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Humanos, demasiado humanos: o nacionalismo explicado à luz da teoria evolutiva

por em 01/03/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Humanos, demasiado humanos: o nacionalismo explicado à luz da teoria evolutiva

“Nada em biologia faz sentido exceto à luz da evolução”. Esta sentença de Dozhansky é muito famosa e largamente citada dentro do meio acadêmico ligado às Ciências Biológicas, todavia bastante negligenciada quando tentamos explicar fenômenos sociais ligados aos atos e feitos perpetrados por seres humanos. É compreensível. Modificamos tanto o meio ambiente e driblamos de maneira tão drástica os perrengues que nossos antepassados tinham que lidar para sobreviver que muitas vezes nos sentimos apartados da natureza. Nós, como seres criados à imagem e semelhança de Deus (es), não estamos sujeitos às leis naturais que regem e se aplicam a todos os outros organismos. #sqn. Por isso, neste texto, gostaria de argumentar que a onda nacionalista que está varrendo o mundo nos últimos anos é algo inerente à natureza humana e tende a se repetir ciclicamente ao longo dos próximos séculos.


Para começar, uma ressalva se faz necessária: explicar um fenômeno não significa necessariamente endosso ou crítica ideológica. Significa apenas fazer uma análise e chegar a alguma conclusão, da mesma forma que os pesquisadores que estudam câncer (espero!) não apoiam sua existência. Dito isso, vamos à explicação.

Segundo Desmond Morris nos conta no maravilhoso ainda que super datado livro O Macaco Nu, para estudarmos a evolução da espécie humana temos que primeiro entender as vantagens e consequências de sermos a única espécie mamífera a andar sobre duas pernas.

Dentre as vantagens, podemos citar a liberação das mãos, agora prontas para carregar objetos e ferramentas ao invés de se prender em galhos de árvores, e a angulação mais reta da cabeça sobre o pescoço, possibilitando uma visão à distância mais considerável. Este re-arranjo da inserção da cabeça sobre o pescoço permitiu que a abóbada craniana pudesse se expandir para cima e acomodar um cérebro cada vez maior, resultado de um elaborado processo de seleção natural envolvendo uso de ferramentas e do fogo, comunicação, melhora na condição de alimentação, etc.

Dentre as desvantagens, devemos citar que, para sairmos de uma condição quadrúpede e atingirmos proficiência em deambular sobre os membros posteriores, diversos alinhamentos ósseos e musculares se fizeram necessários, principalmente na cintura pélvica, levando a um limite possível de expansão dos ossos dos quadris, o que, consequentemente, estreitou o canal do parto nas mulheres quando comparado aos outros mamíferos de estatura similar.

Juntemos os dois fatos e temos um dilema evolutivo a ser resolvido: como equacionar o nascimento de um bebê com um cérebro grande tendo de passar por um canal de parto estreito? Ora, o bebê terá que nascer com o tamanho máximo possível para não ficar “entalado” e morrer no processo junto com sua genitora, o que equivale a mais ou menos quarenta semanas de gestação. Pois bem, na maioria das vezes, tudo corre bem e mães e bebês passam bem. Problema número um resolvido.

Todavia, todos sabemos que bebês humanos recém-nascidos, diferentemente de potros ou bezerros que logo param em pé e podem caminhar, são extremamente frágeis e dependentes, necessitando de cuidados intensivos por vários anos. De novo, como resolver isso? A resposta sobre como os mecanismos evolutivos atuaram para resolver isso é de uma beleza ímpar: se cérebros grandes fazem bebês nascerem frágeis, cérebros grandes também podem estabelecer conexões neuronais mais complexas para haver comunicação direta e refinamento na formação e reconhecimento de emoções. Assim, nasceu a cooperação entre indivíduos em uma escala jamais vista em outros animais!

A cooperação melhorou as taxas de sobrevivência em humanos, pois as mães amamentando e os bebês pequenos passaram a ser alvo de cuidados coletivos. Este comportamento de cooperação e cuidado mútuo inclusive aparece como uma explicação para a evolução e persistência da homossexualidade em humanos. E também exerce fortes influências sobre a cultura (que é o foco deste artigo, aliás), uma vez que diversos ditados populares comuns em diferentes tribos africanas se traduzem mais ou menos como “é necessário uma aldeia inteira para criar uma criança”.

Contudo, como bem nos lembra Yuval N. Harari em sua obra-prima Sapiens, para haver cooperação em grupos maiores do que o número de Dunbar (~150 pessoas), deve existir uma ideia coletiva, uma realidade inventada que todo mundo compartilhe e se reconheça como pertencendo ao mesmo grupo. No passado, nos tempos dos grandes impérios, o principal ponto de união das pessoas era a religião, a crença em uma ou mais entidades extra-terrenas. Estas crenças serviam a vários propósitos, desde explicar o mundo, ajudar a fazer previsões para o futuro, organizar a sociedade até dar propósito para uma vida bruta e sofrida. Todavia, o mundo é um lugar de escassez de recursos, ainda que tenhamos melhorado muito neste sentido nas últimas décadas. E, em sendo assim, as disputas sobre estes recursos escassos sempre foi muito ferrenha, não raro tendo a religião como justificativa para a agressão e pilhagem entre grupos humanos (“são infiéis”).

E antes que alguém argumente “isso não é verdade, uma grande parte das religiões possui um discurso de tolerância e amor ao próximo. Você está falando bobagem, deve morrer, seu infiel!”, eu explico: as ideias coletivas humanas servem para gerar empatia e cooperação dentro dos grupos que as compartilham. Se você não compartilha das mesmas ideias, você não faz parte do grupo, logo, você é o mal e pode ser saqueado e exterminado sem culpa. E inúmeros são os exemplos disto ao longo da História, sendo um deles justamente o que deu ensejo ao ponto central deste texto: as guerras entre protestantes e católicos na Europa, cujo fim se deu com uma série de tratados, coletivamente conhecidos como a Paz de Vestfália.

E o que surgiu após isso? Yeap, palmas para quem marcou a opção Estado-nação. A Paz de Vestfália estabeleceu os princípios que caracterizam o Estado moderno, destacando-se principalmente as soberanias nacionais ligadas à territorialidade e a uma previsão de não-intervenção em jurisdições alheias. A partir deste ponto, muitos povos passaram a não ser definidos meramente como pertencentes a uma religião, mas a uma nação. A ideia coletiva fictícia agora passou a ser não mais uma moral religiosa, mas o amor a um país, uma devoção a uma pátria e a um território arbitrariamente definido por fronteiras artificiais. O poder passou a ser pulverizado entre vários agentes e não mais concentrado, por exemplo, no Papa Católico.

Isso acabou com as guerras? Não em definitivo. Os conflitos continuaram e continuam acontecendo, porque as disputas por recursos não cessaram com o estabelecimento de fronteiras. O que aconteceu, na prática, foi somente a substituição de uma ideia coletiva por outra, todavia o outro lado continuou sendo “do mal”. Não obstante, um dos legados mais importantes dos eventos de Vestfália foram as sementes do que hoje conhecemos como “diplomacia”, ou seja, quando acontecem conflitos de interesse que pelo menos se tente alguma negociação antes de se partir para o “espancar e matar”.

Como corolário para ajudar os esforços de paz, não muito tempo depois, na Inglaterra, surgem as primeiras máquinas a vapor, o que é considerado a pedra fulcral da Revolução Industrial. Pela primeira vez na História, houve uma explosão de produtividade, lucratividade e criação de riqueza, possibilitando excedentes a ser trocados como outros povos como nunca havia se visto antes. Desta forma, finalmente poderia ser possível implementar uma das propostas de Immanuel Kant para a Paz Perpétua: dependência comercial entre países, o que tornaria a guerra bem menos lucrativa do que a troca de bens e serviços (ilustrado na frase apócrifa “onde não passam mercadorias, passam soldados”).

Então, recapitulando: a cooperação entre humanos é fundamental para a sobrevivência devido à fragilidade dos recém-nascidos. Cooperação entre grupos grandes se dá por compartilhamento de ideias comuns. A religião foi por muito tempo o amálgama entre pessoas. Guerras religiosas intermináveis levaram a um novo arranjo, no qual a ideia de “pátria” passou a unir pessoas, agora dentro de fronteiras e não mais por uma moral religiosa. O aumento do comércio entre nações diminuiu o ímpeto bélico, uma vez que há benefício mútuo e prosperidade econômica. Este é um fato inconteste que pode perfeitamente ser visualizado no gráfico abaixo:

Relação entre abertura comercial mundial e frequência de conflitos armados (fonte)

Mas, então, perguntariam alguns, se o mundo está tão próspero por conta do comércio entre nações, por que os ímpetos nacionalistas estão se tornando tão fortes no mundo a ponto de estar havendo, entre outras coisas, saídas de acordos de livre comércio, imposição de barreiras comerciais e guerra de tarifas entre diversos países? Pois é, já está bem estabelecido empiricamente que tarifas e barreiras comerciais diminuem as trocas entre países. Então, seguindo o raciocínio de que aumento de comércio diminui aspirações bélicas, torna-se óbvio concluir que diminuir o fluxo de bens e serviços entre países fomenta animosidades que podem eclodir em conflitos armados de facto. Faz sentido este contrassenso? Faz! E pode perfeitamente ser explicado pelo fato de sermos bípedes e nascermos como frágeis bebês.

Em um dos textos que eu escrevi para o Portal a poucas semanas das eleições de 2018 expliquei que as sociedades humanas devem ser analisadas a partir de três camadas: costumes (como interagir com outrem), economia (de onde tirar recursos) e governos (quem lidera) e que estas camadas decrescem em ordem de importância. A partir desta informação, podemos derivar a explicação do porquê de estarmos vivenciando uma onda de nacionalismo e uma tendência de isolamento dos países aparentemente inexplicável dado os avanços que estamos experimentando nas últimas décadas. A resposta está na segunda camada, a economia.

Desde a queda do Muro de Berlin e o esfacelamento da União Soviética, a economia de mercado tem se firmado como o melhor arranjo econômico que temos, aquele que tem o potencial de gerar mais prosperidade e alcançar os melhores resultados práticos em termos de diminuição da miséria. Ao mesmo tempo, temos experimentado uma série de crises econômicas sucessivas, que vêm aumentando tanto em freqüência quanto em intensidade (1997-1998, 2000-2001, 2008-2009…). Estas crises têm como causa uma série de problemas ligados a como a economia atual vem funcionando desde o tratado de Bretton-Woods e o choque Nixon, mas isso é história para outro post. O fato é que a disfuncionalidade econômica chegou aos seus momentos mais críticos nesta segunda década do século XXI, na qual diversos países, principalmente na Europa, têm vivenciado estagnação econômica profunda, desemprego em massa e estouros de dívida, apesar de todo o estímulo dado pelos economistas dos Bancos Centrais nos últimos anos. Segundo Antonio Gramsci (sendo chamado de comunista globalista em 3, 2, 1….) em citação ipsis litteris “(…) a crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece”. Que novo e que velho? E que sintomas mórbidos?

A velha economia baseada primariamente em grandes indústrias, grandes lojas de tijolo-e-concreto e carreiras para toda a vida com uma polpuda aposentadoria no final está morrendo e sendo substituída por uma nova economia, mais digital, mais descentralizada, com carreiras mais curtas e sem muitas perspectivas de boas aposentadorias (“economia uberizada“). Por estarmos no meio deste processo de transição entre uma coisa e outra, muita gente sente-se desamparada e sem perspectiva por ter sido alijada do novo sistema e não conseguir mais ter o padrão de vida desejado a partir do velho sistema. E aí acontece que se a segunda camada se rompe, os seres humanos se apegam com todas as forças à primeira camada, que é a de buscar proteção e esperança junto dos seus “semelhantes”.

O nacionalismo atual é o sintoma mórbido que reflete uma forma bastante instintiva de buscar algum alívio nos problemas, se apegando ao que há de mais atávico e primitivo dentro da psique humana. O raciocínio é o seguinte: a economia vai mal, perdi meu emprego, estou passando necessidade e preciso sobreviver. Se eu precisar de alguma coisa com urgência, terei que contar com os outros, mas como saber se não vou ser enganado, como ter certeza se a pessoa que vier me ajudar é confiável? Para quem leu o texto até aqui a resposta é óbvia: a única forma de diminuir o risco de que alguém supostamente do seu lado vá te sacanear é saber se esta pessoa compartilha dos mesmos valores que você. Como a religião perdeu muito de sua importância em países bastante secularizados, principalmente na Europa, o principal amálgama identitário passou a ser uma etnia, uma língua comum, um território, uma nacionalidade.

Partindo destas premissas, é possível entender e antecipar diversos movimentos atuais no mundo, como, por exemplo, o separatismo da Catalunha, o Brexit, o protestos dos gilet jaunes na França, a eleição de Donald Trump, o nacionalismo muitas vezes xenofóbico da Hungria e Polônia, etc. No limite, dependendo de como as coisas andarem na economia mundial na próxima década, é possível chutar prever que a União Europeia está condenada ao esfarelamento dentro de mais 10 ou 15 anos. Vai depender dos eleitos nas próximas eleições em países chave (Alemanha, principalmente) e de haver ou não uma nova grande crise econômica.

Para encerrar, gostaria de deixar duas mensagens importantes: a primeira é que devemos sempre considerar a influência da seleção natural e demais mecanismos evolutivos quando formos analisar qualquer fenômeno biológico, mesmo que seja ligado a sociedades humanas. Da mesma forma que a teoria redox é a base da química e a gravidade é a base da física, a evolução por seleção natural é a base da biologia. Todavia, biologia não significa determinismo. Nossa racionalidade excepcional garante um livre arbítrio robusto o suficiente para que ativamente possamos domar e direcionar nossos instintos primitivos, de modo a extrair dos mesmos o que eles podem nos dar de melhor, ao invés de sermos escravos deles.

Até a próxima!

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