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Mudanças Climáticas e Conflitos – O Caso dos Nossos Primos da Floresta

por em 08/10/2021 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Mudanças Climáticas e Conflitos – O Caso dos Nossos Primos da Floresta

Os leitores do Deviante já devem saber o quanto as mudanças climáticas vão afetar o planeta e nossa forma de viver. Mudanças irreversíveis, como a aterrorizante Sexta Grande Extinção, podem alterar a face da Terra para sempre, e deixar um legado sombrio da humanidade. Entre os mais diversos impactos que estamos causando, um deles chamou a atenção dos cientistas recentemente: o primeiro conflito fatal entre chimpanzés e gorilas já registrado.

Tudo começou em 06/02/2019, quando um grupo de cientistas seguia uma tropa de 27 chimpanzés adultos do grupo Rekambo em uma patrulha territorial, fazendo uma incursão a leste do território central. Após uma patrulha sem encontros ou grandes eventos, os chimpanzés retornavam para casa quando encontraram um grupo de aproximadamente cinco gorilas; um macho de costas prateadas (um macho “alfa”), três fêmeas adultas e um filhote. E foi aí que o encontro se mostrou especial, de uma forma terrível para os observadores.

Os chimpanzés, que geralmente convivem pacificamente com os gorilas, começaram a gritar e cercaram os primatas maiores. O costas-prateadas investiu contra um dos chimpanzés, mas foi cercado por cerca de dez chimpanzés que o atacaram enquanto gritavam e pulavam ao seu redor. Cercado e em forte desvantagem numérica, o costas-prateadas se afastou. Alguns minutos depois, os cientistas notaram que o filhote de gorila havia sido capturado pelos chimpanzés, sendo agredido e morto pouco depois. Os gorilas ainda fizeram alguns sinais sonoros, indicando sua presença cerca de 40 metros de distância, mas não tentaram reaver o filhote. O encontro foi registrado por um total de 52 minutos até que os cientistas tiveram que partir por conta do anoitecer. Um dos chimpanzés ainda segurava o corpo do filhote morto quando eles foram embora, e não se sabe o que aconteceu depois disso.

Cerca de dez meses depois, em 11/12/2019, um segundo encontro semelhante ocorreu. O que parecia uma nova patrulha territorial dos Rekambo, também com 27 chimpanzés, saiu da fronteira norte do território no início da tarde. Pouco depois, a patrulha encontrou um grupo de gorilas sobre uma grande árvore, que não era de nenhuma espécie consumida pelas espécies de primata. Desta vez, sete gorilas (um macho costas-prateadas, três fêmeas adultas, duas com filhotes, e um gorila juvenil) foram encurralados.

A maioria dos chimpanzés começou a escalar a árvore sob gritos e ameaças dos gorilas. O costas-prateadas conseguiu intimidar os chimpanzés por algum tempo, mas o cerco aos poucos se fechou enquanto os gorilas buscavam segurança subindo mais alto na árvore. Encurralados e em menor número, os gorilas tentaram descer da árvore rapidamente, mas nem todos conseguiram. Enquanto o costas-prateadas, forte e ameaçador, conseguiu escapar com pouca resistência, as fêmeas com filhotes foram cercadas e lutaram contra insistentes investidas dos chimpanzés. Uma delas conseguiu fugir com seu filhote por pouco, mas outra foi avistada após sua fuga já sem o filhote. Enquanto os gritos dos gorilas e as batidas no peito do costas-prateadas ainda podiam ser ouvidas a cerca de 75 metros, os chimpanzés mataram o filhote capturado. O encontro foi registrado por um total de 74 minutos. Boa parte do corpo foi devorada por alguns membros do grupo de chimpanzés, em especial uma fêmea, Roxy, que o abandonou no fim da tarde.

Esses encontros não parecem ter sido consequência de caçadas ativas pelos chimpanzés, geralmente marcadas pelo movimento silencioso dos animais e compartilhamento da carne entre o grupo, especialmente entre os machos dominantes. Ao invés disso, os encontros foram marcados por muita agitação e vocalizações, sinais de encontros com grupos rivais; e no caso do filhote que foi devorado, não houve muito interesse ou compartilhamento, especialmente entre machos.

Chimpanzés são animais agressivos, sendo inclusive a única espécie além de humanos a ter uma “guerra” registrada, como eu já explorei anteriormente. Violência entre grupos rivais é frequente, com registros que variam de ameaças mútuas a mortes violentas e até mesmo canibalismo de filhotes. Gorilas, no entanto, não costumam ser vistos como rivais pela espécie, sendo que os Rekambo já foram registrados até mesmo compartilhando a mesma fonte de alimento com gorilas em outras ocasiões.

Então o que pode ter causado esse tipo de conflito entre espécies que geralmente não rivalizam entre si? Os cientistas que presenciaram os ataques acreditam que seja a mudança climática.

Os cientistas notaram que os ataques ocorreram em meses quando a comida é mais escassa e a agressividade entre grupos de chimpanzés é maior. Como a mudança climática já vem afetando o planeta inteiro, não seria surpreendente que a comida esteja ficando mais difícil de encontrar para os animais. Assim, eliminar competidores, independentemente da espécie, seria uma vantagem para os chimpanzés do grupo Rekambo. E apesar do tamanho imponente dos gorilas, os chimpanzés são muito mais agressivos e vivem em grupos muito maiores, tendo uma forte vantagem nesse tipo de conflito.

Este conflito pode ser visto como uma pequena representação do que pode acontecer entre grupos humanos caso nada seja feito para mitigar os efeitos das mudanças climáticas e diminuir a liberação de gases-estufa na atmosfera. O colapso da Era do Bronze pode ter sido ligado a mudanças rápidas no clima do Mediterrâneo, e alguns estudos sugerem que conflitos como a guerra civil da Síria tenham sido influenciados pelas alterações do clima.

É consenso científico que o clima está mudando rapidamente e que a queima de combustíveis fósseis é a causa. Caso nada seja feito, conflitos serão cada vez mais frequentes e violentos, tanto entre animais quanto entre humanos.

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