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A Aranha (conto) Parte Dois

por em 22/10/2021 em Entretenimento, Notícias | Nenhum comentário

A Aranha (conto) Parte Dois

O barulho da multidão já havia desaparecido, ele se encontrava agora fechado no casulo de teia. Percebeu então mais um pensamento invadir seu cérebro: “Abra os olhos e veja o que nenhum ser humano jamais viu!”

Ao abrir os olhos, em vez da escuridão do casulo, Marcos viu uma paisagem fantástica. Um campo que se estendia até onde sua vista alcançava e uma luz branca e suave, que iluminava tudo a sua volta. Olhou para o céu, mas não viu nada que se parecesse com o céu conhecido por nós. Era uma explosão de tons e formas a se emaranharem, como um oceano colorido. Seus pés tocavam uma relva macia e úmida. O ar parecia mais denso, como se fosse possível, com um salto, flutuar por alguns instantes. Seus sentidos pareciam ampliados. Tudo era percebido por ele. Todos os sons, todas as cores (algumas jamais vistas) e todos os aspectos daquele vibrante cenário eram captados por seu cérebro.

Veio então à sua mente, de novo, aquela estranha comunicação. Aquele pensamento suave dizia: “Aos humanos nunca foi dado conhecer a maneira como os seres que por vocês são considerados inferiores percebem o universo. O fato é que estamos nesse planeta muitos milênios antes do mais antigo ancestral dos humanos. Por muito tempo esse foi o nosso lar, onde éramos senhores absolutos. A forma de inteligência que desenvolvemos é bem diversa da sua. As vibrações que captamos do ambiente a nossa volta são em outras frequências, o que faz com que o mundo para nós seja bem diferente do que é para vocês.”

“Nesse momento, a substância que foi injetada em sua corrente sanguínea faz com que você perceba o mundo como se fosse um de nós. Todo o animal pertencente ao grupo que por vocês é chamado de filo arthropoda percebe o mundo dessa maneira.” E a aranha continuou:

“Vocês não entendem, mas toda a vida na Terra está interligada. Há uma comunicação entre todas as criaturas, sejam elas plantas ou animais. O planeta inteiro pulsa como um organismo único. Um colossal organismo cósmico. A ciência de vocês chegou a um ponto de conseguir buscar, fora do planeta, outras formas de vida ou outros mundos que se assemelhem à Terra, mas acontece que planetas vivos como esse são raros, dadas as proporções do universo. Outros planetas já foram vivos como a Terra, mas pereceram diante da irresponsabilidade daqueles que o habitavam, tornando-se mundos desérticos e mortos.”

Concentrando-se ao máximo Marcos tentou então responder ao pensamento, enviar também uma mensagem. E conseguiu se fazer entender, dizendo: “Mas, por que vocês me escolheram para mostrar isso? O que vocês querem que eu faça?”

A resposta veio imediata: “Minhas irmãs, observando seus olhos, perceberam que você tinha sensibilidade suficiente para entender nossa mensagem. Você não é o único, mas é o que estava mais próximo de nós. O que queremos de você é que leve um alerta aos seus irmãos humanos. Sua espécie vem alterando o equilíbrio físico do planeta há muito tempo. Agora essa alteração chegou a tal ponto que começa mesmo a ameaçar o mecanismo básico de funcionamento da Terra, que é a rede de comunicação que se estende por todo o planeta e chega a todas as espécies vivas. O ser humano se distanciou há muito tempo das demais espécies, criando para si um modo de vida artificial e por isso, não mais compreende essa comunicação e vive alheio ao mundo. Acredita que o planeta pertence à sua espécie, quando na verdade todas as espécies são apenas elementos que compõem um único organismo. Sua exploração desenfreada de recursos naturais, a poluição que vocês despejam o tempo todo no meio ambiente, seus testes com armamentos nucleares, a, principalmente, a alteração que fazem na genética de muitas espécies vegetais e animais que usam para seu consumo, agora que descobriram a manipulação do DNA, isso tudo está afetando o planeta. Se algo não for feito imediatamente, todas as espécies desaparecerão e a Terra será um planeta morto como tantos outros.”

Com novo esforço de concentração, Marcos replicou: “Mas o que eu sozinho poderei fazer?” E foi respondido de pronto: “Você não estará sozinho. Outras como eu vão aparecer para se comunicar com outros como você. Basta ficar atento e logo você terá a colaboração de muitos. Nosso esforço é no sentido de conscientizar o maior número de pessoas. Tanto pessoas comuns quanto os grandes líderes. Precisamos fazê-los compreender que o futuro de toda a vida no planeta está em jogo…

De súbito, ele escutou um estampido e tudo ficou escuro novamente. Perdeu a consciência por algum tempo e despertou assim que o sol quente tocou sua face. Abrindo os olhos, pôde observar dezenas de rostos atônitos. Ouviu também alguns comentários: “Está vivo!” “Não é possível!”

O casulo estava sendo cortado pelo bombeiros com uma espécie de serra circular. Ele havia sido resgatado.

Tentando se desvencilhar dos paramédicos que o examinavam, ergueu a cabeça e olhou na direção da teia da aranha, agora vazia. Nesse momento passou na sua frente um grupo de homens, carregando em uma rede o corpo inerte da aranha gigante. Ela havia sido morta pelos rifles da polícia, que foi chamada assim que Marcos foi enrolado no casulo.

Desesperado, ele reuniu todas as suas forças para um grito: “O que foi que vocês fizeram?”

Foi levado então ao hospital e, depois de examinado, constataram que ele estava em perfeita saúde, a não ser por duas pequenas marcas no ombro esquerdo. Após um período de observação estava liberado. Foi recebido então no saguão do hospital por sua esposa e seu filho, que o abraçaram em prantos. Marcos chorou também, talvez por compreender, agora perfeitamente, a extensão da ignorância e da insensibilidade da humanidade diante da natureza.

Logo chegou um grupo de repórteres, querendo saber o que havia se passado. Todas as perguntas foram em tom sensacionalista, colocando-o como a vítima indefesa que foi salva de um mostro assassino. Ele não conseguia deixar de pensar que os homens eram os verdadeiros assassinos. Tentou aproveitar a oportunidade para difundir na mídia a mensagem que a aranha havia tentado lhe passar, mas foi recebido com incredulidade e desconfiança. A maior parte das pessoas achava que ele estava sob estresse pós-traumático e havia inventado aquilo tudo. Nenhum cientista veio conversar com ele.

Ao chegar em casa, sua cabeça fervilhava. Tudo isso parecia fantástico demais para ser realidade. Terá sido um sonho? Resolveu ligar a TV para desviar seu pensamento. Logo, a música estridente do plantão jornalístico chamou a sua atenção e em seguida veio a voz da repórter: “Urgente! Exibiremos, com exclusividade, imagens da aranha gigante que se instalou em uma enorme teia feita entre os edifícios próximos à Sede das Nações Unidas em Nova York. Animais de proporções semelhantes foram vistos em diversos outros locais pelo mundo, inclusive no Brasil. Cientistas tentam compreender qual a causa do curioso fenômeno. Os principais veículos de comunicação pelo mundo receberam mensagens de pessoas que dizem que as aranhas se comunicaram com elas e que se trata de um fenômeno global…”

FIM

Fonte da imagem de capa

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