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História de ninar gente grande (ou Introdução ao Estudo da História)

por em 05/03/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

História de ninar gente grande (ou Introdução ao Estudo da História)

O Carnaval está aí e com ele a História, cantando ô abre-alas, que eu quero passar… Faz sucesso, desde o final de 2018, o samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira. Ainda não ouviu? Clique aqui! E não é para menos, a canção é uma baita aula de como é feita e como poderia ou deveria ser feita a História.

Brasil, meu nego, deixa eu te contar,

a história que a História não conta;

o avesso do mesmo lugar;

na luta é que a gente se encontra!

Logo na primeira estrofe, há um verso interessante: “a história que a História não conta”. Ora, se é história, está tudo contado! Ou não?

Vamos por partes: durante nosso período na escola (e mais tarde, na faculdade, nos canais de televisão, nos videos do Youtube), estudamos e apreendemos (do verbo apreender) uma certa história, uma narrativa que, em grande parte, pertence ao senso comum: Pedro Álvares Cabral “descobriu” o Brasil, D. Pedro “declarou” a independência, as “aventuras” dos bandeirantes, enfim, a História baseada nos grandes vultos. Fica parecendo que a História foi escrita por um grupo de maiorais, bã-bã-bãs, uma galera do balacobaco…. Só que não! Por trás dessa história, há diversas outras que não vemos ou não nos deixam ver, porque, como qualquer ciência social, a História que se conta é baseada em um recorte. E a narrativa construída depende das escolhas realizadas pelo autor do livro-texto, pelo professor em sala de aula e mesmo a partir do interesse dos alunos.

Se visitarmos duas classes da mesma série que estejam estudando o mesmo conteúdo, é provável que cada uma esteja aprendendo a História de um modo diferente, com base nos recortes de cada professor ou orientador pedagógico. Neste ponto, é preciso ressaltar: não há nada errado nisso, desde que feito com o apoio de bibliografia de boa qualidade e baseado em fatos ou hipóteses apoiadas cientificamente. Bons historiadores, temos aos montes, com diversas opiniões e conclusões válidas academicamente!

A história não contada, invisível, já foi abordada por ninguém menos que Bertold Brecht, em seu poema Quem faz a História?. Para cada grande vulto, no subterrâneo de todo grande evento, há uma série de histórias desconhecidas e extremamente relevantes para a compreensão dos acontecimentos estudados. Mas, muitas vezes, isso é abordado de forma rápida e superficial ou nem é estudado em sala de aula.

Brasil, meu dengo, a Mangueira chegou

com versos que o livro apagou,

desde mil e quinhentos,

tem mais invasão do que descobrimento!

Tem sangue retinto, pisado,

atrás do herói emoldurado,

mulheres, tamoios, mulatos,

eu quero o país que não tá no retrato!

Um alerta aos desavisados: essas estrofes não tratam de enaltecer o revisionismo. A letra, neste trecho, explicita que cada fato histórico pode ser narrado de acordo com as observações de diferentes atores ou intérpretes – mais uma vez, frisamos: sempre com base em estudos e evidências. História é ciência e, por isso, possui uma metodologia própria para quem deseja produzir historiografia.

Por outro lado, há diversas vozes que a história oficial deixa de ouvir, propositalmente ou não, e que são fontes preciosas para o conhecimento das raízes da nossa sociedade.

Vamos pensar um pouco: em sala de aula, estudamos sobre o “descobrimento” do Brasil, esta grande porção de terra desconhecida, onde chegaram os portugueses em 1500. Mas se nós pararmos para ouvir a tradição oral dos povos indígenas, será que vamos ter contos sobre um “descobrimento”? Certamente, não! Afinal, não teria sentido os anciões da tribo contarem aos jovens, sentados em volta de uma fogueira “e então, aqueles homens brancos chegaram em nossas terras, a bordo de seus barcos enormes, e nos descobriram”. Para os povos originários – e eu confesso minha ignorância, pois nunca estudei a História a partir do ponto de vista dos índios -, o que houve não foi um descobrimento, mas um encontro, seguido de um período de invasão, em que os portugueses começaram a tomar posse da terra e expulsar as tribos daqueles territórios, primeiro com o objetivo de extração do pau-brasil, depois para plantar cana, procurar ouro, plantar café…. E essa narrativa não tem lugar em boa parte dos livros didáticos. Mas tenho certeza de que muitos professores aproveitam essa oportunidade para estimular suas turmas a pesquisar as diversas versões da história e descobrir novas fontes. O ensino histórico, realizado deste modo, é uma experiência muito rica.

Brasil, o teu nome é Dandara

e a tua cara é de cariri!

Não veio do céu,

nem das mãos de Isabel, a liberdade,

é um dragão no mar de Aracati!

Salve os Caboclos de Julho,

quem foi de aço nos anos de chumbo!

Brasil, chegou a vez

de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês!

Mangueira, tira a poeira dos porões,

Ô abre alas pros seus heróis de barracões,

dos brasis que se faz um país de lecis, jamelões!

São verde-e-rosa, as multidões!

Mencionamos os recortes e escolhas dos profissionais ligados à ciência histórica, que estudam seus objetos e expõem os fatos. No entanto, algumas escolhas são feitas com o objetivo deliberado de esconder ou ressaltar determinados personagens. Os últimos versos apresentam alguns personagens que, sem-querer-querendo, foram suprimidos da chamada história oficial. Outros personagens também são propositalmente esquecidos ou diminuídos: o quanto conhecemos sobre o Almirante Negro ou Zumbi? E nem mencionamos aqueles fatos ou figuras que foram, digamos, enfeitados para parecer um pouco mais heroicos do que o modo como realmente se passaram – que não conhece a figura de Tiradentes (também chamado cosplay de Jesus), ou o quadro de Pedro Américo, O Grito do Ipiranga? São exemplos de como fatos podem ser remodelados para a finalidade de criar uma narrativa mais atraente e com um propósito específico – nos casos citados, enaltecer o sentimento de patriotismo e culto à personalidade.

Seria possível explorar bastante as estrofes finais, mas acreditamos que a inteligente leitora e o esperto leitor já entenderam o objetivo deste texto. A História é um mosaico composto, com método e arte, a partir de observadores (fontes) diversos. Ao historiador – e ao professor em sala de aula – cabe desvendar as histórias que a compõem, trazer à luz os personagens que podem parecer pequeninos, mas que guardam verdadeiras preciosidades à espera de um bom narrador.

Antes de acabar, um pequeno desafio: vocês são capazes de identificar as referências que estão contidas no samba: Dandara, cariri, dragão do mar de Aracati, entre outros? Pode jogar no gúgol, vale a pena a busca.

E então, vamos curtir o Carnaval? E, no embalo, que tal aprender um pouco mais de História?

Crédito da imagem de capa

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