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Psicologia, psiquiatria ou psicanálise: a dúvida cruel • SAC 03

por em 15/05/2018 em Ciência, Destaque | Nenhum comentário

Psicologia, psiquiatria ou psicanálise: a dúvida cruel • SAC 03

Olá. Se você está ligando ao Serviço de Atendimento à Ciência, talvez você esteja precisando de alguma ajuda. Você deve estar tendo uma pergunta interessante em seu coração. Por favor, sente-se em um local confortável, pegue uma garrafa d’água e respire fundo. Enquanto eu espero você fazer isso, estarei deixando uma suave música erudita para acalmar sua ansiedade em conseguir novos conhecimentos…

Depois de algumas semanas com as linhas em manutenção, voltamos a mais uma ligação! Hoje, nossa chamada vai até Palmeira dos Índios/AL para conversar com a maravilhosa Dani Almeida, graduanda em Psicologia e redatora do Deviante, para tentar nos ajudar a encontrar alguma diferença entre três palavrinhas tão parecidas, mas que representam formas muito diferentes de ver e estudar o ser humano: a psicologia, a psiquiatria e a psicanálise.


SAC: Começamos isso aqui muito bem, com meu chão caindo… Como assim essas três palavras não são sinônimos!? Elas são praticamente iguais!

Dani: Apesar de serem áreas bem parecidas, a origem e forma de atuação são diferentes. A Psiquiatria é um ramo da medicina e, por isso, dentre as três áreas, é a única que prescreve medicação. A Psicologia é uma outra área que vai lidar com questões de saúde mental, mas também de educação, rendimento esportivo, recursos humanos e outras. Já a Psicanálise trata de questões do inconsciente, mas difere bastante da psicologia geral em suas técnicas e formação. Pra ser psicanalista você precisa ter curso superior em qualquer área, fazer a formação em psicanálise e depois ser analisado por um psicanalista.

SAC: Nossa, elas parecem realmente bem diferentes, mesmo… Vamos começar de algum lugar, então! Como você define a Psiquiatria?

Dani: A Psiquiatria surge como um ramo da Medicina, que vai tratar sobre a saúde mental (naquela época dos chamados alienados, que era o nome dado aos “loucos”). Era meio que uma área menos valorizada, sabe? E aos poucos foi alcançando um status melhorzinho dentro da saúde.

SAC: Mas hoje ela é considerada uma área importante já? Em quais casos recorrer a um psiquiatra faz mais sentido?

Dani: Atualmente no Brasil, é a área que tem maior credibilidade e reconhecimento dentre as três. O ideal é que haja uma parceria entre acompanhamento psiquiátrico e psicológico, porque temos uma tendência à medicalização. O ideal seria que a pessoa procurasse o psiquiatra por indicação do psicólogo ou do seu clínico-geral. Mas o que acontece atualmente é de os próprios médicos de outras especialidades prescreverem psicofármacos, como o cardiologista que receita remédio pra ansiedade.

Fonte da imagem: Boa Vida Online

SAC: E isso é certo? Qual tipo de conhecimento uma pessoa – como um psiquiatra – deve ter para prescrever um remédio? Só saber ler e escrever e tá tudo certo?

Dani: Cá pra nós, é completamente errado um médico de outra especialidade prescrever psicofármacos. O psiquiatra se aprofunda nos estudos sobre saúde mental, principalmente na parte de transtornos mentais, e vai fornecer um diagnóstico e tratamento bem mais adequado do que um médico de outra área. Nesse caso, é como se o engenheiro civil fizesse o trabalho de um arquiteto: faz, mas não é a mesma coisa por falta de conhecimento técnico especializado.

SAC: E de que outras formas um psiquiatra pode ajudar um paciente além da prescrição de remédios?

Dani: Encaminhando a um psicólogo, hahahahah! Brincadeiras a parte, o grande problema entre as duas áreas é o excesso de prescrição de medicamentos pra questões que apenas a terapia resolveria, como, por exemplo, um TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo) em estágio inicial. A medicação é importante para momentos que o paciente está “em surto”, ouvindo vozes, vendo coisas que não estão no ambiente, etc. Ela age de modo a “trazer o indivíduo pra realidade” de novo e facilitar o diálogo. O psiquiatra também pode fazer exames de imagem que auxiliam a identificar as possíveis causas de algum problema, como um tumor, um aneurisma, uma lesão ou a má formação de alguma área encefálica.

SAC: Parece que a psiquiatria é realmente uma área bem legal! Mas qual é a diferença dela pra psicanálise? Só umas letrinhas a mais no nome mesmo?

Dani: Primeiro de tudo: psicanálise não envolve remédio. De certa forma, foi um saber revolucionário pra sua época porque prometia “a cura através da fala”. De modo geral, a psicanálise se propõe a tratar das questões do inconsciente, pois considera que parte da nossa personalidade não é acessível de forma consciente e que esses conteúdos aos quais não temos acesso podem gerar conflitos psíquicos. Os primeiros profissionais da área eram médicos e desenvolviam os tratamentos através da hipnose e de conversas com seus pacientes. Freud é o nome mais relevante da área, sendo conhecido como “pai da psicanálise” porque basicamente ele que desenvolve toda a teoria de base para análise dos conteúdos trazidos pelos pacientes.

SAC: Espera aí… Quer dizer que os psicanalistas eram médicos? Que loucura! E o quanto desse “lado médico” ainda resta na área?

Dani: Olha só, se considerarmos a história da psiquiatria, vamos ver que havia dificuldades no tratamento de muitos quadros psicopatológicos, até porque ainda não existiam exames de imagem e a neuroanatomia ainda engatinhava… Então, buscavam-se outras alternativas para tentar curar os pacientes. Mas, respondendo sua pergunta, a maioria dos grandes nomes da psicanálise clássica são médicos porque a psicanálise começou a se disseminar entre o meio médico. Atualmente já são duas áreas bem diferenciadas entre si, sobrando muito pouco da medicina na psicanálise. Somente na área da psicopatologia (que é mais voltada à psiquiatria) é que a herança da psicanálise é bastante presente, inclusive nos manuais diagnósticos, como o DSM.

Fonte da imagem: Odyssey

SAC: E como é uma consulta com um psicanalista? É só sentar no sofazinho lá e reclamar da vida mesmo?

Dani: Hahahahahaha, não, não!. A análise (que é como chama a sessão com o psicanalista) já começa desde o momento em que você marca o dia de ir. A estrutura da terapia vai variar de acordo com a linha teórica do profissional, porque existem várias escolas psicanalíticas (digamos que Freud não lidava muito bem com discordâncias). Em algumas linhas, você vai conversar sentado em frente ao analista; em outras, você pode estar deitado no divã; e em outras, o terapeuta vai deixar isso à sua escolha. As técnicas utilizadas pelos profissionais também vão variar de acordo com a escola teórica: associação-livre, hipnose, caixa dos sonhos, etc.

SAC: Nossa, tantas escolas diferentes! Mas por que ― e, claro, no que ― elas são tão diferentes? Tem um embasamento teórico ou é só uma briguinha de quinta série mesmo?

Dani: Hahahahaha, olha, elas têm bases teóricas diferentes mesmo. Como Freud foi pioneiro da área, os estudos que vieram depois foram ou para discordar ou para corroborar com a teoria dele. Basicamente, os discordantes formavam novas escolas teóricas porque eram expulsos da Sociedade Psicanalítica de Viena (que era tipo o clube da psicanálise na época). E como possuem bases teóricas diferentes, vão resultar em práticas também diferentes. Por isso existem técnicas que umas utilizam e outras não, conteúdos que algumas vertentes vão dar mais importância que outras, e por aí vai…

SAC: Mesmo com todas essas opções, quando eu devo procurar um psicanalista?

Dani: Olha, por ser um processo longo, tendo em vista que as análises geralmente duram anos, é bastante indicado para quem está buscando autoconhecimento, lidar com suas angústias e sofrimentos ou quer entender melhor alguns traumas de infância.

SAC: Ok, vamos para a última área: qual é a da psicologia? E por que ela é tão diferente das outras duas que já falamos hoje aqui?

Dani: Psicólogo estuda tudo e está em todos os lugares possíveis e imagináveis, hahahaha! Ele estuda desde os processos psicológicos básicos como atenção e memória, por exemplo, até problemas sociais como violência. A diferença das outras duas áreas se dá por, além de não usar medicamentos, a necessidade de um curso superior específico para formação de psicólogos. Isso lhe garante uma maior diversidade de área de trabalho. Os cursos de psicologia são generalistas e permitem ao egresso trabalhar nas áreas mais distintas, e não somente na clínica (como no caso do psiquiatra e da maioria dos psicanalistas). Assim como na psicanálise, existem diversas escolas teóricas e cada uma terá uma visão singular sobre o que é ser humano, o que são os fenômenos do comportamento e quais técnicas serão usadas no tratamento do sofrimento psíquico/transtorno mental.

SAC: E por quais motivos você pode (ou melhor, deve) procurar um psicólogo? E como é esse processo de fazer isso?

Dani: Vou considerar aqui o caso de um psicólogo clínico, certo? Daqueles que atendem em consultório. Você pode procurar caso esteja passando por algum tipo de sofrimento ou angústia, por algum diagnóstico recebido (TDAH, autismo, Alzheimer), caso esteja buscando reabilitação neuropsicológica, caso possua timidez exacerbada, etc. Para procurar um psicólogo você pode: (1) procurar seu agente de saúde ou a UBS do seu bairro; (2)  procurar clínicas-escola de psicologia que atendem de graça ou a valores simbólicos; (3) caso tenha plano de saúde, pode procurar um profissional da psicologia através do convênio; (4) pode ainda procurar em consultórios particulares. Geralmente, na primeira sessão, o paciente explica o motivo de ter ido procurar atendimento. O tempo de cada sessão, as técnicas utilizadas e quantas sessões serão realizadas até que o paciente tenha alta irão depender da abordagem teórica do psicólogo.

SAC: E quando não estamos falando de um psicólogo clínico? Onde mais podemos encontrar estes seres diferentes que estudam a ciência da psicologia?

Dani: Existem algumas áreas de atuação da Psicologia que são diferentes das abordagens teóricas. Alguns exemplos de áreas de atuação por eixo podem ser: (1) na saúde: hospitalar, saúde coletiva; (2) psicologia escolar/educacional: que pode estar inserido em escolas, creches, faculdades; (3) assistência social: CREAS, CAPS (também atua com saúde mental) e políticas públicas de assistência; (4) esporte, (5) psicologia organizacional: recrutamento e seleção, treinamentos; (6) psicologia jurídica; e por aí vai!

Fonte da imagem: Worcester Student Life

SAC: Nossa! Um psicólogo é quase o Bombril das humanas, mil e uma utilidades diferentes! E com tantas coisas diferentes e com tanta gente, vocês conseguem entrar em um consenso?

Dani: Praticamente nada é consenso na área, hahaha! Existem alguns eixos teórico-filosóficos de onde se ramificam várias abordagens. Os principais eixos/bases epistemológicas são: Social, Behaviorista, Humanista/Existencialista e Cognitiva. Daí se ramificam um monte de teorias que vão entender o ser humano de modos diferentes e, a partir daí, elaborar técnicas de intervenção diferentes.

SAC: E como é a formação de um psicólogo? Todos fazem a mesma graduação? Existem várias especializações? Tem uns tutorial no YouTube pra aprender?

Dani: Todos fazem a mesma graduação. 4 anos pra licenciatura/bacharelado ou 5 anos pra formação de psicólogo (o que é mais comum). A graduação é generalista e a gente vê um pouco de cada abordagem teórica. No entanto, a maioria dos profissionais faz algum tipo de especialização ou capacitação em sua abordagem teórica.

SAC: Nós falamos das três áreas e, bom, eu realmente tenho que admitir que elas são bem diferentes! Mas tem como elas trabalharem juntas, no melhor estilo “a união faz a força”?

Dani: Tem sim! Em saúde mental é sempre importante a parceria entre o psiquiatra e o psicólogo ou psicanalista, tendo em vista que os remédios vão tratar somente os sintomas, enquanto a terapia trata as causas do sofrimento psíquico/transtorno mental. Além disso, a terapia também serve para que o paciente desenvolva suas habilidades comportamentais que lhe auxiliem a enfrentar seus conflitos.

SAC: Agora, vamos falar diretamente com você, leitor que gostou de tudo o que nós conversamos e quer começar a estudar mais sobre o que se passa nas nossas complicadas cabecinhas… Quais fatores alguém tem que levar em consideração na hora de escolher uma destas áreas?

Dani: Primeiro é bom pensar se você gosta mais de filosofia ou de biologia, haha! Se gostar mais de biologia, partiu medicina e, depois, residência em psiquiatria. Se curtir mais filosofia, sociologia e ciências humanas, psicologia é uma boa escolha. Ao fim do curso você também pode se formar em psicanálise. Caso fique no meio termo e não consiga escolher entre humanas ou biológicas, pode fazer psicologia e depois especializar-se em áreas de neurociências.


E agora, essas três coisas ainda parecem uma só? Tem alguma dúvida sobre psicologia? Sobre psiquiatria? Sobre psicanálise? Não deixe isso ficar só na sua cabeça e deixe seus comentários aí embaixo. E não esqueça que o Serviço de Atendimento à Ciência está sempre aberto. Deixe também as suas sugestões de tópicos e acompanhe as próximas ligações!