Uma área cujo carro-chefe é essencialmente prever o que vai acontecer no futuro: a Meteorologia. O que seria das atividades meteorológicas se as viagens no tempo fossem possíveis? Segurem-se, pois esse texto será uma ótima viagem!

Como é feita a previsão do tempo?

A Meteorologia é a área do conhecimento que estuda os fenômenos meteorológicos. Uma das áreas da Meteorologia é a Previsão do Tempo e do Clima e provavelmente esssa é a área mais conhecida, porque tem aplicação direta em diversas atividades humanas. Afinal de contas, todos querem saber se vai chover ou não: seja porque precisam definir se vão levar um guarda-chuva na bolsa ou porque é um agricultor e precisa maximizar sua produção.

A previsão do tempo é na verdade um conjunto de procedimentos. Não é apenas o supercomputador de um grande centro de pesquisas, com modelos meteorológicos nele instalados, que resolve todo o problema. Claro que esse supercomputador é muito importante, porque ele vai resolver as equações que descrevem os movimentos e fluxos de energia na atmosfera. Essas equações estão discretizadas nos modelos meteorológicos, continuamente desenvolvidos e melhorados por uma equipe de matemáticos, químicos, meteorologistas, físicos, etc. Só que só o supercomputador e os modelos meteorológicos não dão conta de tudo.

Nós precisamos de dados meteorológicos que vão ser inseridos nesses modelos meteorológicos, pois para prever o estado futuro da atmosfera eu preciso das informações a respeito do estado atual. Chamamos essas informações de condição inicial e quanto mais completa essa condição inicial, melhor será nossa previsão. Portanto, é necessária uma rede grande de estações meteorológicas, radares, satélites, boias oceanográficas e outras fontes de dados observacionais para que essa condição inicial tenha uma boa qualidade e assim ajude a fornecer um bom resultado final: a previsão do tempo.

Além de fornecer dados para os modelos meteorológicos, as estações meteorológicas também ajudam no monitoramento do clima. Se mantidas em funcionamento por muitos e muitos anos, elas vão nos dando informações sobre as médias de temperatura, chuva, umidade relativa, vento, etc do local onde estão instaladas. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial, uma estação meteorológica se transforma numa estação climatológica se funcionar por pelo menos 30 anos no mesmo local. E, claro, por quanto mais tempo essa estação funcionar initerrupitamente, melhor para o monitoramento quantitativo do clima daquela região.

Ok, e se as viagens no tempo fossem possíveis?

Bom, talvez o monitoramento das condições meteorológicas ainda assim seriam necessários. Eu estou supondo uma máquina de viajar no tempo como um DeLorean, já que sou muito fã da trilogia De Volta Para o Futuro. É possível viajar no tempo, mas não é possível estar em todos os instantes do passado e do futuro ao mesmo tempo.

Então ok, mesmo tendo como viajar no tempo, eu vou ter que manter minha estação meteorológica em funcionamento. Espere, temos aqui algumas vantagens. A primeira é que eu vou poder viajar no tempo para conferir eventuais erros de medição ou de digitação, conhecendo as condições meteorológicas in loco. Uma grande polêmica paulistana é se nevou ou não em São Paulo (veja aqui). Destaco essa polêmica porque já escrevi várias vezes sobre ela. Não seria legal voltar em junho/julho de 1918 para conferir com meus próprios olhos? Na rotina de uma Estação Meteorológica é comum nos depararmos com erros de transcrição ou digitação, então viajar no tempo seria uma boa alternativa para conferirmos esses erros.

Uma outra vantagens que pensei tem a ver com a padronização do serviço. E se uma equipe de pessoas altamente especializadas, com treinamento da Organização Meteorológica Mundial, pudesse visitar diferentes épocas na história dos registros meteorológicos para ter certeza que tudo está funcionando dentro dos conformes, dentro das recomendações? Seria também muito bom!

Mas e quanto a previsão do tempo? Será que ela ficaria obsoleta com as viagens no tempo? Supondo que as pessoas pudessem viajar no tempo o tanto quanto quisessem, não houvesse um limite de viagens ou coisa assim, mesmo que fosse só para espiar por uma tela o que vai acontecer, talvez fazer a previsão se tornasse algo desnecessário. Bom, seria necessário apenas espiar o que iria acontecer no futuro, voltar para o tempo presente e então escrever o alerta meteorológico. Veja, nem seria previsão meteorológica: seria sim uma visão meteorológica. Pra que prever algo – sujeito a erros devido a natureza caótica da atmosfera – se podemos ver os fatos como eles são?

Voltar no tempo pra dizer: vai dar ruim!

Há uma área interdisciplinar em que os meteorologistas também estão presentes: são as mudanças climáticas.

O aquecimento global é hoje um consenso dentro da comunidade científica. Novos conjuntos de dados são organizados, novos estudos são feitos, novos cenários são estudados e o resultado sempre é o mesmo: a Terra está esquentando porque estamos emitindo gases de efeito estufa que aprisionam calor na atmosfera. Esse aquecimento provoca muitas mudanças em todos os ecossistemas, afeta os seres vivos, coloca comunidades em situação de vulnerabilidade, etc.

O acordo de Paris ressalta a importância em mantermos um aquecimento de no máximo 1,5ºC acima dos níveis da era pré-industrial.  Imagine se pudéssemos voltar no tempo, em uns 50 anos atrás, para avisar a humanidade sobre os perigos do uso dos combustíveis fósseis! A questão é: será que acreditariam?

Fico pensando numa equipe de cientistas, muito capacitada, voltando em nosso DeLorean e chegando na Organização Meteorológica Mundial de 50 anos atrás. Será que acreditariam? Será que essa equipe conseguiria agendar uma reunião com a Organização Meteorológica Mundial e com a Organização das Nações Unidas? Será que conseguiriam convencer a equipe de liderança do passado?

Vamos supor que essa equipe de cientistas do futuro conseguisse se reunir com sucesso com a equipe de cientistas do passado. Pode ser que tivéssemos pessoas iguais nas mesmas equipes: uma reunião de um cientista bem idoso com a versão dele bem mais jovem e isso seria assustador (minha referência aqui é a namorada do Marty McFly encontrando ela mesma). Eu acredito que seria um longo trabalho de convencimento, considerando que há 50 anos atrás o mundo vivia sob o peso da ameaça de um conflito armado, no contexto da Guerra Fria.

Sendo bem pessimista, é provável que a equipe de cientistas do futuro sofresse um longo interrogatório, fosse acusada de espionagem ou algo do tipo e assim seria desacreditada. Por outro lado, numa versão muito otimista, os cientistas do futuro e do passado se entenderiam e medidas para reduzir o uso de combustíveis fósseis seriam tomadas bem cedo, já nos anos 60 ou 70. E se isso acontecesse, hoje estaríamos numa situação muito melhor.

Ir para o futuro pra voltar no presente e dizer: vai dar ruim!!!

Outra possibilidade seria uma equipe de cientistas do presente viajar para o futuro, fazer alguns registros, voltar no presente pra alertar a humanidade e avisar que vai dar muito ruim. Lembram que previsões não terão mais o seu lugar? Com as visões do futuro, seria muito fácil convencer a humanidade de que estamos degradando nosso planeta e alterando o clima, de modo que precisamos tomar uma atitude rapidamente.

E aqui no meu devaneio eu acredito que viajar para o futuro, registrar e retornar para o presente poderia ser mais eficaz do que meu pensamento anterior (voltar para o passado). Se desenvolvêssemos uma máquina do tempo hoje, as pessoas do futuro já saberiam que ela existe. Então chegar no futuro para conversar com cientistas do futuro não seria algo que despertaria suspeitas de espionagem ou alienígenas.

Portanto, ter uma máquina do tempo nos ajudaria a obter provas e registros cabais a respeito do aquecimento global. Seria possível registrar a perda de diversidade biológica, o alagamento de territórios no nível do mar, o desconforto térmico vivido pelas pessoas que moram nos trópicos, as doenças tropicais espalhadas por outras faixas do planeta e outras consequências do aquecimento global.

Finalizando

Sendo assim, concluo que se pudéssemos viajar no tempo, a previsão do tempo perderia a razão de existir. Registros meteorológicos ainda seriam necessários, mas substituiríamos a previsão pela visão. Teríamos uma informação futura de melhor qualidade e ainda poderíamos confirmar dados e informações do passado.

Imagine viajar no tempo, instalar uma estação meteorológica no período Cretáceo para conhecermos as condições meteorológicas da atmosfera daquela época com exatidão? Uma excelente ideia, desde que os tiranossauros não resolvessem destruí-la.