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Páscoa, Lua Cheia e Satélites

por em 23/03/2016 em Ciência, Comunidade, Naelton Araujo | 2 comentários

Páscoa, Lua Cheia e Satélites

Você sabe por que sempre tem Lua Cheia na Páscoa? Qual a relação desta época com satélites artificiais? Pista: não tem nada a ver com coelhos apesar de ter uma lebre no céu. Definitivamente não tem a ver com ovos, muito menos de chocolate. Outra pista: tem a ver com o movimento da Terra ao redor do Sol.

Hemerologia

Quase toda cultura, sobretudo as ocidentais, tentam conciliar um calendário de ano solar, que se harmoniza com as estações do ano, com meses lunares, que levam em conta as fases da Lua. Certamente isso tem relação com atividades ligadas a natureza. Exemplos disso são os plantios que dependem dos ciclos de chuvas e a pesca que depende das marés. Mas as festas religiosas também usam estes calendários lunissolares. Estes assuntos são os objetos de estudo da Hemerologia, a arte de compor calendários: as maneiras criativas e engenhosas de encaixar um número inteiro de dias em semanas e meses lunares em anos solares. Uma definição mais precisa: estudo dos calendários, em seus aspectos astronômicos, técnicos, históricos e religiosos. Sobre calendários podemos indicar o episódio SciCast #106.

A Lua Cheia e a Páscoa Judaica

A Páscoa é uma festa religiosa de origem judaica e cristã. A data da Páscoa é fundamental para marcar a maior parte das festas religiosas destas duas crenças. A origem da palavra Páscoa é hebraica: “Pessah” que significa “passar por cima” (o que explica a expressão inglesa: “passover”).

Os judeus comemoram a saída do Egito e usam a data para configurar seu calendário lunissolar.

No mês primeiro, aos catorze do mês, à tardinha, é a páscoa do Senhor. (Levítico 23:5)

O primeiro mês do calendário judaico é chamado Nissan (chamado Abibe no texto do Torá). Este mês marca a primavera do hemisfério norte. Corresponde ao nosso 26 de abril.  Lembrando também que os meses judaicos sempre começam na Lua Nova, assim, 14 dias depois vamos ter Lua Cheia na certa.

Hemerologia

Alto esquerda as fase da Lua. Alto a direita: O dias da semana e os planetas. Abaixo a esquerda: Pessah Judaica. Abaixo no centro: Páscoa Cristã. Abaixo esquerda: Ciclos de tempo e astros.

E a Páscoa Cristã…

O Cristianismo que tem sua origem no Judaísmo também adotou a data da Páscoa como uma das suas festas mais importantes. Os cristãos comemoram a ressureição de Cristo.

Estando próxima a páscoa dos judeus, Jesus subiu a Jerusalém. (João 2:13)

A Páscoa cristã tornou-se uma festa móvel no calendário ocidental que a atrelou aos dias da semana. O Primeiro Concílio de Niceia (325 d.C.) determinou uma fórmula para calcular a data da Páscoa: o primeiro domingo depois da lua cheia após o início do equinócio de março, primavera do hemisfério sul. A expressão equinócio vem do latim “aequus” (igual) e “nox” (noite), e significa “noites iguais”, isto é, a duração do dia é igual a duração da noite. Se acompanharmos o Sol dia após dia no seu movimento aparente no céu veremos que nem sempre ele nasce exatamente ao Leste e se põe no Oeste. Quando isso acontece temos os equinócios: dois ao ano. O movimento de translação da Terra ao redor do Sol combinado com a inclinação do eixo do nosso planeta, criam este comportamento. Isso é determinado astronomicamente e varia em torno dos dias 20 e 21, ano após ano. É mais prático para o cálculo eclesiástico usar o 21 de março para o equinócio de março (dito equinócio vernal). Além disso a data da “lua cheia” varia astronomicamente. Por isso a data da Páscoa varia entre 22 de março e 25 de abril.  Mas sempre é Lua Cheia por definição. Veja mais detalhes neste link.

E o coelho?

E o coelho?  Não tem nada de astronômico no coelho da Páscoa. O mais perto de uma referência celeste ao coelho é a constelação da Lebre logo ao sul da constelação do Órion (onde ficam as Três Marias).  Esta constelação é visível na época da Páscoa, em outras estações também, nenhum destaque especial para março. O que coelho e chocolate tem a ver com Páscoa? Seja o que for, não é de caráter astronômico, até onde eu sei.

constelação

Desenho da Constelação da Lebre.

E os satélites?

Do ponto de vista da Terra, o Sol descreve ao longo de um ano um caminho entre as estrelas do Zodíaco denominado eclíptica. Devido a inclinação do eixo de rotação da Terra a eclíptica faz um ângulo de 23,5 graus com o plano do equador da Terra. Se projetarmos este plano no céu teremos outro círculo: o equador celeste. Assim, duas vezes por ano o Sol passa pelo equador celeste: em março e setembro, os equinócios.

Os satélites de comunicação mais importantes são os chamados geoestacionários. Na distância em que se encontram (aproximadamente 36000 km de altitude) os satélites se movem com velocidade angular semelhante a Terra, assim eles dão uma volta completa a cada 24 horas. Para que este arranjo vantajoso permita usar antenas fixas é preciso que a órbita esteja no equador celeste. Mas duas vezes por ano o Sol passa pelo equador e ao longo do dia se alinhará com o Sol. Independente de atividade solar o astro-rei sempre emite muito em todas as frequências. Assim por alguns dias, em torno do meio dia, durante os equinócios o satélite estará entre nós e o Sol. Dependendo da posição do Sol e das características da antena utilizada o sinal de TV via satélite pode ser perdido. Alguns usuários deste serviço já devem ter tido esta experiência de ver a mensagem de que o Sol estava interferindo no sinal de TV durante alguns minutos em alguns dias antes e depois do equinócio. Um bom exemplo de previsão destas interferências pode ser encontrado no site da StarOne, empresa onde trabalhei no tempo de operador orbital (calculei muitas destas tabelas),

Brasilsat

Esquema geométrico da interferência solar em satélites geoestacionários.

Então, veja como um fenômeno astronômico como os equinócios influênciam na sua vida cotidiana mais do que imaginava. Para encerrar, independente da sua crença ou de suas comemorações de entrada das estações ou fases da Lua: FELIZ PÁSCOA PARA VOCÊ!

Dica de artigo interessante: Origem do Nosso Calendário