiza: o cone dourado na ponta é seguido por listras, também douradas, que contornam o corpo alongado, separando-o em quatro faixas, duas brancas e duas azuis metalizadas. Sobre uma faixa branca está estampado o logo da Agência Espacial Brasileira, e na outra vem o “Vai Filhão”, escrito na vertical, em preto, com a bandeira do Brasil separando o “Vai” do “Filhão”. Na parte de baixo, as listras douradas se espalham cobrindo as aletas (ou as asinhas do foguete, como se fossem as penas de uma flecha). Esse é o segundo estágio. Abaixo dele, está o primeiro estágio: um cilindro bem mais curto, branco, com duas faixas horizontais em azul metálico e mais 4 aletas douradas.

Quando viram o resultado, todos ficaram embasbacados com tamanha formosura. Chamaram o foguete de “Garboso”. Aliás, de “Garbosa”, já que essa classe de foguete recebeu o nome de Arapuá, ou abelha em tupi.

A abelha garbosa estava pronta para partir e seu destino carregava consigo todo o peso de uma nação que não gostava de foguetes, mas que, com as locuções do jovem Cassani, estava começando a se interessar. Da rádio do Maranhão, o sinal era repetido até alcançar São José dos Campos e o Rio de Janeiro. No ITA e na ETE, estudantes, professores e amigos se apinhavam ao redor dos radinhos, vidrados na voz de Sérgio:

– 5, 4, 3, 2, 1…. Vaaaai Filhãooooo!


Você ouviu o primeiro episódio de “O Brasil vai pro espaço”, produzido pelo Scicast.

Os eventos narrados aqui, embora fictícios, utilizam como base fatos e pessoas reais da história do Brasil e do mundo. Em especial, neste episódio:

O então tenente-coronel Casimiro Montenegro Filho foi de fato o idealizador e responsável por criar não somente o ITA como o Centro Técnico Aeronáutico em 1950, que depois se tornaria Centro Técnico Aeroespacial.

Richard Harbert Smith de fato largou seu posto no MIT e veio para o Brasil ajudar no projeto de Montenegro. Richard se tornou o primeiro reitor do ITA.

Os alunos da Escola Técnica do Exército lançaram, realmente, um foguete em 1949 e continuaram a projetar outros projéteis nos anos seguintes. Até 1972 haviam construído 33 foguetes, mas a falta de um programa dedicado a isso impediu que pudessem alcançar voos maiores, literalmente. Na nossa história alternativa, porém, esse incentivo veio.

O personagem Sérgio Cassani é uma homenagem ao divulgador de astronomia Sérgio Sacani que, dentre outras atividades, faz locuções empolgantes de lançamentos de foguetes nos dias de hoje, e consegue atrair milhares de pessoas em suas transmissões. Quem sabe se tivesse existido alguém como ele lá nos primórdios da astronáutica brasileira as coisas não teriam sido diferentes?

O texto, narração e direção deste episódio foram feitos por mim, o Pena.

A voz do Sergio Cassani foi feita por Sergio Sacani.

A edição e sonorização é do Felipe Reis.

E a distribuição é do portal Deviante.