A diversidade sexual dos animais ainda é pouco compreendida. O pouco que se sabe ajuda a entender a evolução e como estes lidarão com as mudanças no mundo.

Em humanos e outros mamíferos os cromossomos sexuais (Xs e Ys) determinam o sexo biológico, identificação visual entre machos e fêmeas.

Mas em répteis isso nem sempre acontece, em alguns casos os cromossomos sexuais não coincidem com o sexo biológico. A chamada “reversão sexual”.

Fatores ambientais como a temperatura podem disparar a reversão sexual em répteis. Em estudo recente sobre o tema pesquisadores concluíram que a reversão é generalizada e importante força evolutiva.

O que levanta questionamentos sobre a capacidade de sobrevivência dos répteis num mundo cada vez mais quente.

Xs e Ys, Ws e Zs

Em humanos, os cromossomos sexuais determinam se o embrião será masculino (XY) ou feminino (XX).

Já em répteis a determinação do sexo é mais complicada. Algumas espécies, incluindo as serpentes, tem cromossomos sexuais como os humanos. Mas em outras espécies, como crocodilos e tartarugas marinhas, o sexo é determinado pela temperatura à qual os ovos são submetidos.

Em algumas espécies há combinação de ambos, temperatura e cromossomos sexuais. Quando a temperatura sinaliza o oposto dos cromossomos sexuais do embrião há reversão sexual. Para alguns lagartos os cromossomos sexuais não correspondem a sua aparência física e função reprodutiva.

O dragão barbudo (Pogona vitticeps) provavelmente é o caso mais conhecido de reversão sexual em répteis. Seus cromossomos sexuais são Z e W.

Os dragões machos possuem dois cromossomos Z e as fêmeas tem Z e W. As fêmeas normalmente geram prole com igual quantidade de machos (ZZ) e fêmeas (ZW). Mas quando os ovos são incubados em ambientes quentes (mais de 32°C), nascem mais fêmeas do que machos. Algumas destas fêmeas resultam da reversão sexual causada pelos altas temperaturas dos ninhos.

Outro exemplo bem compreendido é o do Bassiana duperreyi, lagarto do leste da Austrália.

Nesta espécie machos são XY e fêmeas são XX. Apesar de os cromossomos apresentarem o mesmo nome, não funcionam como nos humanos. Eles surgiram de forma independente e usam diferentes genes para disparar o desenvolvimento de machos e fêmeas.

Nos lagartos Bassiana duperreyi, fêmeas (XX) podem ser revertidas para machos, mas sob incubação em temperaturas mais baixas, tal fenômeno foi observado em laboratório e em populações de vida livre.

Em ambas as espécies, a coincidência entre o sexo biológico e os cromossomos sexuais (ZZ para machos nos dragões e XX para fêmeas em Bassiana duperreyi) é revertida, por altas temperaturas nos dragões e baixas temperaturas em Bassiana duperreyi.

Porque o sexo é revertido?

A reversão sexual pode ter grandes efeitos sobre o comportamento do indivíduos. Machos revertidos em fêmeas apresentam comportamentos mais ousados, em relação, aos machos e fêmeas que correspondem aos cromossomos sexuais. Isso pode ajudar na busca por alimentos e machos, mas ao mesmo tempo aumenta sua exposição à predadores.

Como nem todos os lagartos botam ovos. A reversão sexual causada por temperatura pode ocorrer em espécies vivíparas, cujo o desenvolvimento do embrião se dá completamente dentro da fêmea, como o lagarto Niveoscincus ocellatus, endêmico da Tasmânia, Austrália. A reversão sexual pode ser causada pela temperatura do ambiente durante a gestação.

Acredita-se que a reversão sexual seja bastante difundida em répteis. Outras evidências indicam que a reversão sexual causada pelo ambiente seja comum em peixes e anfíbios, mostrando o papel da evolução no surgimento de novas espécies e tendo graves implicações sob as rápidas mudanças ambientais.

Cientistas suspeitam que a razão do pouco conhecimento sobre o papel da reversão sexual em répteis seja o foco das pesquisas em mamíferos e pássaros, nos quais a reversão sexual é causada por mutações que afetam a expressão gênica durante o desenvolvimento embrionário. Causando a falsa impressão de que a reversão sexual é prejudicial aos indivíduos.

Outra razão é a dificuldade em distinguir os cromossomos sexuais em muitas espécies de répteis. Dificultando a detecção de reversão sexual.

Uma questão óbvia é a possibilidade de extinção causada pelas mudanças climáticas, por meio de reversão sexual de populações inteiras. Para espécies sensíveis à temperatura como o dragão barbado, crocodilos e tartarugas marinhas, qual será o futuro dos machos num mundo mais quente?

A resposta será diferente para cada espécie. A sobrevivência dos répteis sob a mudança climática depende das respostas a várias perguntas.

As espécies podem controlar quando e onde aninham? Quão rapidamente as condições ambientais estão mudando? A temperatura na qual a reversão do sexo ocorre pode mudar?

Cada espécie enfrentará um caminho único à medida que experimentamos um ambiente incerto e em mudança. Alguns caminhos indubitavelmente levarão à extinção, mas outros podem utilizar flexibilidade nas estratégias de determinação de sexo para sobreviver.

Fonte: The Conversation