A era dos assistentes, de 2022 a 2025, foi só o início. Essas IAs generativas de texto, que conseguem conversar com a gente, foram ganhando ferramentas (gerar imagens, voz, vídeo) e aumentando em muito sua utilidade como assistentes. O salto veio em 2026, quando essas IAs se tornaram capazes de realizar tarefas no computador: fazer as ações em vez de apenas explicar ao usuário como fazer.

O primeiro bastião foi o código, a programação. Os agentes de IA começaram a gerar programas de alta qualidade em segundos. E a programação permite criar praticamente qualquer coisa no mundo digital: sites, apresentações, planilhas, documentos, sistemas, apps… e estamos falando de uma tecnologia ainda em plena ascensão. A cada mês sai uma nova versão ainda mais inteligente. Uma das métricas da METR, por exemplo, mostra que a capacidade dos agentes vem crescendo exponencialmente, dobrando historicamente a cada 7 meses.

Claro que isso tem impacto no próprio ser humano.

Se, por um lado, a IA tira a fricção cognitiva, facilita os processos e cria soluções que tomariam muito tempo do usuário; por outro, também tira a fricção cognitiva, facilita os processos e cria soluções que tomariam muito tempo do usuário.

O que eu quero dizer é que justamente esse uso mais intelectual, que nós nunca antes pudemos delegar às máquinas, é o que nos forçou a desenvolver nosso cérebro e nossas habilidades cognitivas. Quando você remove essa carga, é natural que possa gerar um déficit cognitivo.

Quando o ser humano passou a subir de elevador e a andar de carro, o vigor físico do humano médio diminuiu. Se você não compensar isso indo a uma academia, praticando um esporte, pode acabar tendo problemas de saúde.

Sua mente é parecida…

… mas, que fique claro: essa analogia tem um problema. Um elevador não pode gerar nenhuma melhora física, mas a IA pode gerar uma melhora cognitiva.

Se você usar a IA como uma máquina de troca intelectual, ela pode expandir seu raciocínio e te fazer chegar mais longe ou entender coisas que antes você não conseguiria — ou levaria muito tempo procurando.

Quando você tem um amigo Einstein no seu bolso a todo momento, você pode aprender muito mais coisas com ele do que poderia antes. Porém, se torna muito tentador apenas pedir para ele resolver o problema inteiro, te dar a resposta pronta. Afinal, ele é o Einstein.

Veja o caso dessa própria entrevista que estou dando para o jornalista Pedro Spadoni [esse texto nasceu de uma entrevista que dei para o Olhar Digital]. Eu poderia pegar essas perguntas, refletir, usar a IA para discutir minhas ideias, encontrar novas perspectivas, questionar meus vieses, refinar meus pensamentos e, assim, ter respostas melhores e mais rápidas, enquanto melhoro minha habilidade cognitiva e expando minha visão de mundo.

Ou, eu poderia, igualmente, jogar as perguntas para a IA e só copiar as respostas. Talvez até sem nem mesmo ler direito o que ela escreveu.

Quando se tem o Einstein no bolso, fica muito difícil não delegar tudo para ele.

Esse é justamente o nosso dilema.

Eu não quero ser moralista dizendo que um jeito é certo e o outro errado. Não quero cagar regra e falar como cada pessoa deveria cuidar do seu corpo ou da sua mente. O importante é trazer clareza para que as pessoas possam tomar essa decisão de maneira consciente.

Nos processos do dia a dia, somos engolidos por prazos, por demandas urgentes, por metas desafiadoras. É muito tentador plugar a IA e só ir aceitando. Também é tentador exagerar no chocolate, pegar o fast-food, aceitar o ultraprocessado.

Em algum momento você tem que acertar as contas com seu eu do futuro, que pode ficar bem chateado com os atalhos que você pegou. Só que o problema do déficit cognitivo é que talvez o seu próprio eu do futuro já não tenha a mesma capacidade de cobrar isso de você…

… então pode ser uma escolha de vida séria que você precisa tomar agora, com responsabilidade.