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Heróis e suas origens traumáticas

por em seg 13America/Sao_Paulo nov 13America/Sao_Paulo 2017 em Ciência | Nenhum comentário

Heróis e suas origens traumáticas

Do que é feito um super-herói? De super força? Super velocidade? Capacidade de voar? Corpo impermeável a balas? Claro que não! Heróis como Batman e o Homem de Ferro estão aí para comprovar. A não ser que você considere os dígitos enormes nas suas contas bancárias como super poderes, mas não vemos nenhum Bill Gates vestindo uma capa e combatendo o crime por ai. Um super-herói é formado por suas ações e boa parte do enorme leque de heróis já criados nas HQs e representados nas telas de cinema possuem algo incomum.Uma mesma categoria de evento muito bem marcado em suas trajetórias, que nada tem a ver com o momento em que ganham seus super poderes, estou falando de um evento traumático.

A morte do tio de Peter Parker, dos Pais de Bruce Wayne ou da Mãe de Berry Allen, nossos queridos Homem Aranha, Batman e Flash. Foram situações violentas e extremamente traumáticas sendo o ponto de ignição para a tomada de uma vida heroica. Vou tentar trazer algumas ideias e hipóteses que possam justificar esse fenômeno que não somente reside no mundo de fantasia dos quadrinhos, mas, que de certa forma, também ocorre no nosso plano terrestre.

Para a psicologia, trauma pode ser caracterizado como um evento estressor que quebra com o nosso senso do que entendemos como realidade e desmonta com nossas crenças mais centrais a respeito do mundo. A partir dele novas crenças são articuladas – de forma funcional ou disfuncional. Dentro de um padrão evolutivo e adaptativo, se passo por uma situação traumática, como um assalto a mão armada, podemos entender que ficar em um estado de maior alerta ao caminhar na rua, mais cuidadoso com lugares que ando, evitando regiões de potencial recorrência do evento, pode ser considerado saudável e funcional. Porém, se estes sintomas permanecem e se ampliam ao ponto que não consigo mais sair de casa sozinho, podemos entender que um padrão de comportamento não funcional foi instaurado.

Existem alguns estudos realizados a cerca de pessoas que vivenciaram situações traumáticas e que apontam que muitas delas apresentam uma melhora significativa em suas vidas. É como se fizessem um processo de resignificação de aspectos disfuncionais e a partir de uma experiência em que seu senso de mundo é posto em cheque, de certa forma tomam consciência sobre os mesmos e mudam suas condutas. Claro que isto não é regra! Uma das explicações dada ao fenômeno é de que tais pessoas possuem um sistema de crenças mais flexíveis e dotadas de melhores estratégias para acomodar o evento dentro seu aparelho psíquico, assim como uma gama maior de estratégias para conduzir suas ações após o trauma.

Antes de analisar a conduta dos heróis, quero enfatizar que a grande maioria deles, ao menos pela minha visão psicológica, estão longe de serem figuras de definição de sanidade mental. O nosso primeiro exemplo a respeito desse pensamento pode ser Bruce Wayne. Podemos pensar que após o assassinato de seus pais, ele passa uma vida de dor e sofrimento tentando, através da figura do morcego, reestruturar suas crenças, agora bastante violentadas. Porém, aquela cena vista e revista pelos fãs da história, do colar de pérolas de sua mãe caindo no chão, é incessantemente trazida para sua memória através de flashbacks e agonia, sintomas muito comuns em pacientes portadores de transtorno de estresse pós traumático. Gosto de pensar na ideia de que a própria cidade Ghotam poderia ser uma ilustração da mente corroída de Bruce após o assassinato de seus pais. A figura do Batman seria então uma espécie de mecanismo de defesa utilizado para evitar a todo custo que eventos como estes voltassem a acontecer. Claro que como todo mecanismo pautado por crenças disfuncionais e condutas mais disfuncionais ainda, ao invés de o afastarem de um novo trauma, o deixam cada vez mais próximo – vide a recorrência dele com a morte do Robin.

Peter Parker e Berry Alan também são ótimos exemplos, ambos tiveram suas vidas marcadas por perdas abruptas. Berry Alan tem sua mãe assassinada e, mesmo antes de ganhar os poderes do Flash, tem em sua profissão de analista forense uma forma de combater aquilo que desconfigurou suas crenças – um mundo injusto. Assim como Peter Parker, que mesmo após ganhar seus poderes, era “apenas” um adolescente com super poderes. Foi na morte de seu tio que sua jornada como herói se iniciou, a partir da dor e sofrimento da perda que o mesmo entrou nesta busca desenfreada contra o crime que, assim como os outros exemplo citados, poderia estar a serviço de evitar a revivência o trauma originário.

Assim como nós, ao passarem por uma situação traumática, esses herois estão respondendo de forma a evitar a reincidência do evento. Como já citado na análise de Bruce Wayne, um fato bastante interessante é que a dor, o sofrimento, as constantes revivências do trauma e a culpa que todos estes personagens carregam são bastante característicos de pessoas que devolveram Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT). Será que com uma boa terapia tais personagens poderiam aposentar seus uniformes e talvez viver uma vida mais calma? Não sei ao certo, mas gosto de pensar que a existência de traumas na vida de qualquer um não significa que estamos fadados a algum fracasso e sim que a existência deles, se acomodados e significados de forma saudável, poderá trazer crescimento.

 

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Rodrigo Fernandez Rosa
Psicólogo Cognitivo Comportamental

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