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O que um agente funerário e um telefone tem em comum?

por em ter 12America/Sao_Paulo set 12America/Sao_Paulo 2017 em Notícias | 5 comentários

O que um agente funerário e um telefone tem em comum?

Dois empresários conversando:

– Eu sei conversar com meus fregueses, por isso eles sempre voltam e os seus?

– Os meus nunca voltam, tenho uma empresa funerária.

Almost Brown Strowger (1839 – 1902) já deve ter dito essa piada várias vezes, mas o problema de seus clientes nunca voltarem resultou numa das maiores invenções da telefonia. Se hoje em dia você pode falar com qualquer pessoa do mundo sem precisar de uma telefonista a culpa é desse senhor aqui.

Almost Brown Strowger 1839 – 1902 (Fonte: http://www.strowger.net/)

Para entender a importância de Strowger precisamos explicar rapidamente o funcionamento de um telefone. Basicamente, o sistema telefônico mais simples consiste de um microfone para transformar as ondas sonoras em sinais elétricos, um fio para transportar a informação e um alto-falante para fazer o processo inverso. Então é muito fácil de você falar com seu vizinho por meio de um telefone. Mas e se você quiser falar com o outro vizinho? Simples: mais um microfone, um fio e um alto falante. Agora, imagine se você quiser falar com todas pessoas da sua rua, quanto fios seriam necessários para interligar todas as casas? Imagine a quantidade fios para uma cidade – impossível até de imaginar não é?

Resumo de um sistema telefônico ponto a ponto. (Fonte: http://www.teleco.com.br/Curso/Cbintro/pagina_3.asp Acesso em 07 de set. de 2017)

Voltando ao século XIX, mais especificamente no anos de 1870, as centrais telefônicas foram desenvolvidas logo após a invenção do telefone. Provavelmente você já viu em filmes de época que para realizar uma ligação telefônica deveria ligar para uma central telefônica e a telefonista seria responsável por encaminhar sua ligação para o destino, conectando os fios num bastidor a sua frente.

Central de Comutação Telefônica (Fonte: Por Kreuger scanned this picture in october 2007 – from the book “De Electriciteit” by P. van Capelle from 1893, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2861797)

Eis que chega o nosso personagem principal. Que fique claro que essa história contada aqui é a dita por grande parte das referências da época; existem outras versões, mas não iam ser tão interessantes como esta (a lei da gravitação universal de Newton não seria tão interessante se não fosse a maçã, não é mesmo?).

Almon Brown Strowger era um agente funerário em Kansas City, Missouri. Em 1887, o uso da telefonia já era fundamental para serviços comerciais. Ele percebeu que seu negócio não estava indo bem, poucos clientes e todos já conhecidos, nem ao menos uma ligação telefônica. Tentando entender o que estava acontecendo, percebeu que o problema se restringia a sua empresa, pois os negócios da outra funerária da cidade iam de vento em popa.

Certo dia ele estava fora da sua funerária e precisou falar com um dos seus funcionários, pediu linha (se você não sabe o que significa pedir linha, pergunte aos seus avós :p ) e quando a telefonista atendeu pediu que sua ligação fosse transferida para a funerária, sua ligação foi completada e a recepcionista da outra funerária atendeu. No momento ele achou normal, pois existia um acordo entre os comerciantes e a central telefônica, cada nova ligação deveria ser encaminhada para diferentes destinatários. Voltou a ligar e a ligação caiu novamente na outra funerária; logo em seguida tentou novamente e mais uma vez a situação se repetiu.

Cansado da situação, Strowger foi à central telefônica e descobriu o que estava acontecendo.  A telefonista tinha um relacionamento amoroso com o dono da outra funerária. Óbvio que a situação foi resolvida depois de um tempo, mas a pulga nasceu atrás de sua orelha: humanos podem ser comprados e acordos podem ser refeitos. Como esse problema das centrais telefônicas podia ser resolvido? Como poderia ter a garantia de sempre ter um encaminhamento de ligação “impessoal”?

Strowger começou a desenvolver junto com o seu sobrinho uma central telefônica automática. Muito embora outras tentativas de centrais telefônicas estivessem sendo desenvolvidas na mesma época, a central telefônica de Stowger foi a que se tornou a base para o desenvolvimento da telefonia. A primeira central telefônica automática de Strowger foi finalizada em 1889, ano que solicitou a patente de sua invenção, concedida em 1891.

Seletor de Strowger (Fonte: http://www.strowger.net/strowger-automatic-telephone-exchange/)

A base de seu sistema seletor é composta por um tambor de 10 linhas e 100 contatos por linha, cada um desses ligados a linha de um assinante. O tambor tinha internamente um eixo vertical conectado a um braço com contatos, movendo-se para baixo e para cima. Além de duas rodas dentadas, uma com 10 dentes e outra com 100 dentes.

Para realizar a ligação, o usuário deveria realizar a combinação do acionamento de três botões G, H e I, localizados numa caixa em sua casa (sim, isso no futuro se tornou o teclado numérico). Imagine você querendo ligar para o número 428, então deveria pressionar o botão G das dezenas 4 vezes, resultando num movimento para a posição 4 no eixo vertical da central telefônica; depois pressiona 2 vezes o botão H das dezenas e a primeira roda dentada moverá dois passos, e então por último 8 vezes o botão das unidades I e a última roda dentada fara o contato com o destino.

Foto do Seletor de Strowger (Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Uniselector_Stepper_detail.jpg)

Após essa invenção, ele largou a funerária e abriu sua empresa de Seletores Automáticos de telefonia em 1891. No ano de 1982, a empresa desenvolveu o primeiro centro de comutação telefônica automática do mundo, na cidade de La Porte, em Indiana. Seis anos depois, ele vendeu sua patente por 1800 dólares e sua parte na companhia por 10 mil dólares. Morreu em 1902 e não imaginava que sua invenção iria ser licenciada para a Bell System por 2 milhões e meio dólares em 1916.

Apesar de não tão falado como Alexander Graham Bell, Strowger é um dos pais da telefonia. Sua central telefônica automática e os padrões passo a passo e controle por pulsos foram e ainda são utilizados pela telefonia. A título de curiosidade, se você mudar a chave do telefone fixo de tone para pulse e apertar qualquer tecla vai escutar os pulsos equivalentes à aquela tecla (não esqueça de mudar de volta para tone, pois nossas centrais telefônicas digitais atuais se comunicam melhor via tons) e esses pulsos são equivalente a quantidade de vezes que você deveria pressionar as teclas nas primeiras centrais de Strowger.

Abraços e espero que esse pequeno artigo tenha mudado um pouco a fama dos agentes funerários. Comentem o que acharam e não pensem duas vezes em avisar algum erro nos fatos aqui relatados.

 

Referências:

https://www.technologyreview.com/s/400630/no-operator-please/

https://en.wikipedia.org/wiki/Telephone_exchange#Early_automatic_exchanges

http://www.slate.com/articles/life/dear_prudence/2017/09/dear_prudence_my_mother_in_law_says_she_s_psychic.html

http://www.strowger.net/

http://museudastelecomunicacoes.org.br/


Pedro Ivo Professor, Líder do MARIA, Coffe Geek, trompetista nas horas vagas e apaixonado pela história das tecnologias.

  • Matheus Pereira Furlan

    no 1 paragrafo depois da ultima imagem esta escrito 1982 no lugar de 1892.
    e no ultimo paragrafo antes da penultima imagem (com o desenho do projeto) esta escrito Stowger e não Strowger.

    esses são os unicos erros no texto.

    • Pedro Nascimento

      Opa, obrigado pelas dicas.
      Vamos tentar sempre melhorar.

  • Adriano Alexandrino

    Que história bacana, interessante que alguns inventos vieram de raciocínio das dificuldades das pessoas

    • Pedro Nascimento

      Isso é o que me encanta na história das tecnologias. Das necessidades(pequenas ou grandes) que surgem algumas das maiores invenções.

  • Rodolfo da Silva Carvalho

    Excelente texto!

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