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Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada – Parte III

por em 13/02/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada – Parte III

Seu cabelo é naturalmente liso, ondulado, encaracolado, cacheado ou crespo? Quer saber por que existem diferentes tipos de cabelo e como é possível modificá-los? Então este texto é o lugar certo para você!

Na Parte I da série de textos mais embaraçada do Portal Deviante entendemos o ciclo de vida dos nossos cabelos e na Parte II desenrolamos o fio de cabelo até sua estrutura mais interna para ver do que o cabelo é feito. Caso você tenha descido pelas tranças da Rapunzel diretamente neste texto, aconselho ler antes os dois primeiros para melhor aproveitamento (mas, se quiser ler só esse, também pode!).

Vamos voltar um pouco ao berço do nosso fio de cabelo, o folículo capilar. “Pra quê???”, você deve estar pensando… Bom, porque ele é o principal influenciador do nosso tipo de cabelo! As características do folículo capilar impactam diretamente a forma e textura do cabelo que é produzido. Por sua vez, o folículo é afetado pelos genes que você herda de seus pais. Logo, se seu cabelo é liso, ondulado, cacheado ou crespo é por conta, principalmente, da sua genética.

“Genética? Só lembro que tinha uns a, A (azinho, azão, haha)! O que isso tem a ver com cabelo?”

Então vamos para um resuminho sobre genética antes de continuar:

Primeiramente, sabemos que o DNA é responsável por carregar a informação genética de cada um de nós (você pode relembrar sobre a formação do DNA e como ele é usado como “manual de instruções” genético aqui e aqui)… mas como essa informação é passada de pai para filho? As estruturas que são responsáveis pelas nossas características herdadas são chamadas de genes. 

O gene é a unidade fundamental da hereditariedade. Os diferentes genes são formados por sequências específicas de DNA e controlam desde a estrutura e as funções metabólicas das células até o organismo como um todo, já que é a partir da informação contida nos genes que são produzidas todas as proteínas necessárias no nosso corpo. Estima-se que o ser humano tenha entre 20.000 e 25.000 genes, sendo que menos de 1% do total são levemente diferentes entre cada pessoa. Essas diferenças ocorrem devido a mutações em suas sequências que levam a variações do mesmo gene, conhecidas como alelos. Esses alelos codificam versões levemente diferentes de uma mesma proteína, o que contribui para as diferentes características na população.

Toda essa informação de uma pessoa é empacotada nos cromossomos e são essas estruturas que passam as instruções genéticas dos pais para os descendentes, por meio dos genes localizados nas células reprodutivas.

Genes são feitos de DNA. Cada cromossomo tem muitos genes.

Na fertilização, cada gameta – óvulo e esperma – geralmente tem 23 cromossomos e, portanto, o zigoto termina com 46 cromossomos. Ou seja, o óvulo fertilizado tem 23 pares de cromossomos, sendo que ao final o descendente tem duas cópias de cada gene: um herdado da mãe e um herdado do pai, já que ambos passaram seus alelos para cada traço diferente. Portanto, mesmo se você nasceu com o cabelo cacheado da sua mãe, você também tem a informação genética sobre a textura do cabelo liso do seu pai.

Agora vamos relembrar o que eram aqueles aa, AA, Aa:

Para cada característica, os pais podem tanto contribuir com o mesmo tipo de informação quanto eles podem passar diferentes versões. Vamos considerar uma característica qualquer que é passada por um gene que possui dois alelos ‘A’ e ‘a’.

Se uma pessoa possui os dois alelos iguais (AA ou aa), o traço é homozigoto e caso os alelos sejam diferentes (Aa), o traço é heterozigoto. Normalmente, se o indivíduo é homozigoto, a pessoa apresentará a característica resultante. Já os casos de traços heterozigotos são mais complicados. Em alguns, um dos alelos é dominante e, por isso, ele é expresso sobre o gene recessivo. Um exemplo deste tipo de traço é o chamado “bico de viúva”. Mesmo se você herda só um alelo para essa característica (ou seja, você é Aa, considerando que o alelo A seja o dominante), você irá ter a forma em V na sua testa. Você terá uma linha reta só se você receber dois alelos “não-bico de viúva” (aa).

Marilyn Monroe e seu “bico de viúva”.

Entretanto, dominância não significa que um alelo completamente se desliga para que o outro apareça: ambos são ativos. Muitas operações nos traços capilares são mais complexas que simples dominância de um alelo e vários genes contribuem para a característica final.

Além disso, a textura do cabelo é determinada por múltiplos genes e diferentes variações nesses genes são encontrados em populações de diferentes regiões do planeta. Por exemplo, cabelo liso em asiáticos é causado pela variação em dois genes, mas esses genes são diferentes daqueles que influenciam a textura capilar em europeus. Ou seja, se o cabelo liso em asiáticos é dado pela combinação dos diferentes alelos dos genes A e B, em europeus o cabelo liso pode ser dado pela combinação de alelos dos genes C e D. O mesmo vale para o cabelo cacheado em populações africanas e europeias que provém de diferentes variações genéticas em cada região.

Talvez você nesse momento.

Sendo assim, agora que vimos um pouco sobre genética, vamos entender como chegamos aos diferentes tipos de cabelo. Já entendemos que a característica final, que, no caso, é a textura do cabelo, vem a partir de diferentes combinações de alelos pertencentes a vários genes. Também já disse que o folículo capilar tem grande influência na textura do cabelo. Mas como juntar tudo isso? Simples: essas diferentes combinações de alelos nos entregam diferentes formas de folículos.

Se os folículos são simétricos, o cabelo nasce liso, enquanto que se os folículos são assimétricos, eles produzem fios em formato oval que tendem a enrolar enquanto crescem. Essa simetria/assimetria tem a ver tanto com a forma do folículo quanto com o ângulo que ele apresenta desde sua base até o fio sair pelo escalpo. Quanto mais vertical o folículo for, mais redondinho será o formato da saída do fio e, com isso, mais liso o cabelo. Por outro lado, quanto mais inclinado o folículo, mais achatado será o formato da saída do fio. Além da forma do fio, o fato do folículo sair em um ângulo do escalpo, faz com que o cabelo precise se curvar para sair e por isso tende a cachear. Portanto, quanto mais o folículo for inclinado, mais cacheado será o cabelo até chegar ao crespo.

Diferentes formas do folículo resultando em diferentes texturas capilares.

Além da curvatura do fio de cabelo, esse ângulo do folículo causa outro efeito. Você se lembra quando eu falei na Parte I sobre as glândulas sebáceas que adicionam óleo ao fio de cabelo antes dele sair pela epiderme? Pois então… quando os folículos são inclinados, o sebo secretado por tais glândulas não é capaz de passar por todo o fio. Por isso que geralmente cabelos lisos são naturalmente mais oleosos, enquanto cabelos cacheados e crespos são mais secos.

Agora você deve estar se perguntando “mas por que o folículo inclinado faz com que o cabelo enrole mais?”. Além da forma do folículo capilar, a estrutura do fio de cabelo (mais especificamente o córtex) também influencia na textura final do cabelo! Como já foi dito nos textos anteriores, os fios de cabelos são basicamente compostos de queratina. Um dos aminoácidos constituintes dessa proteína é a cisteína, a qual é especialmente importante para a textura capilar, já que é um composto sulfurado, ou seja, apresenta enxofre ligado à cadeia carbônica. Esse tipo de composto permite a formação de ligações fortes com outras moléculas que contém enxofre, as chamadas ligações dissulfeto.

Aminoácido cisteína e ligação dissulfeto entre duas cisteínas.

No caso do cabelo, esses aminoácidos podem se ligar a outras cisteínas presentes ao longo da mesma protofibrila, ou até do mesmo protofilamento presente no córtex do fio (lembram deles?), o que contribui para o “enrolamento” do cabelo. Para que ligações químicas ocorram, é necessário proximidade entre as moléculas ou, no nosso caso, entre as diferentes partes da estrutura capilar e, como já disse, quando temos um ângulo no folículo capilar, o fio tende a se curvar. Com essa curvatura, permite-se que diferentes regiões do fio de cabelo fiquem pertinho uma das outras, o que facilita a formação das ligações dissulfeto e, portanto, do cabelo cacheado. Então, além da inclinação do folículo aumentar, do mais cacheado até o crespo, mais ligações dissulfeto estarão presente no fio de cabelo.

Agora que já sabemos o que dá a forma/textura ao cabelo, como são feitas as modificações capilares?

Em certos casos, algumas drogas fortes usadas em tratamentos de câncer, por exemplo, inibem alguns receptores celulares presentes nos folículos e, por isso, algumas pessoas que tinham cabelo liso antes, acabam ficando com o cabelo cacheado depois que a quimioterapia termina.

Mudanças hormonais podem dar cachos temporários em alguns casos, mas é também o que explica a mudança da textura do cabelo de uma criança quando ela entra na puberdade.

Tirando fatos desse tipo, como a forma do folículo vem da sua genética, não temos como modificar a textura do cabelo, modificando o folículo. Por isso, não há como uma pessoa com cabelo liso mudar seu cabelo para cacheado, ou vice-versa, fazendo com que ele já nasça na forma nova e, assim, os métodos de modificação irão mexer no fio de cabelo.

Permanente, relaxamento e alisamentos em geral tiram vantagem da habilidade da formação das ligações dissulfeto da queratina para mudar a estrutura do cabelo, da forma que a pessoa deseja. Se você tem cabelo cacheado/crespo, mas quer cabelo liso, você precisa usar produtos que podem quebrar ou “relaxar” essas ligações. Se você quer mudar seu cabelo de liso para cacheado/crespo, então você precisa de produtos que permitam que essas ligações se formem. Além disso, como há outros tipos de ligações mais fracas entre as estruturas que formam o fio de cabelo, há tipos de modificações que duram menos tempo e que “saem lavando”. 

Tchau chapinha!

Hoje, com a valorização (e até mesmo auto-aceitação) maior de todos os tipos de cabelo, foi feita uma classificação das diferentes texturas de forma a facilitar o conhecimento de cada um sobre a própria cabeleira e também do acesso aos produtos corretos para o seu tipo de cabelo. Se quiser saber qual a classificação do seu cabelo, esse site explica de uma forma bem legal e com fotos para você comparar.

Lembre sempre que não existe cabelo ruim, existe no máximo cabelo mal cuidado (muitas vezes por falta de conhecimento). E também não existe cabelo feio, todo cabelo é bonito se você se sente bem com ele!

Até a próxima!

 

Referências:

LEE, C. M.; INGLIS, J. K. Science for hairdressing students. Pergamon Press, 1983.

Thibaut, S. et al. Human hair keratin network and curvature. International Journal of Dermatology, L’Oreal Recherche, Clichy, France, 2007.

Observable Human Characteristics.

What side of your family do you inherit hair traits from?

Why do some people have curly hair while others have straight hair?

The science of curls.

What makes hair curly or straight?

What makes hair naturally straight or curly? – Big Questions – (Ep. 218)

What is a gene?

Capa: Enrolados

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