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Meritocracia: Talento vs Sorte – Parte I

por em 18/11/2021 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Meritocracia: Talento vs Sorte – Parte I

A vida de pesquisadores costuma ser rodeada de ansiedade. Para fazer pesquisa é necessário ter dinheiro e este costuma vir das universidades, empresas ou de algum órgão governamental. Quando um patrocinador vai decidir para quem dar a verba ou como distribuí-la entre os candidatos, o mais comum é escolher aqueles que já publicaram trabalhos importantes, ou seja, os mais talentosos ou mais merecedores. E se os mais merecedores forem apenas os mais sortudos e não necessariamente os mais talentosos? Um número crescente de pesquisas vem mostrando que subestimamos o papel do acaso ou sorte no sucesso. Ao que tudo indica o sucesso ocorre mais por sorte do que por talento.

Será que é justa a maneira que a maioria usa hoje para distribuir renda ou verba baseado na meritocracia? Neste texto vou apresentar diversas pesquisas que procuraram entender a influência do acaso no sucesso e também falar de estratégias para sermos mais justos dando mais oportunidades, diminuindo o papel do acaso.

A Lei de Pareto

Imagine que vamos pegar todas as pessoas do mundo e ordená-las em ordem decrescente da quantidade de riqueza que cada uma possui. Com isso podemos construir o gráfico a seguir:

Lei de Pareto

Vemos que poucas pessoas são ricas e a gigantesca maioria tem pouquíssimo dinheiro. Isso parece com a realidade? Sim, este gráfico representa a Lei de Pareto (princípio de Pareto, distribuição de Pareto, Lei do 80-20). Este fenômeno ficou famoso pois é encontrado em praticamente todo contexto humano envolvendo riqueza. O 80-20 é um resumo do comportamento desse gráfico: 20% dos habitantes têm 80% da riqueza e, por sua vez, os 80% restantes têm apenas 20% da riqueza.

É o famoso problema da distribuição de renda: uns com tanto, enquanto a maioria sofre com praticamente nada. Esse é o reflexo de como nossa sociedade funciona. Por exemplo, em 2017, 8 homens tinham a mesma riqueza que as 3.6 bilhões de pessoas mais pobres do mundo somadas [1].

Paradigma Meritocrático

O termo ‘mérito’ representa a ideia de merecimento ou valor. Aqueles que têm mérito ou são merecedores devem ser recompensados. Essa ideia é simples e sem pensarmos muito parece adequada para nossa sociedade. Em resumo pensamos que quem possui talento vai se destacar dos demais, fazer a diferença no mundo e conquistar o sucesso pelo próprio mérito [2,3].

Muitas empresas, governos, organizações e etc. adotam o paradigma meritocrático no seu dia a dia. Poderia isso explicar o comportamento da Lei de Pareto? Talvez existam poucas pessoas merecedoras no mundo e estas estão sendo recompensadas com riqueza e sucesso, enquanto a maioria dos não dignos deve se contentar com sua falta de capacidade e viver com baixa recompensa.

Espero que você, leitor, tenha ficado revoltado com a última frase. É evidente que tem algo errado com esse conceito de meritocracia. E por isso nem vou gastar muito espaço aqui para dizer que essa meritocracia até poderia talvez funcionar se todas as pessoas tivessem as mesmas oportunidades.

O exemplo mais comum é a comparação entre homens e mulheres. Homens claramente recebem muito mais oportunidades na vida e possuem muito menos preocupações no seu cotidiano que as mulheres. É um absurdo pensarmos que há no mundo mais dinheiro nas mãos dos homens do que nas das mulheres, pois os homens são mais capacitados, esforçados e talentosos.

Já sabemos que para usar a meritocracia deveríamos primeiro garantir que todas as pessoas tivessem as mesmas oportunidades, certo? Isso bastaria?

Meritocracia – Uma Distopia

O termo ‘meritocracia’ foi usado pela primeira vez pelo escritor Michael Young em seu livro A Ascensão da Meritocracia (The Rise of Meritocracy) em 1956 [4]. No livro, o escritor exercita a ideia de um mundo meritocrático que claramente daria errado por causa da desigualdade de oportunidades e, assim, cria um mundo em que todos possuem iguais oportunidades.

O ponto chave do livro é o seguinte: se realmente todos tivessem as mesmas oportunidades, os mais talentosos seriam recompensados justamente. Afinal, foram os que venceram essa competição que é a vida, enquanto os perdedores deveriam se contentar com o pouco que têm. Quem vence tem a certeza de que o fez por seu próprio esforço e quem perde deve amargar a humilhação da derrota.

O resultado disso é que os vencedores desprezam os perdedores por sua incapacidade e os perdedores odeiam os vencedores vivendo com luxo e com poucas dificuldades.

A história de uma sociedade igualitária em oportunidades que adota a meritocracia é escrita como uma distopia. Isso parece ter passado despercebido por grande parte dos leitores, pois o paradigma meritocrático passou a ser difundido como um modelo a ser seguido em todo o mundo (em que não há iguais oportunidades).

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Talento e Sucesso

Vamos definir que daqui em diante sempre que falarmos de talento estamos nos referindo a uma gama de coisas: esforço, habilidade inata ou adquirida, capacidade, etc. Em resumo qualquer característica que possa de alguma maneira ser usada como métrica de desempenho em uma atividade qualquer.

A Lei de Pareto é mais usada para observar a distribuição de renda de uma população, mas podemos falar de qualquer medida de sucesso, seja monetária, fama, popularidade ou influência.

Assim, daqui em diante vamos discutir como o talento resulta em sucesso (ou será que não?).

Agora pensemos: seria o talento uma característica para prever o sucesso? Para responder isso podemos pensar em um tipo de modelagem matemática bem comum, como vimos que o sucesso segue a distribuição de Pareto, a distribuição de talento na população deveria ser pelos um pouco similar. Isso quer dizer que se medirmos o talento das pessoas e fizermos um gráfico ordenando-as dos mais talentosos aos menos, deveríamos observar um gráfico parecido.

Ainda bem que já foram realizados muitos e muitos trabalhos visando medir as mais variadas habilidades de humanos. Assim sendo, sabemos muito bem como é o formato do gráfico da distribuição de habilidades, é a famosa distribuição Gaussiana, (ou distribuição normal) como nesse maravilhoso vídeo do Átila:

Escolha uma tipo de habilidade qualquer e comece a medir entre as pessoas o quão boas elas são na atividade escolhida e conforme você faz mais avaliações verá surgir um formato igual ao mostrado no vídeo. 

A natureza parece gostar muito da distribuição Gaussiana, pois é a distribuição mais comum e podemos encontrá-la em qualquer área de estudo.

A conclusão que tiramos dela é que haverá um número muito pequeno de pessoas com alto talento, um número também pequeno com baixo nível de talento e muitas pessoas com um nível de talento mediano. O ponto mais alto do gráfico corresponde à média, ou seja, sorteie uma pessoa qualquer e avalie sua habilidade e será mais provável que seu nível seja próximo da média.

Voltamos ao questionamento: seria o talento uma característica para prever o sucesso?

Hmm… A distribuição Gaussiana não se parece muito com a de Pareto. Isso significa que não deve ser apenas o talento que explica o sucesso, a meritocracia começa a ruir.

É possível encontrar várias pessoas na internet falando que o talento não segue a distribuição Gaussiana justamente porque ela é diferente da distribuição de Pareto. Por consequência deveríamos usar outro tipo de distribuição. Esse não deve ser o caso, pois, como dito antes os psicólogos realizam pesquisas com as mais diversas habilidades e é consenso que invariavelmente elas são descritas pela distribuição Gaussiana.

Se algo mais explica o sucesso, o que seria?

O que é a sorte?

Um tópico bem interessante de se estudar é como a língua de um povo pode influenciar sua cultura (e vice-versa). Pensemos na palavra “sorte” e seu significado. Sorte dá a entender que existe uma ligação quase mística dos acontecimentos de nossas vidas com algo bom ou ruim.

A frase “Eu tive sorte naquela jogada” indica que uma força superior independente do interlocutor agiu sobre sua vida e o ajudou a realizar a jogada. Essa ideia parece estar presente na nossa cultura, claro que pode não ser devido à palavra em si. 

Por outro lado, se formos traduzir a palavra sorte para o francês teremos “chance que tem o sentido de acaso.

É justamente isso que deveríamos entender como sorte, nada mais do que o acaso. Vejamos, por exemplo, como o site dicio.com.br define as palavras sorte e acaso.

Definição de sorte

Definição de acaso

Não há forças místicas ou providência divina agindo sobre nós, o acaso domina nossas vidas, é apenas a sucessão de um número incrivelmente grande de eventos que resulta em um acontecimento observado por nós. A Teoria do Caos é a área da Física que busca encontrar padrões dentro de sistemas complexos. E nossas vidas são bem complexas.

Muito bem, onde vamos chegar com isso?

Supomos que você tenha um exame muito importante e pensemos em três situações que poderiam ocorrer:

  1. Você se esforçou nos estudos, fez todas as tarefas, tirou dúvidas com os professores, revisou o conteúdo, deixou de ir em festas e tudo mais e devido ao seu talento conseguiu uma uma nota 9.5 de 10.
  2. Você se esforçou nos estudos, fez todas as tarefas, tirou dúvidas com os professores, revisou o conteúdo, deixou de ir em festas e tudo mais, mas no dia da prova você pegou uma gripe e não conseguiu se concentrar durante a prova e acabou conseguindo apenas nota 4.
  3. Você estudou só na sala de aula, não teve o costume de fazer tarefas nem tirar dúvidas e perto da prova deu uma lida em alguns trechos dos conteúdos. No dia do exame você se surpreende, por um acaso várias das questões estão relacionadas com aqueles poucos conteúdos que você estudou e por isso conseguiu um 7.

O que podemos concluir desse experimento mental é que o talento tem uma boa influência sobre a nota, mas o acaso pode superá-lo e estragar tudo (o azar nesse caso). Por outro lado, a situação três mostra que a sorte pode fazer alguém sem talento conquistar algo.

Disso tiramos que o talento tem influência sobre o sucesso, é um requisito necessário, mas não o suficiente. Parece que o acaso desempenha um papel grande e que foge de nosso controle.

Exemplos de Acaso

É claro que as situações acima vieram de um experimento mental preparado para tirarmos essas conclusões, mas há um número crescente de trabalhos científicos que vêm tentando quantificar e entender qual é o real papel do acaso sobre o sucesso. Vamos ver agora uma série de conclusões de alguns desses trabalhos:

  • A chance de um cientista publicar seu maior trabalho de sucesso ao longo de sua carreira é a mesma para qualquer um [5];
  • sobrenomes com iniciais do começo do alfabeto tem maiores chances de receber recursos para suas pesquisas [6];
  • iniciais do nome do meio ajudam a aumentar avaliações de performance intelectual [7];
  • pessoas com nomes fáceis de pronunciar são julgados mais positivamente do que aqueles com nomes difíceis [8];
  • pessoas com sobrenomes soando nobres têm mais chances de ocupar cargos de gerência do que como funcionários comuns [9];
  • mulheres com apelidos masculinos são melhores sucedidas em carreiras legais [10];
  • a probabilidade de ser tornar CEO é fortemente influenciada pelo nome e mês de nascimento [11];
  • ideias inovadoras (criativas) são resultados de efeitos aleatórios na rede cerebral [12];
  • a probabilidade de desenvolver câncer é majoritariamente devido ao azar [13,14];
  • sucesso reprodutivo mostra que variação de características podem influenciar o destino de uma população, mas a vida individual é governada muitas vezes pela sorte [15,16];

O primeiro tópico é o caso que citei no início do texto. Se um cientista produz um trabalho de alto impacto este, pelas estratégias atuais, será beneficiado quando solicitar verbas para suas pesquisas. Seguindo o paradigma meritocrático ele é merecedor pelo que já demonstrou, é talentoso. Pelo que foi descoberto na pesquisa, os que não publicaram trabalhos relevantes podem fazê-lo no futuro ainda com as mesmas chances dos “vencedores”, mas criamos uma desigualdade dando menos ou nenhum recurso para eles.

Como ser justo nesse caso? O acaso, novamente, desempenha um papel grande nesse resultado. 

E agora?

Vamos acabar com o blá blá blá e falar de uma vez sobre qual o verdadeiro impacto do acaso? Hmmm, infelizmente esse texto já está grande e vamos continuar na semana que vem.

Não desista de mim, você vai achar as conclusões do texto seguinte muitíssimo interessantes (ou seu dinheiro de volta :p). Enquanto espera poderia até ler algo sobre o tema, não? Um livro que serviu de pesquisa para mim é o recém lançado em português “A Tirania do Mérito: O que aconteceu com o bem comum?” do autor Michal J. Sandel.

É uma leitura imprescindível para quem quer discutir e aprender sobre esse tema e você pode até assistir essa entrevista da Gabriela Prioli com o autor (legendas em português)

Referências

  1. Hardoon, Deborah. An Economy for the 99%: It’s time to build a human economy that benefits everyone, not just the privileged few. Oxfam, 2017.
  2. Pluchino, Alessandro, Alessio Emanuele Biondo, and Andrea Rapisarda. “Talent versus luck: The role of randomness in success and failure.” Advances in Complex systems 21.03n04 (2018): 1850014.
  3. Sandel, Michael J. The tyranny of merit: What’s become of the common good?. Penguin UK, 2020.
  4. Young, Michael. The rise of the meritocracy. Routledge, 2017.
  5. Sinatra, Roberta, et al. “Quantifying the evolution of individual scientific impact.” Science 354.6312 (2016).
  6. Einav, Liran, and Leeat Yariv. “What’s in a surname? The effects of surname initials on academic success.” Journal of Economic Perspectives 20.1 (2006): 175-187.
  7. Van Tilburg, Wijnand AP, and Eric R. Igou. “The impact of middle names: Middle name initials enhance evaluations of intellectual performance.” European Journal of Social Psychology 44.4 (2014): 400-411.
  8. Laham, Simon M., Peter Koval, and Adam L. Alter. “The name-pronunciation effect: Why people like Mr. Smith more than Mr. Colquhoun.” Journal of Experimental Social Psychology 48.3 (2012): 752-756.
  9. Silberzahn, Raphael, and Eric Luis Uhlmann. “It Pays to be Herr Kaiser: Germans with Noble-Sounding Last Names More Often Work as Managers.” Academy of Management Proceedings. Vol. 2013. No. 1. Briarcliff Manor, NY 10510: Academy of Management, 2013.
  10. Coffey, Bentley, and Patrick A. McLaughlin. “From lawyer to judge: Advancement, sex, and name-calling.” Sex, and Name-Calling (January 25, 2009) (2009).
  11. Du, Qianqian, Huasheng Gao, and Maurice D. Levi. “The relative-age effect and career success: Evidence from corporate CEOs.” Economics Letters 117.3 (2012): 660-662.
  12. Iacopini, Iacopo, Staša Milojević, and Vito Latora. “Network dynamics of innovation processes.” Physical review letters 120.4 (2018): 048301.
  13. Tomasetti, Cristian, Lu Li, and Bert Vogelstein. “Stem cell divisions, somatic mutations, cancer etiology, and cancer prevention.” Science 355.6331 (2017): 1330-1334.
  14. Newgreen, Donald F., et al. “Differential clonal expansion in an invading cell population: clonal advantage or dumb luck?.” Cells Tissues Organs 203.2 (2017): 105-113.
  15. Snyder, Robin E., and Stephen P. Ellner. “We happy few: using structured population models to identify the decisive events in the lives of exceptional individuals.” The American Naturalist 188.2 (2016): E28-E45.
  16. Snyder, Robin E., and Stephen P. Ellner. “Pluck or luck: does trait variation or chance drive variation in lifetime reproductive success?.” The American Naturalist 191.4 (2018): E90-E107.

 

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