Pages Menu
TwitterRssFacebook
Categories Menu

Rastejando até Belém – Resenha

por em 11/03/2021 em Entretenimento, Notícias | Nenhum comentário

Rastejando até Belém – Resenha

Fui apresentada ao trabalho de Joan Didion há cerca de 8 anos, quando li O Ano do Pensamento Mágico e Noites Azuis. Gostei dos dois livros, me comovi com seus relatos e fiquei admirada com o texto sincero da autora, que fala de si mesma com muita honestidade e amor próprio, sem dourar a pílula ou colocar-se como vítima.

Então esse mês tive a feliz oportunidade de ler Rastejando até Belém, publicado pela Todavia, e pude conhecer um pouco mais sobre o estilo da autora. Foi a primeira vez que li a autora em português e achei o trabalho de tradução incrível. Com este livro também pude conhecer Joan Didion jovem, quando tinha quase a minha idade e vivia entre a Costa Leste (New York) e a Costa Oeste (California).

A autora

Joan Didion é uma referência em jornalismo literário e Rastejando até Belém é um excelente livro para compreender esse estilo, além de também nos possibilitar espiar um pouco pela janela dos anos 1960, já que o livro consiste em uma coletânea de ensaios da escritora publicados ao longo dos anos 1960 em diferentes revistas.

Didion, como ela mesma já menciona no prefácio de Rastejando até Belém, aproveita-se de sua estrutura pequena, aparentemente frágil e discreta para observar o que está acontecendo ao seu redor. Ela não entrevista as pessoas: ela conversa com elas e quase se mimetiza com o ambiente para observar e nos relatar em prosa, temperando com alguns comentários ácidos e apontamentos de incongruências e hipocrisias.

Minha única vantagem como repórter é que sou tão pequena fisicamente, meu temperamento é tão discreto e sou tão neuroticamente inarticulada que as pessoas tendem a esquecer que minha presença se opõe aos seus maiores interesses. E sempre se opõe. Esta é uma última coisa a lembrar: os escritores estão sempre traindo alguém.

Didion, Joan. Rastejando até Belém (p. 9). Todavia. Edição do Kindle.

O livro

O livro conta com 20 ensaios, divididos pela autora em três partes: I-Estilos de vida na terra do ouro, II-Pessoais e III-Sete lugares da mente. Vou falar um pouco de cada uma das partes e mencionar alguns dos ensaios que as compõe.

Parte I

O ensaio com título homônimo ao livro encontra-se na parte I e teve muita repercussão na época em que foi escrito. Didion passa alguns dias no distrito de Haight-Asbury, em San Francisco, para entender quem eram aqueles jovens capturados pelo movimento hippie. Ao transitar pelos ambientes e situações envolvendo aqueles jovens, ela fala de uma ruptura entre gerações e penso que até certo ponto, guarda alguns paralelos com o que observamos atualmente.

No ensaio Casamentos absurdos, Didion relata  a fábrica de casamentos em Las Vegas e nos permite compreender quem eram as pessoas que decidiam se casar numa cerimônia relâmpago nos anos 1960.

Outro ensaio que nos permite compreender muito bem o estilo de Joan Didion é quando ela acompanha o lendário John Wayne em uma filmagem, quando ele já estava doente. O ensaio é John Wayne: uma canção de amor, no qual a autora não entrevista o astro ou as demais pessoas ao redor dele. Para escrever sobre ele, a autora fica observando, ouvindo e participando de conversas e assim nos presenteia com um relato muito humano dessa lenda do cinema.

Parte II

Na parte II a autora fala de suas experiências em Nova York e na Califórnia, mencionando suas dificuldades, inadequações e processo de criação. Aqui temos uma Joan Didion jovem, comprometida com o trabalho, para quem escrever é uma urgência. No ensaio Sobre ter um caderno:

O impulso de tomar nota das coisas é peculiarmente compulsivo, inexplicável para quem dele não compartilha, é útil apenas de maneira acidental, secundária, da maneira como qualquer compulsão tenta se justificar.

Didion, Joan. Rastejando até Belém (p. 114). Todavia. Edição do Kindle.

Temos também o belo ensaio Sobre o amor próprio, originalmente escrito para a Vogue, no qual a autora presenteia seus leitores com ótimas reflexões, como:

“…o caráter — a disposição de aceitar a responsabilidade pela própria vida — é a fonte de onde brota o amor-próprio.”

Didion, Joan. Rastejando até Belém (p. 124). Todavia. Edição do Kindle.

Parte III

Com muito entusiasmo, observei que descrições geográficas e meteorológicas estão presentes em quase todos os ensaios do livro, principalmente nos ensaios da parte III. Um dos ensaios que chamaram minha atenção nessa parte foi Caderno de Los Angeles, em que a autora fala do temido vento de Santa Ana, um vento seco e quente que desce o desfiladeiro de Santa Ana e deixa a cidade de Los Angeles quente, favorece incêndios florestais nas proximidades e que para muitos altera o humor das pessoas, que ficam irritadiças e até violentas. No ensaio ela faz uma excelente descrição dos ventos secos que descem desfiladeiros:

O Santa Ana, que recebeu o nome de um dos desfiladeiros por onde passa, é um vento foehn, como o foehn da Áustria e da Suíça e o khamsin de Israel. Existem vários ventos malévolos persistentes, talvez os mais conhecidos sejam o mistral da França e o siroco do Mediterrâneo, mas um vento foehn tem características distintas: ocorre no declive a sota-vento de uma cordilheira e, embora no início o ar seja uma massa fria, ele se aquece quando desce a montanha e finalmente se torna um vento seco e quente.

Didion, Joan. Rastejando até Belém (p. 185). Todavia. Edição do Kindle.

Como meteorologista, confesso que esse foi meu ensaio favorito. Posso dizer que apreciei todos os momentos, nos demais ensaios também, quando ela relaciona as condições meteorológicas com as condições e atitudes dos personagens que ela observa.

Finalizando

Ao longo dos ensaios, compreendemos como Didion consegue transitar entre as pessoas e as situações, como uma observadora dotada de muita sinceridade, energia e repertório. Um excelente livro para apreciadores de jornalismo literário e para quem deseja compreender um pouco mais sobre a sociedade norte-americana dos anos 1960.

Recomendo também o documentário da Netflix Joan Didion: The Center Will Not Hold, dirigido pelo seu sobrinho, Griffin Dunne. No documentário, Didion fala de seus ensaios e de sua vida pessoal com a mesma energia que escreve.

Modo Noturno