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Crítica | Bingo: o Rei das Manhãs

por em 24/08/2017 em Entretenimento | 1 comentário

Crítica | Bingo: o Rei das Manhãs

Daniel Rezende estreou na direção com o pé (gigante) direito. Embora desconhecido do grande público, ele é um renomado montador que emprestou sua expertise a obras como A Árvore da Vida, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias e Tropa de Elite, além de ter sido indicado ao Oscar por seu trabalho em Cidade de Deus. A expectativa entre o círculo de profissionais do cinema para seu primeiro voo solo era grande.

E ele acertou em cheio ao escolher contar nas telas uma história inusitada. Bingo: O Rei das Manhãs é uma película que narra os altos e baixos do ator que interpretou um dos mais famosos personagens infantis da TV brasileira, e ao contrário da primeira impressão este NÃO É um filme para menores.

“Alô criançada, o Bingo chegou!”

A história do filme é uma dramatização da vida do ator Arlindo Barreto, que estrelou várias pornochanchadas no fim dos anos 1970 e chegou a figurar em pelo menos cinco novelas. Filho da atriz e vedete Márcia de Windsor (que hoje é mais lembrada como uma das juradas dos programas de Flavio Cavalcanti e Silvio Santos), ele teve seu grande momento ao ser escolhido como um dos atores a dar vida ao palhaço Bozo, um personagem da TV norte-americana criado em 1946 por Alan Livingston que a TVS (hoje SBT) assegurou direitos para a localização do programa.

Aqui Arlindo dá lugar a Augusto Mendes (Vladimir Brichta, de Um Homem Só e figurinha carimbada em várias novelas da Globo), um ator desconhecido que não está numa boa fase: ele aprendeu com sua mãe (a atriz Ana Lúcia Torre, de Um Tio Quase Perfeito) que merece mais do que ser um “vaso” numa novela e embora não consiga trabalhos decentes no meio, não gosta de receber esmolas. Fora isso sua ex-esposa Angélica (Tainá Müller, de Tropa de Elite 2) é uma atriz de sucesso e seu filho Gabriel (o estreante Cauã Martins), embora admire o pai, não gosta do fato de que ele não pode ver seus filmes.

As coisas mudam quando ele descobre um teste de uma emissora para um programa infantil e acaba garantindo o papel do apresentador: o palhaço Bingo, um fenômeno de audiência há décadas nos Estados Unidos. Ele é colocado sob os cuidados de Lúcia (Leandra Leal, de O Rastro), uma produtora casca-grossa e é observado o tempo todo pelo dono da marca Bingo Peter Olsen (o dinamarquês Soren Hellerup, aqui fazendo as vezes do produtor norte-americano Larry Harmon).

O filme foca no conflito de Augusto com Bingo principalmente porque da noite para o dia ele se torna o anônimo mais famoso do Brasil: todo mundo conhece Bingo, mas por conta de cláusulas contratuais ninguém pode saber quem está por trás do nariz de palhaço. Há momentos realmente geniais, como a ideia de tornar o programa ao vivo e atender ligações das crianças para vencer a concorrência à inacreditável participação em um programa infantil da “rainha do bumbum” Gretchen (Emanuelle Araújo, de S.O.S. Mulheres ao Mar), que aconteceu mais de uma vez. Eram os anos 80 afinal, tudo era permitido.

Apesar de todo o sucesso, Augusto começa a afundar no álcool, drogas e sexo desenfreado principalmente porque ninguém sabe quem ele é, enquanto Bingo fica com todos os holofotes. O relacionamento com Gabriel também começa a se deteriorar, tanto por sua irresponsabilidade quanto pela frustração do filho por não poder contar a ninguém que seu pai é o palhaço mais amado do país. Augusto Mendes é um barril de pólvora prestes a explodir, e todos ao seu redor estão em risco.

Diferente do que o filme mostra, em que só Augusto deu vida a Bingo, Arlindo Barreto não foi o primeiro Bozo (esse foi o comediante Wandeko Pipoka, escolhido pelo próprio Larry Harmon) e nem o único, mesmo simultaneamente. Cada retransmissora contava com um ator para atender as ligações das crianças e, na época, interurbanos não eram uma coisa simples e nem barata.

Quando a Bozomania explodiu no Brasil, Silvio Santos se viu na necessidade de contratar mais três atores para viver o palhaço, esses sendo Barreto, Luís Ricardo (sim, o “garoto da Tele-Sena” e o que cantou a versão brasileira da abertura de DuckTales) e Décio Roberto, o que permaneceu no papel até o fim do programa em 1991, que se deu justamente quando ele veio a falecer aos 33 anos.

Quanto à localização do filme, uma série de cuidados tiveram que ser tomados, sendo o principal a remoção de qualquer referência ao personagem Bozo. A Larry Harmon Productions não permite que o palhaço seja utilizado fora de seu contexto original (ser uma atração infantil) e logo Rezende teve que se virar para criar um personagem original.

Aliás, vale mencionar uma curiosidade: após se converter e se tornar um pastor evangélico, Arlindo Barreto começou a pregar para crianças caracterizado como Bozo, até levar um processinho nas ideias da Larry Harmon Productions (novamente a questão do contexto); desde então ele criou um personagem só para isso, embora bastante parecido com Bozo chamado Mr. Clown.

Referências a nomes reais das pessoas e empresas próximas à história também foram alterados, desde Arlindo Barreto/Augusto Mendes e Márcia de Windsor/Marta Mendes aos nomes das emissoras: a Globo virou TV Mundial e a TVS/SBT, TVP.

Antes que alguém pergunte, não, o filme não tem nenhum personagem personificando o Homem do Baú, ele sequer é citado; por outro lado o apresentador Pedro Bial interpreta o diretor da TV Mundial Armando, numa clara referência ao então todo-poderoso Boni, hoje um dos sócios da afiliada TV Vanguarda do interior do estado de São Paulo.

A parte técnica é impecável. Rezende se cercou de talentos como o diretor de arte Cássio Amarante (Abril Despedaçado, Xingu), a figurinista Verônica Julian (Xingu, Vips) e o roteirista Luiz Bolognesi (Bicho de Sete Cabeças, Uma História de Amor e Fúria), além de Lula Carvalho (Tropa de Elite, O Lobo Por Trás da Porta, Paraísos Artificiais) na fotografia; e o resultado é uma representação bastante fidedigna da identidade visual e psicológica dos anos 1980. Para completar temos a trilha sonora certeira de Beto Villares (Abril Despedaçado, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias), que resgata clássicos do pop/rock nacional e internacional da época.

No entanto o ponto alto é mesmo a atuação de Brichta, que embora arranque gargalhadas da plateia caracterizado como Bingo são seus momentos como Augusto que mais prendem a atenção. O relacionamento conturbado com Gabriel, o ciúme que sente de sua ex-esposa e o sentimento de que sempre será um ninguém, enquanto seu alter-ego recebe toda a glória e holofotes o consomem pouco a pouco, e o ator consegue dar forma à paulatina derrocada do personagem (ou dos personagens) muito bem.

O filme talvez peque um pouco por ser um tanto óbvio demais, e nem falo por se tratar de uma história baseada em fatos reais. Leandra Leal, embora esteja presente em todos os grandes momentos de Bingo dá vida a uma Lúcia rasa, que não existe fora da equação trabalho/igreja. Ela é uma produtora linha-dura e uma religiosa fervorosa fora do estúdio, e nada além disso. Ela e os demais personagens servem apenas como uma “escada” para Brichta emendar as piadas ou dar seus rompantes de ira e depressão. Não que o filme seja ruim por causa disso, pelo contrário: a história trata do homem por baixo da maquiagem de um dos mais amados personagens infantis que o Brasil já teve e isso ele faz muito bem, mas não espere um maior desenvolvimento de outros personagens.

Conclusão

O roteiro de Bingo: O Rei das Manhãs não tem nada de mais, ele é uma passagem por um momento dos bastidores da televisão brasileira que é comum em muitos lugares: poder, audiência, sexo, drogas, excesso e derrocada, bem no ritmo dos loucos anos 1980. No entanto ele é válido por dois pontos.

O primeiro é a atuação fora de série de Vladimir Brichta como Augusto Mendes/Bingo, que rouba a cena e eclipsa todo o elenco; embora ele faça as pessoas rirem nos momentos em que ele encarna o palhaço é sua interpretação de cara limpa, de um homem à beira do colapso total a parte mais interssante.

Segundo e mais importante, a direção certeira de Daniel Rezende; em seu primeiro grande trabalho ele entregou um filme enxuto e caprichado, que não perde em nada a produções internacionais do mesmo nível. O estreante é sem dúvida uma grande promessa do cinema brasileiro para o futuro.

Bingo: O Rei das Manhãs é a prova de que o Brasil é sim capaz de fazer filmes que divertem, intrigam e incomodam e não precisa viver apenas de documentários ou comédias água-com-açúcar.

Cotação Deviante: 4 de 5 ingressos.

O Deviante assistiu à cabine de imprensa de Bingo: O Rei das Manhãs a convite da Warner.