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Os caçadores de feique nius apresentam: a afinação do mal

por em 16/10/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Os caçadores de feique nius apresentam: a afinação do mal

Pra começar esse texto eu vou pedir que vocês abram este link e leiam escutando de fones de ouvido atentamente. No começo parecerá normal mas, conforme avança a música, tu vais percebendo que não se trata de algo normal. Vocês não estão sentindo uma sensação de relaxamento? Agora parem de ler e prestem atenção por alguns minutos. Parece que nada mais importa, não existe mais o mundo exterior. Vocês estão completamente imersos na música. É como se todos seus problemas desaparecessem. Mas o que essa música tem de especial? Por que ela é assim tão poderosa?


Bom, se alguém sentiu alguma daquelas coisas ali em cima, procure um médico (tá… não precisa tanto. Eu estava induzindo a galera). Aquela música que eu peguei aleatoriamente no Youtube não tem nada de mais. Nada de muito diferente das outras músicas: possui instrumentos, notas, acordes, harmonia e melodia como qualquer outra música que nós já ouvimos na vida. MAS, como vocês devem ter lido o título do vídeo, as duas horas de música são para alívio de estresse e para reduzir as energias negativas. Na realidade aquele vídeo ainda afirma que a música está em 432 hertz (eu não garanto, porque meu ouvido não é muito bom, mas quem tiver ouvido absoluto pode tentar analisar). E o que esse número de hertz significa? Já já explicaremos e, como puderam perceber, hoje brincaremos de uma das coisas mais divertidas dos últimos tempos: desmascarar feique nius no estilo Scooby Doo. Me acompanhem.
Quando nós escutamos a primeira nota da maior música de dor de cotovelo nacional, o clássico “Gostava tanto de você” do nosso saudoso Tim Maia, escutamos um ‘lá’. Logo aparecem outras notas mas a primeira é um lá. Mas como nós temos certeza que aquilo é uma nota lá? Notas nada mais são do que frequências que ressoam no ar. Na realidade estamos ouvindo a frequência de 110 hertz ressoar através dos altos falantes. Então, os músicos deram o nome de “lá” para a frequência de 110 hertz. E isso é completamente arbitrário. Tá, não é cem por cento a troco de nada, mas a questão é que é uma criação humana. Esses barulhos que nós escutamos vão se chamar de tal jeito e os outros barulhos vão se chamar de outro jeito.
Outra coisa que precisamos entender pra começar o trabalho de caçadores de mitos é que as notas da escala (aquela dó, ré, mi, fá, sol, que todo mundo conhece, mais uns negócios no meio que não necessitaremos pra essa explicação) se relacionam por meio de proporções nas frequências. Então nós conseguimos gerar as outras notas a partir de uma nota só. Isso foi descoberto por Pitágoras, há uns dois mil anos, quando ele brincava com cordas de uma harpa de tamanhos diferentes. E se tu dobra a frequência de uma nota (como por exemplo tocar 220 hertz) aquela nota aparece de novo uma oitava mais aguda. Isso tudo no nosso método de afinação moderno, existem muitos outros, com os quais os músicos mais experimentais adoram brincar de fazer barulho.
Agora acho que temos todo o aparato necessário.
Como sabemos que um metro é um metro porque uma galera decidiu que ia ser uma fração da distância de uns pontos lá e nós só engolimos pois é bem útil estar padronizado (não é mesmo, sistema imperial americano?). Alguém foi e padronizou que a quarta nota lá de um piano de 88 teclas no mundo inteiro seria a frequência de 440 hertz. Mas isso foi só no século XX, quando as pessoas começaram a se preocupar muito com padronizações de coisas. Mas nem sempre foi assim.
Notas são arbitrárias, eu já mostrei. Então o que garante que, durante a idade média e a idade moderna, as notas não eram simplesmente o que as pessoas queriam que fosse? A resposta é: ERA EXATAMENTE ASSIM. Na idade média era facílimo: a primeira nota da escala era a nota mais grave que os monges do “feudal idol” conseguiam cantar. E isso obviamente mudava de cidade para cidade e de dia para dia inclusive. E os instrumentos eram afinados para casar com a voz dos cantores. Tudo mudou quando em 1711 um músico inglês chamado John Shore inventou o diapasão. O diapasão é uma forquilha de metal que ressoa uma determinada frequência. Com isso a padronização da afinação se tornou muito mais trivial. Levando esse diapasão de cidade para cidade (ou país para país) se padronizaria a afinação de todos os instrumentos. Fim da história, um bom dia a todos.
Claro que não. Como bons seres humanos que somos, tivemos que dar um jeito de brigar por coisas tão simples quanto o som que a nota lá do meio do piano deveria ter.
Qual seria a frequência do diapasão padrão? Isso acabou variando muito de fabricante para fabricante. Por exemplo, órgãos preservados do compositor Bach colocam o lá central em 480 hertz (então qualquer lá tocado nesse instrumento soaria para nós hoje como um si um pouco mais grave). Porém grande parte dos diapasões dos séculos passados estão afinados mais grave, por volta de 400 a 420 hertz. Mas um fenômeno que acaba acontecendo com a afinação é que quanto mais agudo é um som, mais brilhoso e agressivo ele parece ao ouvido. Por isso, para tocarem músicas cada vez mais estridentes, as orquestras europeias começaram a aumentar a afinação tão alto quanto 450 hertz. O governo francês forçou uma padronização em 435 hertz, mas não foi seguida pelos outros países. Os ingleses adoravam dar a desculpa do frio e aumentar cada vez mais a frequência. Nessa palhaçada de músico de orquestra que não precisa usar a voz, os cantores começaram a se queixar que as músicas estavam ficando muito agudas para eles. Como resultado, em 1939 foi resolvido o problema e se colocou o padrão de lá central do piano em 440 hertz.
Agora começa a parte divertida da teoria da conspiração. Começou um burburinho na internet com uma lenda urbana que o Josef Goebbles teria descoberto que a frequência de 440 hertz deixava as pessoas agitadas e violentas e poderia ser utilizado como meio de controle da população. Ele, então, de alguma maneira que ninguém explica, fez o padrão ser mudado de 432 hertz – o padrão que eles afirmam que todos grandes compositores utilizavam – para 440 hertz. E isso é explicação para todos os problemas da humanidade: se tu não escutar em 432 hertz, o governo vai controlar teu pensamentos. O número 432 é escolhido pois ele ressoa com uma chamada Ressonância de Schumann, que são frequências das ondas magnéticas envolta da terra. Se tua música ressoa com a terra, ela faz bem certo. O único problema é que, para fechar o número 432, a primeira frequência de Schumann teria que ser em 8 hertz, quando na verdade é em 7,83 hertz. Outra coisa bonita é que, como vimos acima, antigamente não só quase ninguém usava 432 hertz (salvo Giuseppe Verdi, mas era puramente arbitrário), como era uma completa loucura a afinação dos instrumentos. Não há nenhum estudo que comprove que a música em 432 hertz faz mais bem para o seu corpo do que uma em 440 hertz.
Bom, até cansa um pouco desvendar feique nius mas é divertido e vale a pena. Nós poderíamos fazer mais vezes quem sabe…

Alguns links interessantes:

https://www.oarquivo.com.br/temas-polemicos/verdades-inconvenientes/754-432hz-e-440hz.html – um site conspiracionista ( LEIA POR CONTA E RISCO)
http://capionlarsen.com/history-pitch/ – a história das afinações

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