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Pode o medo ser usado como instrumento de controle social? (III)

por em 30/08/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Pode o medo ser usado como instrumento de controle social? (III)

A mãe suplicou gemendo: – Não fique zangado! Como não ter medo! Passei a vida toda no terror, tenho a alma coberta de medo! (Máximo Gorki – “A Mãe”)

 

Como prometido no texto dessa série passamos por ilustrações do uso de medo como instrumento de controle do Antigo Testamento à Guerra Contra o Terror levada à cabo no início do Séc. XXI. E agora, estabelecido esse uso, é tentar entender um pouco mais da nossa relação com o medo para tentar entender como foram tão bem-sucedidos seus usos. E caso esteja chegando agora – ou não se lembre – leia os primeiros dois textos aqui e aqui!

Mas de onde vem tanto medo?

Temos medo de morrer, ponto! Esse medo é tão grande que foi selecionado naturalmente como um dos principais mecanismos responsáveis por nossa existência e permanência como indivíduos e espécie e dele decorrem algumas variações.

Medo de quase morrer, medo do que ocasiona morte, medo da dor, de enfermidades, do sofrimento moral, da solidão, da carência etc. Contudo ao temer a morte, ansiamos por maneiras de prolongar a vida. Personificamos a morte para melhor poder encará-la e confrontá-la. Em nosso temor da morte criamos um estado para nos proteger de algumas de suas armas, corroborando uma das teses de Hobbes (1651), na qual o medo da morte, na guerra de todos os homens contra todos os homens, é o principal motivo para a existência do Estado.

Dona Morte espera por você!

Ainda que não tenhamos que enfrentar a “Dona Morte” em pessoa, muitos precisam lidar com um diagnóstico de doença terminal ou foram engolidos por uma gigante onda em alto-mar. Em sua história, a humanidade sofreu os mais diversos medos, uma longa e duradoura exposição que pôde “criar um estado de desorientação e de inadaptação, uma cegueira afetiva, uma proliferação perigosa do imaginário, desencadear um mecanismo involutivo com a instalação de um clima interior de insegurança” (DELUMEAU, 1989, p. 26).

Em nossa ânsia racional de explicar o mundo e dar sentido à nossa existência nomeamos nossos medos. Na Grécia Helênica medo, temor, terror, pavor e pânico não eram simplesmente emoções e sentimentos humanos, eram deuses, semideuses e demônios.

Pã, Sátiro, Fauno, ou um nome à sua escolha!

, deus dos pastores e dos rebanhos, que deu origem à palavra pânico. Seu corpo era parte humano e parte bode, possuía cascos, chifres e o corpo coberto de pelos. Tinha uma aparência tão assustadora que sua própria mãe, a ninfa Dríope, ficou apavorada e o abandonou. Contam as histórias que “seus aparecimentos súbitos provocavam um pânico que se derramava pela natureza e impregnava todos os seres, ao pressentirem a presença de uma divindade que perturba o espírito e enlouquece os sentidos” (BRANDÃO, 1991, p.222).

Os demônios Phobos – palavra derivada do verbo grego phébesthai, que significa fugir espavoridamente e que é a origem da nossa palavra fobia – era a personificação do Medo e do Terror e seu irmão Deîmos, o Pavor, eram os cruéis e sanguinários filhos de Ares, deus da guerra e da violência e apareciam sempre ao lado de seu pai nas guerras e em derramamentos de sangue (BRANDÃO, 1991).

Em Esparta, sacrifícios eram oferecidos a Phobos antes das guerras, e os romanos decidiram, sob ordens de Tulo Hostílio, consagrar dois santuários a Pallor – origem da palavra palidez – e Pavor, correspondências romanas a Deimos e Phobos. Assim também fez Alexandre Magno antes da batalha de Arbelos, oferecendo a Phobos um sacrifício solene; esperava que, agradando ao deus do medo, seus soldados, durante o combate, não fugissem apavorados (Jornal Claro! 2005).

Mundukuru, descendente indígena brasileiro, conta que indígenas do que viria a ser o Brasil utilizavam o medo quando criavam “uma série de narrativas para mostrar os perigos que nos rodeiam em nossa vida de florestas, de montanha ou de cerrado e também para lembrar às crianças a importância de estarem atentas aos desafios que a natureza nos impõe” (MUNDUKURU, 2010, p.7). Função parecida com máscaras confeccionadas por diversas tribos do continente africano que eram usadas para traduzir, se defender e espalhar o medo.

Lindas máscaras para seu medo!

Em nossos dias, muitas religiões ainda trazem figuras representativas do medo, como, por exemplo, as representações demoníacas do cristianismo, apropriada de deuses de crenças pagãs, em oposição à graça divina.

Seria um erro pensar que somente no passado a humanidade tenha feito isso. Continuamente estamos criando essas imagens. Temos o bicho-papão, o boi da cara preta, ou na famosa cantiga de assustar ninar em que os adultos pedem para as crianças dormirem logo, afinal a ‘Cuca vem pegar’.

Além dos personagens míticos, existem os reais personagens do medo. Crianças não devem brincar sozinhas na rua, não por conta dos reais perigos que isso possa representar, mas pelo temor que os personagens do imaginário popular como o ‘homem do saco’ passe e as leve.

Todas essas ilustrações mostram o quanto aprendemos a temer o que nos ensinaram a temer. E, entre outras, esse é um dos motivos pelos quais o medo foi usado como condutor de grandes decisões políticas.

Passamos pelo Deuterônomio, Maquiavel e Churchill, mas basta olhar para nossa realidade. É o que acontece nas periferias das grandes cidades brasileiras, como políticas de segurança baseadas no uso ostensivo do aparato militar e repressor do Estado como as Unidades de Polícia Pacificadoras – UPP no Rio de Janeiro. A socióloga Vera Malaguti Batista (2003), afirma que a favela de hoje representa no ideário da classe dominante o que o quilombo era no século XIX,

No Brasil a difusão do medo do caos e da desordem tem sempre servido para detonar estratégias de neutralização e disciplinamento planejado das massas empobrecidas. O ordenamento introduzido pela escravidão na formação socioeconômica sofre diversos abalos a qualquer ameaça de insurreição. O fim da escravidão e a implantação da República (fenômenos quase concomitantes) não romperam jamais aquele ordenamento. Nem do ponto de vista socioeconômico, nem do cultural. Daí as consecutivas ondas de medo da rebelião negra, da descida dos morros. Elas são necessárias para a implantação de políticas de lei e ordem. A massa negra, escrava ou liberta, se transforma num gigantesco Zumbi que assombra a civilização; dos quilombos ao arrastão nas praias cariocas (BATISTA, 2003, p. 21).

 

“Las Manos de América Latina” – Oswaldo Guayasamín

 

Nesse mundo de medo

Há uma imensa descrição de uma cidade medieval feita por Montaigne no século XVI (DELUMEAU, 1989, pp. 11-12) que guardadas as devidas proporções de tecnologia e tempo são muito próximas da realidade dos condomínios das atuais cidades. Grandes portarias com diversos seguranças espalhados, portões duplos ou triplos para a entrada de carros e pessoas, vigilância eletrônica por todos os lados, necessidade de se identificar e identificar seu destino, muitas vezes acompanhada da necessidade da apresentação de documentos. E tal qual o relato medieval, em caso de qualquer eventualidade, o uso de força armada é enviada “sem a chancela do povo da cidade”.

Ao falar do medo, outros dois fenômenos são suscitados: a segurança e a falta dela. Ao tratarmos do tema dentro de uma sociedade capitalista, na qual tudo se torna mercadoria, o medo se tornou responsável pela movimentação de uma grande indústria de trilhões de dólares que em nome da segurança não é questionada.

Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas como, por exemplo, estas: por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? (COUTO, 2011)

A indústria da segurança, em nossos dias, fatura muito com os medos, seja em contratação de força de trabalho para segurança pessoal ou na intensa produção industrial de instrumentos de vigilância: alarmes, cercas elétricas, circuitos internos de filmagem, armamento não-letal, monitoramento via satélite, blindagem de carros e residências, entre tantos outros. De acordo com dados de Bergamasco (2012), na cidade de São Paulo, desde 2008, mais de 5000 carros são blindados por ano, entre 2006 e 2010 o faturamento do setor de segurança eletrônica saltou de R$256 milhões para R$420 milhões.

Mas, sem dúvida, a mais lucrativa e de mais incessante produção, dentre estas, é a indústria bélica, sustentada por uma proclamada necessidade de defesa – e ataque – contra os inimigos, como afirma o escritor Mia Couto (2011), “para fabricar armas é preciso fabricar inimigos, para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas.” Afirmação que é confirmada por João Verdi Carvalho Leite, presidente da Avibrás, maior fabricante de equipamentos militares da América Latina, “o mundo está ficando mais perigoso e isso traz perspectivas interessantes” (BARBOSA, 2001).

De acordo com dados apresentados por Gianini (2011), no caso da guerra contra o terror, os Estados Unidos da América passaram de US$12 bilhões gastos em 2002, para US$191 bilhões em 2011. A Universidade Brown (CHACRA, 2011) estima que em 10 anos os Estados Unidos tenham gastado algo em torno de US$4 trilhões nas guerras contra o Afeganistão e Iraque. Nessas guerras, que resultaram em mais de 225.000 mortos, incluindo 140.000 civis, as forças americanas dispararam, em média, 250.000 tiros para cada combatente inimigo morto.

Outra vencedora dessa sociedade adoecida pelo medo é a indústria farmacêutica; ano após ano, a produção e o faturamento de medicamentos crescem, o consumo de antidepressivos, ansiolíticos, calmantes e estimulantes vem aumentando assustadoramente em todos os segmentos sociais. Também são alarmantes os dados estatísticos apresentados sobre as doenças. Em uma análise das publicações do Washington Post, New York Times e USA Today em 1996, o jornalista Bob Garfield descobriu que na população dos Estados Unidos 59 milhões sofriam de doenças cardíacas, 53 milhões de enxaqueca, 25 milhões com osteoporose, 16 milhões com obesidade e 3 milhões com câncer. Em doenças mais obscuras, existem 10 milhões com disfunção da articulação temporomandibular e 2 milhões com distúrbios cerebrais; somando tudo, o jornalista observou que em uma população de 266 milhões  de habitantes, 543 milhões estavam gravemente doentes, e concluiu “Ou estamos condenados como sociedade, ou alguém está chutando alto” (GARFIELD apud GLASSNER, 2003, p. 20).

O crescente medo é também corresponsável pelo surgimento de novas justificativas para tirar de circulação – por meio de prisões, internações compulsórias ou extermínio – os ‘não desejáveis’, ‘os perigosos’, sejam estes o jovem negro de periferia, seja o morador de rua ou o viciado em crack, esquecido – ou higienicamente retirado – nas ruas das cidades e no campo. Uma tática parecida com o ‘argumento da espada enfiada no ventre’ (DUBY, 1999, p. 63), que São Luís pregava contra comunidades não cristãs na Europa medieval, “esses estrangeiros, […] é preciso convertê-los ou, então, destruí-los” (DUBY, 1999, p. 63).

Na necessidade de se encarcerar e perseguir pessoas são necessárias mudanças legais que retirem cada vez mais a privacidade e os direitos individuais em nome da segurança. Como a promulgação em tempo recorde da lei do “Ato Patriótico” (veja nota de rodapé), nos Estados Unidos da América, que permite espionagem de telefonemas e e-mails e detenção – sem mandado e julgamento – por tempo indeterminado de estrangeiros considerados perigosos, abrindo brechas legais para diversas violações dos direitos humanos, incluindo torturas.

São tantos os perigos, as vigilâncias e as punições que a população, assustada e muitas vezes adoecida, vai se tornando progressivamente mais passiva, mais conformada. Reduzindo sua vida ao cotidiano de seu trabalho alienado, diminuindo sua autonomia e suas possibilidades de humanização, sem possibilidades (e sem desejo) de tentar mudar a realidade a sua volta.

Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quando não têm medo da fome, têm medo da comida. Os motoristas têm medo de caminhas e os pedestres têm medo de ser atropelados. A democracia tem medo de lembrar e a linguagem tem medo de dizer. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras. É o tempo do medo. (GALEANO, 2009, p. 83)

 

Parece, então, clara a relação entre medo e poder, e que esse uso social do medo leva, analogamente, a uma paralisia social, fazendo com que indivíduos, grupos tenham reduzidas possibilidades de agirem no mundo.

Conseguir brincar hoje em dia não é brincadeira!

Partindo da premissa que a atividade é a categoria fundante do psiquismo humano, esses indivíduos e grupos teriam suas atividades restritas às imposições desse cotidiano, portanto não exercendo toda sua potência de humanização.

Mas essa discussão fica para a próxima sequência de textos, na qual trarei as discussões sobre a teoria das emoções e do desenvolvimento do psiquismo a partir da filosofia de Baruch de Espinosa e a psicologia histórico cultural de Vigotski e consortes!

E, parafraseando Titãs, você tem medo de quê?

 

1 – ATO PATRIÓTICO: A lei Uniting and Strengthening America by Providing Appropriate Tools Required to Intercept and Obstructing Terrorism ACT of 2001 – USA PATRIOT ACT conhecida por “Ato Patriótico” foi apresentada na câmara “House of the Representatives” no dia 23 de outubro de 2001 e aprovada no dia 24 de outubro por 357 votos favoráveis contra 66 contrários. No dia seguinte, 25 de outubro, a lei foi aprovada na câmara “Senate” por 98 votos a 1. E finalmente assinada pelo, então presidente, George W. Bush no dia 26 de outubro de 2001, 45 dias depois dos ataques. Em entrevistas, para o documentário Fahrenheit 9/11 (2004) do cineasta Michael Moore, vários parlamentares alegaram que tiveram de votar sem terem tido tempo de ler a lei.

 

Referências

A religião e o medo. Jornal Claro!, São Paulo, abril de 2005.

BATISTA, Vera Malaguti. O medo na cidade do Rio de Janeiro: dois tempos de uma história. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Revan, 2003.

BARBOSA, Mariana. O renascer da indústria bélica. Istoé Dinheiro. Edição 216 de 05/10/2001. Disponível em <http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/15461_O+RENASCER+DA+INDUSTRIA+>. Recuperado em 16 de agosto de 2012.

BERGAMASCO, Daniel. Somos todos reféns. Veja São Paulo. Edição de 29/02/2012. São Paulo. Editora Abril, 2012.

BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário Mítico-etimológico da Mitologia Grega. Petrópolis: Vozes, 1991.

COUTO, Mia. Murar o medo. Conferência não publicada em Estoril Conferences 2011, 2011. Disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=jACccaTogxE>. Recuperado em 05 de novembro de 2011.

CHACRA, Gustavo. Em meio a ameaças, EUA inauguram obra para recordar seu pior pesadelo. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 11 set. 2011. Internacional. p. A12.

DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente (1300-1800). (H. Jahn, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. (E. M. Silva, Trad.) São Paulo: Editora UNESP / Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999.

FAHRENHEIT 9/11. Direção Michael Moore. USA: Dog Eat Dog Films, 2004.

GALEANO, Eduardo. Cátedras do medo. In: De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso. (S. Faraco, Trad.). Porto Alegre: L&PM Editores, 2009.

GLASSNER, Barry. Cultura do Medo. (L. Knapp, trad.). São Paulo: Francis, 2003.

HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. (J. P. Monteiro, M. B. N. Silva, Trad.) São Paulo: Nova Cultural, 1997. (Coleção Os Pensadores). (originalmente publicado em 1651).

MUNDUKURU, Daniel. A Caveira-Rolante, a Mulher-Lesma e outras histórias indígenas de assustar. São Paulo: Global, 2010.

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