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Porque a ciência tem que ser divertida?

por em 25/12/2018 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Porque a ciência tem que ser divertida?

A gente aqui no Deviante (e principalmente no Scicast) tem como lema que a ciência tem que ser divertida, mas você já pensou qual a importância disso? Por que a aprendizagem pode (e deve) ser divertida?

Quem já me lê há um tempinho por aqui sabe que adoro reinventar a roda antes de entrar nos assuntos dos textos. Achou que hoje ia ser diferente? BIN, BIN, BIN. Errou! Explico: quando eu estava pensando no tema que ia escrever, me surgiu uma pergunta cuja tentativa de resposta fez nascer esse bebezinho itimalia que você está lendo agora.

E a pergunta de um milhão de reais é: Porque explicamos as coisas?

Eu não resisti ao trocadilho, desculpem! hahahaha

O tempo todo estamos nos questionando sobre os fenômenos que nos cercam, principalmente quando somos crianças. Quer exemplo maior disso do que o Scikids? (CATCHIN!!! – aprendi com a Jujuba) Se você ainda não ouviu, deixa de vacilo e escuta essa obra de arte que é a essência do que eu estou enrolando para dizer.

O Scikids é um podcast que responde dúvidas de crianças (que são muito fofas, é sério!) de uma maneira acessível ao entendimento delas. E sabe por que isso é tão importante? Nada mais, nada menos porque esses pimpolhos são pequenos cientistas em busca de explorar e entender esse mundo fantástico e cheio de coisa legal em que vivemos!

O tempo todo a gente se depara com coisas que não entendemos e isso não é de hoje. Temos uma característica bem peculiar: explicar as coisas, tentar fazer com que o mundo faça algum sentido. E fazemos isso usando tudo quanto é método (científico ou não).

Explicar, dentre outras coisas, é também atribuir causas de algo. Sabe também quem faz isso? Isso mesmo, a linda, maravilhosa e diva Psicologia! Eita que só de pensar nisso eu lembrei de quando comecei o curso, doida para entender por que as pessoas fazem o que fazem e da maneira que fazem. E adivinha só o que aconteceu, em vez de responderem minhas perguntas (como eu esperava), a graduação me trouxe ainda mais dúvidas!

Ah, que nostalgia!

Gente, eu me sentia a Kika do “De onde vem? ” quando dizia “Mas ninguém entende as minhas perguntas!” Ao longo da faculdade, no entanto, vi que a Psicologia é uma grande bacia cheia de um monte de modelos explicativos e por isso eu ficava tão confusa! E isso não é exclusividade da nossa diva Psico não, hein? O babado é porque isso é bem mais evidente com ela, mas a diversidade de modelos explicativos é o que faz avançar a ciência!

Mas assim, adianta alguma coisa você descobrir um negócio mega legal, que pode revolucionar o futuro da humanidade, e não poder contar para ninguém? Ou pior, contar e ninguém entender o que você quis dizer com aquilo? Não sei para você, mas eu acho que não serve de muita coisa só acumular conhecimento sem compartilhar.

E é aqui que começa a saga da ferramenta mais divertida de disseminação do conhecimento: JOGUINHOS!

O surgimento do herói

Os jogos se fizeram presentes nas mais diversas civilizações e com várias funções. Tipo muitas mesmo, eles serviam desde rituais religiosos até fortalecimento de laços afetivos e perpetuação da cultura de um povo. O jogar era dotado de ações que emulavam a vida em sociedade, sendo uma espécie de treino de conceitos básicos como cooperação, luta, superação, perda, morte, etc.

Senet, jogo sagrado do Egito Antigo

Só tem um probleminha. Com o passar do tempo, o jogo foi perdendo seu status de importância, principalmente pela sua associação com jogos de azar. Mas há discordâncias sobre quando começaram a usar os joguinhos como instrumentos de aprendizagem, geralmente adota-se a postura formal que isso começou no Renascimento, para o ensino de Ética, História e Geografia.

O brincar era entendido como um meio de facilitar o estudo e favorecer a aprendizagem. Se é assim, por que danado a gente não vai para a escola só para brincar? (a não ser no ensino infantil, e olhe lá). A ascensão do modelo de vida moderno, com as mudanças na nossa relação com o tempo e o espaço, jogou o lúdico para escanteio. O brincar passou a ser perda de tempo e coisa de criança.

E adulto não brinca? (É café-com-leite)

Olha, até brinca, mas dificilmente isso é feito em um contexto educacional ou de aprendizado formal. A gente está acostumado a falar de ludicidade para o público infantil, mas quando esse não é o alvo, como faz? Então, eu estou até meio sem jeito de dizer, mas geralmente não se faz (pelo menos não com esse nome).

Diversos autores apontam que o termo lúdico ou ludicidade vem do latim “ludus” e significa brincar. É como se a ludicidade fosse uma bacia e dentro dela tivesse os jogos, brinquedos e brincadeiras. Lembram da bacia de modelos explicativos da Psicologia onde não há consenso? Então, quando falamos de ludicidade o babado é parecido e a galera não se entende muito.

Na perspectiva que adotei aqui, vou entender o jogo como um sistema de regras que funciona em um determinado contexto cultural; o brinquedo como um objeto que se relaciona com a criança para efetivar a brincadeira, entendida aqui como o jogo em ação.

Um dos teóricos da Psicologia, Vygostsky, apontou 3 aspectos da brincadeira: imaginação, imitação e a regra. Para a criança, o brincar é vivenciar seu cotidiano, descobrindo-o, aprendendo com ele e através dele. É imaginar o mundo, imitá-lo e entender que nem tudo funciona do jeito que a gente quer.

Quem nunca, né?

Mas se engana quem pensa que o brincar ajuda só os pimpolhos. Os adultos também podem ter benefícios na socialização, desenvolvimento de habilidades de comunicação, expressão de sentimentos e construção de conhecimentos. Jogos em rede, que exigem articulação com os colegas e formulação de estratégia pode ser um ótimo treino de habilidades de liderança e gestão de pessoas, por exemplo.

Chegamos no chefão

Pela tradição do uso de jogos com crianças, temos uma enxurrada de estudos sobre o desenvolvimento infantil e ludicidade. Até hoje, a referência na área é um carinha que gostava de inventar joguinhos para estudar os filhos: Jean Piaget.

Ele classificou os jogos em 3 tipos, que por acaso correspondem às fases do desenvolvimento da criança. Coincidência? Eu acho que não! Na primeira fase estão os jogos sensório-motores, feitos pelos bebezinhos até os dois anos. Geralmente o baby brinca sozinho, sem noção de regras, explorando e conhecendo o próprio corpinho e as coisinhas do seu convívio. Eles mordem os pés, jogam coisas no chão para ver o que acontece e podem passar longos 5 minutos brincando com a pomada de assaduras (as mães piram nessa hora, mas é tão fofinho!).

Itimalia, quem é que está na fase sensório-motora?

Dos dois aos seis aninhos, mais ou menos, as crianças vão aprendendo a lidar com a existência de regras, passam a brincar com os amiguinhos participando tanto de jogos guiados (vivo e morto, por exemplo) ou de brincadeiras de faz-de-conta espontâneas (o brincar de casinha, de oficina mecânica, etc). Essa é a fase pré-operatória.

Já na última fase, a da operação concreta, que vai dos sete aos onze (aproximadamente viu, gente? Não é que completou idade tal e BAM! Mudou a fase) As crianças além de aprenderem as regras dos jogos, brincam em grupos autogeridos. É a época da confusão porque alguém burlou uma regra, uns tentam relativizar e o negócio vira um tribunal hahaha  Duvida? Entrega um pega vareta a um grupinho nessa fase e assiste.

E aí, mexeu?

Mas calma, evite interferir demais nessas pequenas “confusões”. Jogos são importantes para que as crianças entendam as restrições e os limites do que pode ou não ser feito e lidem com as consequências disso na relação com os coleguinhas. O brincar é meio que um faz-de-conta de viver, sabe? Só que de verdade!

Chefão vencido, chegamos no prêmio:

Está bem, passeamos sobre porque explicamos as coisas, a história dos jogos, sua classificação e relação com o desenvolvimento humano, mas uma pergunta continua sem resposta: Por que a ciência tem que ser divertida?

A ciência é um jogo que, na maior parte do tempo, só faz sentido dentro do contexto cultural da academia. Os institutos de pesquisa por aí afora definiram seus livrinhos de regras e quem pode entrar para brincar, dividem as equipes para usar os brinquedos que vão executar o jogo, ou em linguagem de adulto: os equipamentos de laboratório que vão auxiliar na coleta e tratamento de dados das pesquisas.

Geralmente os adultos estão na fase operatória concreta e buscam entender as regras dos jogos que decidem brincar. Mas como a gente vai “brincar” de ciência se não entende as regras? Como vamos ter acesso à descoberta ultramegablaster do milênio quando não entendemos nem o caderninho de regras e o nome da brincadeira? Será que a gente odeia mesmo ciência ou simplesmente não aprendeu ainda como se brinca?

E o velho cientista tinha um laboratório, iaiaô

Divulgar ciência é transformar o jogo que faz sentido na academia em brincadeira que faça sentido em qualquer lugar, é tornar compreensível a linguagem técnica, é despertar a curiosidade de explorar e descobrir esse mundo cheio de coisa legal e fenômenos malucos (ou você não explodiu a cabeça quando soube que o ornitorrinco amamenta seus filhotes de um jeito que parece que ele sua leite?)

A ludicidade como ferramenta de ensino é perfeitamente possível fora de ambientes escolares/acadêmicos! É isso que nos propomos a fazer aqui no Deviante. Queremos te mostrar as regras do jogo e te levar para brincar também. Mas para não dizer que fiquei só no jabá interno, vou mostrar que aprender as coisas usando joguinhos pode ser bem mais legal que os tais jogos educativos (que na maior parte do tempo são mais pedagógicos e repetitivos do que divertidos).

Eu gostava muito de biologia nos tempos de escola, e na faculdade me encantei pela área de Saúde Pública (se vocês ouviram o episódio em parceria com a Fiocruz sobre Educação em Saúde devem ter notado hahahah). Mas sabe como eu percebi que gostava mesmo da área e queria me aprofundar nisso? Jogando Plague Inc.

Para quem não conhece, basicamente sua função é escolher e disseminar uma praga que vai dizimar toda a população mundial, sempre fazendo o possível para aumentar a contaminação enquanto a população desenvolve estratégias para o combate da doença.

E sabe porque eu considero esse um jogo educativo, apesar da premissa meio bizarra de matar todo mundo? Porque você faz o exercício inverso! Na escola aprendemos a combater, eliminar e evitar a proliferação de doenças. Muitas vezes a gente tem até o textinho decorado de como se prevenir de doença X.

Plague Inc. te dá a perspectiva oposta, porque, sabendo de todas essas formas de proteção, promoção e prevenção de saúde, você consegue burlar as estratégias e espalhar a doença. Ele te dá uma visão ampla de como epidemias se espalham. Você vê na prática impactos de medidas simples como vacinação, higienização correta das mãos e dos alimentos, saneamento básico (sim, sou discípula do Fencas nisso), dentre tantas outras coisas.

Plague Inc. pegou o jogo da ciência e transformou em uma brincadeira acessível. Inúmeros podcasts têm tentado traduzir o joguinho da academia em brincadeiras que fascinam crianças e adultos. Iniciativas inovadoras têm surgido a todo momento e eu queria te perguntar uma coisa: Você já brincou hoje?

Ciência é como mágica, só que real.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FERNANDES, N. A. Uso de jogos educacionais no processo de ensino e aprendizagem. 2010. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Mídias na Educação) – Centro Interdisciplinar de Novas Tecnologias na Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Alegrete. Disponível em:  < https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/141470/000990988.pdf?sequence=1>

HUBNER, M. M. C.; MOREIRA, M. B. (Org.). Temas clássicos da psicologia sob a ótica da análise do comportamento. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012.

HUIZINGA, J. Homo Ludens. 4ª ed.,São Paulo: Perspectiva, 2000. Disponível em: < http://jnsilva.ludicum.org/Huizinga_HomoLudens.pdf >

KIYA, M. C. da S. O uso de Jogos e de atividades lúdicas como recurso pedagógico facilitador da aprendizagem. 2014. Caderno Pedagógico do Programa de Desenvolvimento Educacional do Governo do Estado do Paraná, Ortigueira. Disponível em:

http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/cadernospde/pdebusca/producoes_pde/2014/2014_uepg_ped_pdp_marcia_cristina_da_silveira_kiya.pdf >

MODESTO, M. C.; RUBIO, J. de A. S. A importância da Ludicidade na construção do conhecimento. Revista eletrônica Saberes da Educação, v. 5, n. 1, São Roque: FAC, 2014. Disponível em: < http://docs.uninove.br/arte/fac/publicacoes_pdf/educacao/v5_n1_2014/Monica.pdf >

 

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