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Cheiro de Praia

por em 28/02/2019 em Ciência | Nenhum comentário

Cheiro de Praia

Imagine que você está em uma praia. Imagine-se tomando uma água de coco gelada, ouvindo o som das ondas se quebrando, vendo os guarda-sóis coloridos fincados na areia branca, sentindo a brisa refrescante trazendo o cheiro salgado de mar… espera, o mar tem cheiro?

Este cheiro de maresia característico que você sente quando está na praia não é da água do mar, nem dos peixes. O culpado é um composto de enxofre, o dimetilsulfureto, substância volátil liberada por bactérias, fitoplânctons e algas marinhas e que possui um papel importante na saúde dos oceanos.

Como todos os compostos que contém enxofre em sua composição, o dimetilsulfureto possui, em grande concentração, um cheiro desagradável, mas ele é muito importante na cadeia alimentar marítima, atuando como sinalizador para muitas espécies e, quando liberado na atmosfera, auxilia na formação de nuvens sobre os oceanos.

Representação de uma molécula do dimetilsulfureto. Um átomo de enxofre ligado à duas metilas, CH3-S-CH3. Fonte: Wikipedia.

Essa substância de aroma ímpar é produzida por microorganismos que vivem nos oceanos e que utilizam enzimas específicas para processar dimetilsulfonopropionato, um antioxidante que remove outras moléculas reativas, e osmólito intracelular, que regula o balanço da pressão osmótica do meio intra e extracelular, mantendo o sal marinho do lado de fora da célula, e preservando a estabilidade conformacional de proteínas.

A produção de dimetilsulfureto é ativada principalmente quando o organismo sofre estresse por radiação UV. Esses microrganismos são a maior fonte natural de dimetilsulfureto, produzindo mais de 100 Gg (100 gigagramas) por ano.

Além disso, o dimetilsulfureto é a principal fonte de enxofre na forma reduzida no ciclo do enxofre. De forma similar ao ciclo do carbono, em que as plantas processam o CO2 produzido pelos animais, os compostos de enxofre são consumidos e produzidos num equilíbrio delicado.

Diversos grupos de seres vivos aprenderam que o dimetilsulfureto é um sinal de “comida por perto” e são atraídos por ele. Espécies de peixes são capazes de perceber o cheiro do dimetilsulfureto, que indica a presença de plumas de fitoplânctons das quais os peixes se alimentam. Aves marinhas, por sua vez, aprenderam que o dimetilsulfureto pode atrair cardumes de peixes e anuncia a hora do almoço.

Na atmosfera, o dimetilsulfureto é rapidamente oxidado para dióxido de enxofre (SO2) e sulfatos (SO4-2), formando aerossóis que agem como núcleo de condensação, onde as gotículas de água se juntam para formar nuvens, alterando a reflexão dos raios solares e contribuindo para o controle de temperatura do planeta.

Devido ao fato de que o dimetilsulfureto é um gás estufa negativo, o seu potencial para contrabalançar o aquecimento global está sendo estudado pela área de pesquisa “conexão alga-nuvem” numa tentativa de reverter ou pelo menos reduzir as mudanças climáticas. Uma intervenção desse tipo é arriscada, já que ainda não se conhece completamente esses ecossistemas.

Então da próxima vez que você estiver de férias na praia, lembre-se dos fitoplânctons e das algas unicelulares que tornam o planeta Terra habitável por nós, humanos.

 

Referências

Alcolombri, Uria; et. al. Identification of the algal dimethylsulfide–releasing enzyme: A missing link in the marine sulfur cycle. Science. Vol. 348, Issue 6242, pp. 1466-1469. 2015.

Sun, J; et al. The abundant marine bacterium Pelagibacter simultaneously catabolizes dimethylsulfoniopropionate to the gases dimethyl sulfide and methanethiol. Nature Microbiology. Vol 1. 2016.

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