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A reorganização do Campo intelectual e o novo lugar dos intelectuais

por em 20/07/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

A reorganização do Campo intelectual e o novo lugar dos intelectuais

Felipe Neto é o mais importante intelectual brasileiro da atualidade. Centro do Roda Viva e destaque no New York Times, o Youtuber de 32 anos consegue fazer com que suas críticas ao governo Bolsonaro sejam ouvidas para um número de gente que nenhum manifesto assinado por intelectuais da velha guarda jamais pensaria em conseguir nos dias de hoje.

Esta afirmação faz sentido, porém ainda não é possível dizer que ela seja verdadeira. Ainda. É indiscutível a capacidade de repercussão que Felipe Neto possui, no entanto, não é possível classificá-lo como um intelectual, uma vez que ele assim não se entende. De maneira bastante superficial e seguindo as indicações de Norberto Bobbio, podemos dizer que um intelectual é o

“sujeito a quem se atribui de fato ou de direito a tarefa específica de elaborar e transmitir conhecimentos, teorias, doutrinas, ideologias, concepções do mundo […], que acabam por construir […] os sistemas de ideias de uma determinada sociedade” (BOBBIO, 1997, p. 110).

Não é exatamente isso o que Felipe Neto faz, ainda que transmita algumas concepções de mundo e influencie uma porção considerável de gente com seu canal, ele está longe de produzir interpretações sobre a realidade social. Além disso, existe a questão do auto reconhecimento e do aval dos pares. Desde o final do século 19 com o famigerado affair Dreyfus1, na França, é possível dizer que os intelectuais se converteram em uma espécie de campo autônomo formado por pessoas que conseguem interferir junto à opinião pública independente dos cargos que ocupam, do dinheiro que possuem ou da família a qual pertençam. São sujeitos que usam da “própria reputação, o próprio talento reconhecido, a própria autoridade moral para convencer e superar os gigantescos obstáculos impostos pelo poder” (DELPORTE, 1996, p. 9).

Este talento reconhecido vem do julgamento dos pares, dos membros que compõe tal campo e que estabelecem suas regras e definem quem faz ou não parte desse seleto grupo. Aqui, vale lembrar que a noção de campo foi desenvolvida pelo Sociólogo Pierre Bourdieu para denominar estruturas sociais que, apesar de vinculadas à sociedade, desenvolvem suas próprias regras e sistemas de validação, “padrões e parâmetros de avaliação que servem para legitimar e validar um determinado produto e/ou conhecimento” (PINHEIRO, 2014, p. 70). No caso das artes, por exemplo, é o campo dos artistas quem define aquilo que é belo ou não para além das questões estéticas que envolvem uma obra. No caso dos intelectuais, o poder de influência de um intelectual está diretamente relacionado ao reconhecimento dado a ele por seus iguais. E, neste ponto, não é possível dizer que Felipe Neto possua qualquer benção de nossa intelligentsia.

Porém, o fato de sua voz impactar nas discussões públicas de maneira muito maior do que qualquer outro nome do pensamento brasileiro nos abre espaço para pensar se não estamos vivendo algum tipo de revolta das periferias dentro do campo intelectual, em um fenômeno observável não apenas no Brasil. Isso porque, ainda segundo Bourdieu, por não estar totalmente descolado da sociedade, os campos sofrem influência das transformações produzidas na mesma. Tais alterações, por sua vez, podem contribuir para a mudança das regras dentro do campo e projetar o surgimento de novos elementos antes estranhos ao grupo, fazendo com que os antigos donos do jogo vivam um momento de contestação de suas leis. Conforme explica o francês, “[…] em cada campo se encontrará uma luta, da qual se deve, cada vez, procurar as formas específicas, entre o novo que está entrando e que tenta forçar o direito de entrada e o dominante que tenta defender o monopólio e excluir a concorrência” (BOURDIEU, 1983, p. 89).

Neste ponto, a qualificação de Felipe Neto como alguém que não está autorizado a falar sobre assuntos da política brasileira tem a ver com esse exercício natural de destruir a concorrência. Porém, enquanto aqueles responsáveis pela organização da sociedade, ocupando um lugar de vozes da consciência moral da mesma, é bastante nítido que, a despeito do que desejem, os intelectuais estão em desvantagem neste momento. Neste caso, é possível que estejamos diante de um contexto em que a palavra escrita, hábito maior do campo intelectual esteja em xeque, abrindo espaço para que personagens ligados às redes sociais ou às mídias audiovisuais reivindiquem um protagonismo que vem de sua capacidade de influência junto ao público e não necessariamente da qualidade e/ou refinamento de sua reflexão.

Átila Iamarino é outro nome que pode nos servir de exemplo para pensarmos essa problemática. Diferentemente de Felipe Neto, Átila possui uma carreira acadêmica de respeito, com mestrado, doutorado e estágios de pós doutoramento no exterior. Seguindo as normas aqui estabelecidas, poderíamos dizer que o biólogo é parte do campo, ainda que ocupasse uma posição de outsider dentro do mesmo. Sendo assim, o que fez com que seu nome fosse convertido à condição de opinião inescapável em torno das discussões sobre a Covid-19? Em nosso entendimento, a resposta está justamente na sua capacidade de influenciar pessoas com sua exposição em canais de Youtube e outras mídias sociais e não somente pela qualidade verificada de suas pesquisas. Tal reconhecimento redundou em um convite para que ele fosse o centro do Roda Viva e, mediante a tal repercussão, convidado para escrever na Folha de São Paulo e para o Uol.

São eventos como esses que demonstram as renegociações dentro dos campos, onde alguns atores percebem as mudanças em curso e cooptam os novos personagens, tentando angariar poder com a relevância que os ingressantes possuem, ao mesmo tempo em que os informam da necessidade de que sigam antigos ritos. No caso de Átila, por exemplo, escrever para a Folha tem a ver com o respeito a esses códigos de prestígio, como uma espécie de batismo, ao mesmo tempo em que ele atrai um novo público leitor para as páginas do Diário.

De outro modo, este fenômeno também pode ser observável na dinâmica da política. A própria reorganização da direita e a tomada de protagonismo por parte de Olavo de Carvalho no cenário da discussão pública podem nos servir de exemplo. Ainda que tenha uma trajetória dentro do campo intelectual, com livros e artigos que disputavam a atenção de um público maior na década de 1990, os anos 2000 levaram Olavo ao ostracismo, tendo sido desqualificado pela academia e por outros setores da intelectualidade. De maneira inegável, o seu reposicionamento no campo se deu quando ele passou a produzir conteúdo para o Youtube, fato que expandiu sua audiência e o deu relevância nesses novos tempos. Conforme já mencionei em outro artigo escrito para o @marcos.sorrilha/a-trai%C3%A7%C3%A3o-dos-intelectuais-3330a0a637e2">Médium,

“as novas mídias e redes sociais, em especial o YouTube, tornaram-se um campo fértil para que surgissem novos sujeitos que (se não são intelectuais no sentido adjetivo da palavra) substantivamente cumprem o papel do [mesmo…]. Enquanto cresciam em popularidade entre o público comum, esses novos sujeitos eram menosprezados pelos setores tradicionais de produção do saber e, ao mesmo tempo, ganhavam poder junto à sociedade civil”.

De certa maneira, a intelectualidade presa em certos hábitos academicistas não percebeu que o mundo mudava e que os seus antigos métodos de legitimação já não serviam para dizer quem deveria ou não ser chamado a opinar sobre o mundo e suas incertezas. Encastelada em seus feudos de autorrepresentações, esqueceu-se da relação que os campos têm com a sociedade e demorou para fazer a leitura de que, agora, as formas de intervenção intelectual são mais dinâmicas, informais e virtuais.

Neste ponto é possível que se diga que Felipe Neto é apenas um sintoma de uma problemática maior, que evidencia como as novas formas de comunicação abriram sendas dentro do campo intelectual e nas dinâmicas de intervenção junto à sociedade. Da mesma forma, aponta para a existência de desdobramentos dentro desse contexto que tornam possíveis que outsiders e antigos desafetos dentro do ambiente intelectual tenham a oportunidade de rever seu posicionamento no jogo.

Por fim, é possível que se alegue que longe de ser um fenômeno novo, algo semelhante também ocorreu com o advento do rádio e da TV. Porém, aqui a diferença está na facilidade de se ter acesso à tela alheia, sem precisar de uma equipe de montagem, estúdio, equipamentos adequados ou licenças governamentais para se atuar junto ao público, o que, de certa maneira, promove ainda mais independência aos atores no processo de emissão de suas opiniões. Talvez, mais do que um problema, este novo formato do campo intelectual seja o ambiente propício para que os intelectuais encontrem novos lugares para o exercício de sua função.

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  1. “O affaire Dreyfus diz respeito à condenação do oficial do exército francês Alfred Dreyfus, acusado de traição, em 1894. Diante das evidencias de inocência do condenado, um grupo de pensadores da época, liderados por Émile Zola, organizou uma carta manifesto intitulada J’accuse. A mobilização surtiu efeito e a sentença foi revertida em favor do oficial. O evento é um marco na história dos intelectuais, uma vez que demonstra a capacidade de mobilização e intervenção dessas personagens, para além de sua antiga imagem de analistas externos da sociedade” (AGGIO & PINHEIRO, 2012, p. 28).

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Bibliografia:

AGGIO, Alberto  & PINHEIRO, Marcos Sorrilha. Os intelectuais e as representações da identidade latino-americana. In: Dimensões, vol. 29, 2012, p. 22-49.

BOBBIO, Norberto. Os intelectuais e o poder. Dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea. São Paulo: Editora Unesp, 1997.

BOURDIEU, Pierre. Algumas propriedades dos campos. In: ______. Questões de Sociologia. Rio de Janeiro: Ed. Marco Zero Limitada, 1983.

DELPORTE, C. Intellettuali e politica. Firenze: Giunti, 1996.

PINHEIRO, Marcos Sorrilha. As Contribuições da Sociologia para o Desenvolvimento da História Intelectual. In: História e Cultura, Franca, v.3, n.3 (Especial), p. 66-88, dez. 2014.

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