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Games no Lab: Bombas nucleares, filas em metrôs, mutantes e sotaque russo

por em 25/02/2019 em Ciência, Games | Nenhum comentário

Games no Lab: Bombas nucleares, filas em metrôs, mutantes e sotaque russo

Em 2013, em meio a um monte de shooters genéricos, um FPS se destacou por possuir pitadas de sobrevivência e uma atmosfera de solidão devido aos cenários devastados por bombas atômicas. Esse game é Metro 2033, que foi baseado em uma obra de mesmo nome, escrita pelo russo Dmitry Glukhovsky (não me pergunte como se pronuncia esse sobrenome) e lançada em 2002. A história acompanha o protagonista Artyom e outros sobreviventes que vivem refugiados dentro dos metrôs de Moscou, depois que uma guerra nuclear devastou a capital e tornou a superfície inabitável. Mas se houvesse uma guerra nuclear, os tuneis do metrô de uma cidade, seriam capazes de resistir às bombas? Poderiam servir de abrigos aos sobreviventes? Vamos responder a essas e outras questões a seguir. Então, lembre-se de trocar os filtros de sua máscara de gás e fique atento quanto a aparição de mutantes, pois hoje entraremos nos tuneis de Metro 2033.

No game, o russo Artyom é um jovem de 20 anos que virou órfão ainda criança e nasceu poucos anos antes de uma grande guerra nuclear que devastou seu país e obrigou os sobreviventes a se refugiar nos tuneis do metrô. Com isso, sociedades foram formadas, funcionando mais ou menos como pequenas cidades. São essas sociedades que nos fornecem a maioria das missões do game e muitas envolvem a exploração da superfície atrás de suprimentos e recursos. Esses são momentos tensos, pois Artyom não pode respirar o ar da superfície devido a contaminação pela radiação das bombas. É, assim, necessário o uso de uma máscara de gás que exige a troca de filtros de tempos em tempos, dando um ar de urgência para completar o objetivo, pois os filtros são recursos escassos.

Mutantes vivem na superfície e apresentam perigo ao protagonista, mas não menos perigosos são os “bandidos” que também vivem nos tuneis. O combate muitas vezes prioriza ataques não diretos, sendo a furtividade uma boa pedida, porém, para os momentos mais tensos, o protagonista conta com um vasto arsenal de armas e aqui outro sistema do game chama a atenção. A moeda corrente nesse futuro distópico são as munições das armas. Existem munições especiais que dão mais dano, mas também podem ser usadas para comprar uma arma ou equipamento. Isso faz com que o jogador gerencie bem seus recursos, pois cabe ao jogador escolher entre usar tais munições em inimigos mais resistentes a balas normais ou economiza-las para comprar um equipamento melhor.

Mas antes de entrarmos na questão dos tuneis (sim, foi um trocadilho barato), vamos conhecer um pouco sobre as bombas que poderiam fazer o estrago visto no game.

Ainda procurando a graça da piada

Para efeito de comparação, as bombas de Hiroshima e Nagasaki detonadas em 1945 possuíam uma “potência” de 15 quilotons, poder equivalente a uma explosão de 15 mil toneladas de TNT, o que causou uma destruição direta em um raio de 1,6km. Essas bombas possuíam apenas um estágio, ou seja, um explosivo tradicional dentro da bomba é acionado e comprime o material nuclear (urânio ou plutônio) também dentro da bomba. Isso causa uma fissão nuclear, os núcleos dos átomos desse material nuclear são quebrados, liberando uma enorme quantidade de energia.

Já na década de 1950, os americanos adicionaram um segundo estágio, criando a bomba de hidrogênio, que possui esse nome devido ao seu funcionamento. A energia liberada no primeiro estágio serve para “espremer” átomos de hidrogênio que estão no segundo estágio. Então eles se juntam através de um processo chamado fusão nuclear, liberando ainda mais energia. É o mesmo processo que ocorre naturalmente em estrelas como o Sol. Uma bomba de hidrogênio pode chegar a “potência” de mais ou menos 15 megatons, 15 milhões de toneladas de TNT. E então chegaram os russos…

Vamos elevar as coisas ao nível russo

Não querendo ficar atrás na corrida armamentista durante a Guerra Fria, os russos inventaram na década de 1960 uma bomba com três estágios, sendo 50% de fissão e 50% de fusão. A Bomba Tsar tinha poder explosivo de 100 megatons (100 MILHÕES de toneladas de TNT), mas até os russos acharam isso demais e no seu teste detonaram SÓ 50 megatons. Isso causou um raio de destruição de 100km. Observadores a mais de 270km do alvo puderam sentir o calor liberado pela explosão. A bomba foi detonada a 4km do chão (normalmente bombas nucleares são detonadas no ar para aumentarem o raio de destruição), o que foi suficiente para nivelar e “polir” perfeitamente o solo, transformando-o em uma pista de patinação. Esse foi o maior teste já realizado com uma bomba na história.

Todas essas bombas que vimos podem causar destruição e morte de 3 maneiras. Primeiramente temos a onda de choque que pode derrubar prédios e outras construções, além de arremessar pessoas que estejam na área afetada. Depois vem a onda de calor, incinerando tudo no seu caminho, mais ou menos assim:

Por fim temos a radiação, que além de afetar a área da explosão pode se espalhar com o vento na forma de poeira radioativa, podendo contaminar áreas a milhares de quilômetros de distância do ponto inicial da explosão.

Vimos então que já temos bombas de poder suficiente para causar o estrago visto em Metro 2033 e entendemos como essas bombas causam todo esse estrago. Vamos então falar sobre abrigos nucleares.

De maneira bem simples, abrigos nucleares são abrigos subterrâneos construídos principalmente durante a Guerra Fria. Esses abrigos ofereceriam proteção contra bombas nucleares e contariam com suprimentos para que os sobreviventes em seu interior pudessem esperar dias ou meses para sair, depois que a possível guerra tivesse acabado.

Opa, game errado

Com as bombas nucleares explodindo sem tocarem o solo, um abrigo com alguns metros de profundidade já seria o suficiente para nos proteger contra a onda de choque e de calor. Provavelmente você já deve ter visto isso nesse filme:

Bem, a maioria viu, porém, está até hoje tentando esquecer tudo isso que aconteceu, inclusive até a Fox tenta esquecer. Voltando ao tema…

Nosso grande problema seria a radiação. A explosão de uma bomba atômica libera três tipos de radiação, alfa, beta e gama. Um abrigo nuclear, só por estar debaixo da terra, já ofereceria proteção contra a radiação alfa. Já para a proteção com a radiação beta, uma parede de concreto com uns 3 metros de espessura seria suficiente. O grande problema é a radiação gama, pois, além de paredes de concreto e tijolo, seria preciso uma chapa de chumbo para que houvesse proteção contra esse tipo de radiação. Em um abrigo nuclear, essa proteção é essencial, pois, diferentemente das radiações alfa e beta que não causam grandes danos ao ser humano, a radiação gama é capaz é alterar a estrutura do DNA. Só lembrando que, se você for exposto à radiação gama, essas mudanças na estrutura do seu DNA não iram te transformar em um ser verde e raivoso, você SÓ vai ter câncer.

Agora, se durante um ataque nuclear, você não estiver próximo a um abrigo nuclear, mas estiver em Moscou, sem sombra de dúvidas sua melhor opção é o metrô de Moscou. Depois das explosões das bombas em Hiroshima e Nagasaki, o mundo viu surgir uma nova ameaça, com isso, a Rússia começou a produzir suas próprias bombas caso fosse necessário fazer frente aos Estados Unidos. As duas maiores potências daquela época se enfrentavam em conflitos indiretos e disputas estratégicas, começava assim a Guerra Fria.

Já no começo da década de 1950, com medo de um ataque eminente, o então líder da União Soviética, Josef Stalin, ordenou a construção de diversos abrigos nucleares na capital Moscou, isso incluiu também as linhas do metrô. Essas linhas foram construídas a dezenas de metros de profundidade e contam com portões que podem ser hermeticamente fechados, protegendo contra a radiação. Isso vale também para as paredes, que contam com reforços de concreto e metal. Os sistemas de ventilação possuem bloqueios que impedem a entrada de ar contaminado com armas químicas e biológicas. Com o passar dos anos, melhorias foram feitas e muitas estações foram equipadas com suprimentos de água e comida para que milhares de pessoas possam sobreviver durante dias.

Esses “cuidados” na construção de novas linhas duraram até 2012, quando o vice-prefeito Marat Khusnullin justificou que espera que nunca haja uma guerra, por isso não seriam mais necessários novos túneis contra guerras nucleares. Então, o que vimos em Metro 2033 – pessoas sobrevivendo a uma guerra nuclear no metrô de Moscou – é plenamente plausível.

Hoje o metrô de Moscou é um dos mais eficazes do mundo, com uma linha circular no centro, de onde saem outras radiais. Com isso, ele garante acesso à boa parte da cidade e é o maior do mundo por densidade de passageiros. Algumas das estações foram revestidas de mármore polido e lustres, parecendo verdadeiros palácios, já outras conservam a arquitetura e arte do período da Guerra Fria e contam até com passeios turísticos. Uma verdadeira viagem no tempo.

O metrô de Moscou. E eu que me perco nas linhas do metrô de São paulo…

Então é isso, pessoal. Como sempre, espero que tenham gostado. Metro 2033 é um excelente game que ganhou uma continuação em 2013, Metro: Last Light, e outra que deve chegar no começo de 2019, Metro Exodus. Recomendo qualquer game da franquia, principalmente pela ótima atmosfera que passam, fazendo o jogador se sentir indefeso frente à radiação, um inimigo invisível, mas sempre presente. Fiquem à vontade para fazer críticas ou mandar sugestões. Também deixem aí nos comentários se vocês já jogaram algum dos games ou se sentiram interesse em jogar. Até mais. Abraços.

Fontes: BBC, Scielo, Super Interessante, Site de Curiosidades, Jornal da Ciência, Mobilize, Russia Beyond, Como Funciona e Brasil Escola

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