Provavelmente você, leitor do Portal Deviante, já ouviu falar de leishmaniose, uma doença infecciosa, considerada uma das doenças tropicais negligenciadas desse mundão. A leishmaniose tem esse nome complicado por causa do parasita que causa a doença, que pertence ao gênero Leishmania, que envolve muitas espécies diferentes. Ainda, o nome do parasita foi em homenagem ao pesquisador que descobriu pela primeira vez a presença de uma das formas de vida do parasita em feridos de guerra, lá no fim do século XIX, William Leishman. Depois de descrita a doença, muitos pesquisadores encontraram evidências de pessoas infectadas desde o século 7 a.C.

A doença possui três formas, didaticamente falando. Uma forma cutânea, também conhecida como úlcera de Bauru; uma forma mucocutânea, que são as úlceras que atingem as áreas de mucosa como a do nariz e da boca; e a forma visceral, também chamada de calazar, esta última sendo a forma mais grave da doença, sendo também a responsável pela maior parte das mortes associadas.

Todas as formas são transmitidas pelo mosquito flebotomíneo, que carrega a forma infectiva das diversas espécies do parasita. A leishmaniose é endêmica em mais de 100 países no mundo, ou seja, afeta significativamente estes mais de 100 países, principalmente nas áreas tropicais. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a cada ano são reportados de 700 mil a um milhão de novos casos, e as mortes giram em torno de 20 a 30 mil por ano.

A leishmaniose é considerada uma doença negligenciada, provavelmente pelo número de mortes reportadas por ano. Quando comparada com outras doenças não infecciosas, como o mal de Alzheimer, por exemplo, tem-se que este foi responsável por mais mortes nos Estados Unidos em 2014 do que a leishmaniose no mundo todo (cerca de 80 mil mortes por Alzheimer nos EUA, comparando com no máximo 30 mil causadas pela leishmaniose). No Brasil são registrados pelo menos 3 mil casos de leishmaniose visceral por ano, com óbitos que giram em torno de 350 (365 óbitos em 2016). O Ministério da Saúde faz acompanhamento dos casos de leishmaniose visceral, pois é a forma com mais severidade e chance de causar mortes.

Mas como podemos combater esta doença? Geralmente combatemos uma doença infecciosa transmitida por insetos vetores com o combate direto ao vetor, da mesma forma que fazemos com o mosquito Aedes aegypti que transmite a dengue, o vírus zika e chikungunya: impedindo a reprodução do mosquito, checando focos de proliferação, vendo se não há água parada… todos aqueles métodos sobre os quais vc leitor provavelmente já se informou.

Só que tem alguns pontos que nós, como sociedade, podemos controlar também, mas exigem um trabalho em equipe muito maior. Como a transmissão da leishmaniose depende do inseto, ela é fortemente afetada pelas mudanças na quantidade de chuva, na temperatura e na umidade, portanto, as mudanças climáticas podem afetar diretamente a transmissão desta e de outras várias doenças transmitidas por insetos vetores, como a malária, a filariose, febre amarela, entre outras.

E existe vacina? Para nós seres humanos, não há uma vacina licenciada que seja eficaz contra a infecção pelo parasita, e vários grupos de pesquisa estão nesse minuto tentando novas estratégias para vacinar a população. Entretanto, para os cachorros há dois tipos que estão disponíveis no mercado. Os cachorros são o que chamamos de reservatórios da doença, também sendo afetados pelos efeitos da infecção, mas com importância epidemiológica. Quando infectados, podem servir de reservatórios para os parasitas, e, na presença do inseto vetor, a chance de transmissão para nós aumenta. Por isso a vacina para os cães é importante, não só para o bem-estar dos bichinhos, mas também para controlar a transmissão. Segundo indicações de veterinários, tanto a vacina quanto uma coleira que é capaz de repelir o inseto flebotomíneo são as medidas que podemos tomar para evitar a infecção dos cachorros. Ainda, mosquiteiros funcionam tanto para nós quanto para os bichinhos.

Vemos que as medidas que são necessárias para evitar a infecção por leishmaniose se sobrepõem às para prevenir dengue, zika, chikungunya, febre amarela e tantas outras doenças. Portanto, a educação da população é o principal ponto a ser abordado.

Vamos deixar a leishmaniose de fora?

 

Referências

http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs375/en/

https://en.wikipedia.org/wiki/Leishmaniasis#History

https://www.cdc.gov/features/alzheimers-disease-deaths/index.html

https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/66/wr/mm6620a1.htm