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Tem montanha no Brasil?

por em 26/06/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Tem montanha no Brasil?

Nesse texto, pretendo responder a pergunta mais amada pelos professores de Geografia do país.

Vocês estão prontos?

Temos ou não montanhas nesse Brasil?

Depende!

É isso, assim encerramos mais um texto. Obrigada, beijos.

Mentira, não deixaria vocês sem as explicações. Então vem com a tia.

Bom, nada na vida tem explicação definitiva né? O que temos e o que compõe a nossa ciência hoje são as teorias. Com a geomorfologia não é diferente.

Mas o que é geomorfologia? É um ramo da geografia que se propõe a estudar as formas de relevo.  Pela etimologia, temos: Geo= Terra + Morfo = Forma + Logia= Estudo -> Estudo das formas da Terra.

E as montanhas, meu caro jovem, são formas encontradas na superfície da Terra né? hahaha

As classificações:

Bom, como eu disse, temos teorias diferentes, e cada uma tem um modo de classificar, identificar as formas de relevo que encontramos. Algumas consideram só a altitude, outras consideram o processo de formação daquele relevo, outras consideram se o relevo ainda está em processo de formação ou se está sendo erodido.

Altitude e Forma:

Planície, Planalto (Plano Alto, quem lembra?), Depressões. Essa foi a classificação do relevo brasileiro apresentada por Aroldo de Azevedo em 1949. De modo que Aroldo Azevedo, assim classificou o relevo brasileiro:

Planícies: Superfícies aplainadas com até 200m de altitude.

Planaltos: Superfícies aplainadas e terrenos levemente acidentados com mais de 200m de altitude.

Domínios Morfoclimáticos: Os Processos Endógenos e Exógenos.

Para o grande geógrafo Aziz Ab’Saber, era importante pensar as formas de relevo como resultado da ação dos processos endógenos e exógenos.

Os processos endógenos são aqueles internos, que acontecem abaixo da superfície terrestre, por exemplo, vulcanismo. Já os exógenos estão fora, sobre a superfície terrestre, como a chuva, por exemplo.

Ou seja, aparece aqui a preocupação com a ação do clima atual.  É uma classificação que valoriza a dinâmica dos processos atuais na esculturação/ modelagem das formas de relevo.

Aqui entra a grande diferença com relação a classificação proposta por Azevedo. Planície deixa de ser determinada pela sua altitude e passa a ser determinada pelo processo.

Tornam-se planícies todas as áreas que sofrem sedimentação. Ou seja, áreas que recebem sedimentos erodidos de outras partes. “Gabi, quais partes?”,  vocês me perguntam agora. Dos planaltos, eu respondo.

Ou seja, planaltos são as áreas que os processos de erosão (seja por conta das águas de chuva ou por conta de ventos) superam o processo de sedimentação.

Preciso que vocês prestem atenção agora:

A sedimentação tem a ver com o acúmulo de matéria. Ou seja, constroi, aumenta, cresce e forma né? Se um montinho de areia vai acumulando em um cantinho e cada vez mais vai chegando mais areia, logo mais a gente tem um montão de areia. Certo?

A erosão é o oposto. Tem a ver com desgaste, retirada. Ou seja, destrói. Se a gente tem um montão de areia e cada vez mais a areia é levada daquele montão, daqui a pouco temos um montinho. Certo? Certo.

Aqui entra o pulo do gato das planícies e planaltos:

Planícies estão em formação, enquanto Planaltos estão sendo degradados.

Jurandyr Ross e a nova classificação

Ross, na década de 90 apresentou uma nova classificação do relevo brasileiro com o intuito de unir características estruturais e climáticas.  As características estruturais estão vinculadas a geologia e a gênese das formas. Já as morfoclimáticas estão associadas aos processos climáticos que operam na atualidade da forma.  Ross então trata dos processos atuais que esculpem os relevos.

O autor mantém a conceituação trazida por Ab’Saber entre planalto e planície. Porém agora, separa os planaltos de acordo com os processos de formação. De modo que no Brasil são encontrados planaltos esculpidos em: bacias sedimentares, intrusões e coberturas residuais de plataforma, núcleos cristalinos e cinturões orogenéticos.

Sim, amores, eu dei toda essa volta para chegarmos aos cinturões orogenéticos. Porque as montanhas são cinturões orogenéticos.

Então tá. Continua com a tia, não perde o fio da meada. Primeiro vamos ao que é um cinturão orogenético.

Cinturões orogenéticos

Cadeia orogenética, cinturão orogênico, dobramentos modernos… são sinônimos, tratam da mesma coisa. São estruturas geológicas formadas nas bordas das placas tectônicas de limites convergentes.

Vamos lembrar das placas tectônicas. Temos três tipos de limites: divergentes, quando uma se afasta da outra; transformantes, quando deslizam uma ao lado da outra; e convergente, quando uma placa se choca com a outra.

Tipos de limites entre placas tectônicas. Fonte: LAPA – UFRR.

Agora pensa comigo no choque entre duas placas continentais. Nós temos uma série de cavalgamentos de uma placa com a outra, de dobramentos da placa… Inclusive, vocês lembram que podemos chamar os cinturões de dobramentos? Pois é. O que acontece no choque entre as duas placas de mesma densidade, é como uma batida entre carros. Só que nesse caso, as rochas dobradas e cavalgadas umas sobre as outras ganham altitude.

Isso aqui é também uma cadeia de montanhas.

Mas pera, o Brasil não está sobre uma única placa tectônica? Sim. Mas nem sempre foi assim. Por isso vamos falar, brevemente, de um ciclo tectônico identificado como Brasiliano.

Esse ciclo tectônico está relacionado à formação do mega-continente Gondwana, através dos fechamentos dos oceanos e, adivinhem: Choque entre placas tectônicas continentais. Isso tudo aconteceu por volta de 890 e 490 milhões de anos atrás, durante a eón geológico chamada de Proterozóico.

Então tá, sabemos que temos cinturões orogenéticos no Brasil e que os cinturões orogenéticos também são conhecidos como cadeia de montanhas… Logo temos montanhas no Brasil, certo?

O veredito.

Bom, é aqui que entra o depende.

Alguns professores defendem a ideia de que temos montanhas no Brasil, uma vez que, mesmo que velhas, elas não deixam de ser montanhas. Como o geógrafo Adriano Lizieiro, no Geografia Visual, um site que eu adoro, inclusive.

Quando tratamos da academia e da pesquisa em geografia e geomorfologia, atualmente, é vigente a ideia de que no Brasil não tem montanha.

O que temos é que, para que uma feição seja classificada como montanha, é preciso que seja uma área que ainda está em formação. Ou seja, uma área como os Andes ou Himalaia, onde ainda exista orogênese. Por isso, essas feições também serão identificadas como dobramentos modernos.

No caso brasileiro, o processo de formação dos cinturões orogenéticos já se encerrou e essas feições agora estão em processo de degradação, tornando-se planaltos. Vocês lembram? Planaltos sofrem com a erosão. Ross complementa dizendo que são relevos residuais, ou seja, que ainda estão lá por conta da das rochas que os sustentam.

Bom, o assunto é polêmico e rende pano pra manga! Espero que tenha dado argumentos para que você consiga defender seu ponto de vista, hahaha.

Até a próxima!

 

Para esse texto, consultei:

ALKMIM, F.F. 2012. Serra do Espinhaço e Chapada Diamantina. In: Geologia do Brasil. ORG: HASUI, Y.; CARNEIRO, C. D. R.; ALMEIDA, F. F.; BARTORELLI, A.. São Paulo, SP. Ano de 2012.

HASUI, Y. A GRANDE COLISÃO PRÉ CAMBRIANA DO SUDESTE BRASILEIRO E A ESTRUTURAÇÃO REGIONAL. Geociências, v. 29. 2010.

ROSS, J. (2011). RELEVO BRASILEIRO: UMA NOVA PROPOSTA DE CLASSIFICAÇÃO. Revista Do Departamento De Geografia, 4, 25-39. https://doi.org/10.7154/RDG.1985.0004.0004

UHLEIN, A. et al. TECTÔNICA DA FAIXA DE DOBRAMENTOS BRASÍLIA – SETORES SETENTRIONAL E MERIDIONAL. Revista Genomos, 20(2), 1-14, 2012.

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