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O que fazer na falta de um experimento aleatório controlado?

por em seg 04America/Sao_Paulo dez 04America/Sao_Paulo 2017 em Notícias | 4 comentários

O que fazer na falta de um experimento aleatório controlado?

Educação é algo valioso. Recentemente, duas notícias do jornal O Globo apresentaram estatísticas com relação ao ganho salarial de pessoas que concluíram o ensino superior e também de pessoas que concluíram mestrado e/ou doutorado em comparação com aqueles que só concluíram o ensino médio. Mais impressionante ainda, e que talvez nem todos saibam, é que além do ganho salarial existe um ganho na expectativa de vida. Mas seria este resultado efeito da educação ou uma mera correlação?

A resposta não é óbvia. É possível que a educação por si só traga benefícios para saúde. O ganho cognitivo pode, de algum jeito, ser um determinante para a longevidade. Por outro lado, pessoas mais educadas são, em sua maioria, pessoas pertencentes às classes sociais mais altas. Essas pessoas possuem maior acesso a uma melhor alimentação, melhores hospitais, dentre outras coisas. Além disso, conforme a própria OCDE relatou em seu relatório Education at Glance, pessoas com menor nível de ensino estão mais propensos a vícios e outros fatores que reduzem a expectativa de vida. Nesse caso, a educação não seria a causa da expectativa de vida mais elevada, mas somente uma das consequências de pertencer a classes econômicas mais altas. Como poderíamos então identificar se a educação por si só é causa dessa longevidade encontrada nas correlações mencionadas acima?

Tal como ocorre comumente na medicina, um dos melhores caminhos é o experimento aleatório controlado. Em suma, assim como quando testamos uma nova droga, o experimento ideal consistiria em separar nossa amostra entre dois grupos: controle e tratamento. Um deles não receberia qualquer interferência, enquanto o outro seria tratado com o que quer que esteja sendo testado. No nosso caso precisaríamos selecionar alguns indivíduos, separá-los em dois grupos e encaminhar um para escola e o outro não. Passado um tempo, faríamos a análise das taxas de mortalidade.

Fonte: http://evidencebasedliving.human.cornell.edu/files/2011/04/control-group1.jpg

Sim, seria uma maluquice. O leitor provavelmente já percebeu que o que chamamos de experimento ideal não é viável. Mas se isso não é possível, o que fazer? Temos que nos conformar em não solucionar o dilema? Não.

A solução para esse tipo de problema está no que chamamos de experimentos naturais.

O experimento natural é a situação na qual temos grupos de tratamento e controle determinados pela natureza, ou algum outro fator externo, que não é controlado pelo pesquisador e imita um experimento que não seria possível de ser realizado. Ou seja é uma forma do mundo fazer seus próprios experimentos e nos dar aquela força.

E foi exatamente utilizando este tipo de procedimento que a economista Adriana Lleras-Muney se tornou umas das pioneiras no assunto educação e mortalidade. Nos EUA diferentes estados possuem diferentes leis, o que faz com que cada estado tenha suas próprias exigências quanto ao número mínimo de anos de frequência escolar obrigatórios. Em seu artigo intitulado The Relationship Between Education and Adult Mortality in the United States, Lleras-Muney utilizou essas diferenças nas leis dos estados para analisar um experimento natural que ocorria nos EUA. Com essa diferença nas leis, ela foi capaz de concluir que quanto maior for a exigência da lei do estado, mais tempo os jovens permaneciam nas escolas.

Fonte: http://www.aratuonline.com.br/wp-content/uploads/2017/01/escolas-site.jpeg

Note que ao constatar que quanto maior exigência de cada estado maior o número de anos de estudos dos alunos temos que a variável lei funciona como um separador dos grupos controle e tratamento. Esta variável não se correlaciona com a condição socioeconômica dos alunos, permitindo assim isolar o efeito dos anos de estudos na longevidade das pessoas. Se antes as condições socioeconômicas se correlacionavam com o nível educacional, causando dúvida sobre qual desses dois fatores estava ocasionando a redução na taxa de mortalidade em um grupo, agora já não temos mais esse problema. Nas condições em que Lleras-Muney realizou sua análise, a lei do estado era o que decidia quem ficaria mais tempo na escola ou não.

A conclusão de seu artigo foi que para cada ano adicional de estudos a probabilidade de morrer nos 10 anos seguintes diminui em até 3.6 p.p. Um dado bem relevante que permite que governos percebam o quão relevante a educação é por si só. Para os que trabalham com pesquisa fica a lição de que sabendo utilizar a melhor ferramenta a disposição conseguimos atacar precisamente a causa e gerar melhores retornos.


André Yukio Matemático mestre em Economia. Xbox One player. Viciado em séries. Gosta de cookies e jelly beans.

  • Davi Silva

    E se o objetivo de não se investir adequadamente em educação for o controle populacional, reduzindo expectativa de vida, justamente das classes menos favorecidas? hum?

    • O não investimento em educação pode reduzir a expectativa de vida dos mais pobres, mas não favorece o controle populacional.

      • Davi Silva

        Concordo. Porém a dinâmica populacional conta com a taxa de mortalidade também, não só a taxa de natalidade. Meu comentário foi mais uma provocação mesmo….

        • Ainda assim, como a fertilidade chega cedo, os anos de diferença na expectativa de vida não alterariam isso. Ou seja, os filhos nascem antes da morte. População continua aumentando.
          Ps.: Eu saquei que era provocação.

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