vida besta - 2

É sexta-feira. Você sai do trabalho com a sensação de que está fugindo de um presídio e segue em direção à Avenida Paulista. Lá você se sente em casa, no meio de todas aquelas pessoas estranhas e distantes e cercado pelo ruído caótico do trânsito que segue apressado e sem destino. Você pensa “hoje não vou exagerar, não vou beber demais e não vou fazer nenhuma besteira”. É aniversário de uma amiga sua e você encontra várias pessoas de quem gosta e de quem sentia muita saudade mas não havia percebido até aquele momento.

Você está se divertindo, comendo e bebendo, contando novidades, ouvindo histórias engraçadas e falando sobre diversos assuntos. Ouve sobre um longo relacionamento que mais uma vez quase acabou por causa de ciúmes, e uma história sobre uma amiga que releva toda as pilantrices e sacanagens do noivo porque pretende casar com ele por dinheiro. Você se sente bem, a noite está agradável e tranquila quando alguém que você não esperava entra no bar e senta ao seu lado. Você gosta dessa pessoa. Se apaixonou por ela desde o dia em que se conheceram, mas, como ela não sentia o mesmo por você, acabaram se tornando apenas amigos e você aceitou isso como alguém aceita um prêmio de consolação. Passado um tempo, devido a sua natureza teimosa e turbulenta e motivado por uma série de eventos que o deixaram mais confiante e menos apegado, você declarou a ela seus sentimentos, de uma maneira descarada e casual e, como já era esperado, não foi correspondido. Você levou isso numa boa mas percebeu que algo dentro de você mudou e acabou esquecendo a coisa toda.

Você conversa com ela displicentemente e finge que a presença dessa garota não afeta cada molécula do seu corpo. Você fica nervoso, acende um cigarro, pede mais um chopp e faz mais um rasgo na bolacha de papelão embaixo do seu copo para não perder a conta de quantos já tomou. Ela levanta para ir ao banheiro e você a observa se afastando, seus quadris balançando e seu cabelo castanho e liso ondulando como numa propaganda exageradamente produzida de condicionador. Quando ela volta, senta numa cadeira afastada da sua e você se sente um merda depois de perceber a cara triste que fez ao ver isso acontecer. Olha para seu copo vazio. Pede mais um chopp e faz mais um rasgo na bolacha encharcada embaixo do seu copo. Volta a conversar com seus amigos, esquece um pouco que ela está lá e volta a se divertir. Ela senta novamente perto de você. Seu amigo levanta para ir embora e convida todo mundo para ir ao forró. Você odeia forró. Não gosta do público que frequenta um forró, não gosta da música e definitivamente não sabe dançar. Ela diz que vai e te convida para ir também. Você, que é uma pessoa não muito estúpida e bastante sincera, diz a ela que odeia forró, que não gosta da música e que não sabe dançar. Ela diz que está fazendo aula de dança e que gostaria de ir. Diz “Vamos bailar?”. Você pede mais um chopp, faz o oitavo rasgo no círculo de papelão e começa a considerar a possibilidade de ir a um baile de forró.

Meia hora depois seu amigo liga, dizendo que vai passar no bar para pegar as garotas e todos irem ao forró. Pede para você avisá-las Você passa o recado e ela insiste que você vá. Você então assume sua atitude sincera e brutal e diz a ela que só iria num forró se ela fosse. Ela não entende – ou finge não entender- e você deixa sua intenção ainda mais clara. Diz que só iria com ela se fosse para beijá-la no meio do salão. Ela ri, fica acanhada e fala seu nome de um modo carinhoso. Aquele modo que você sabe que ela só fala quando está sendo educada o bastante para não te dar um fora explícito. Você não liga. Pergunta porque ela não acredita que você realmente gosta dela. Ela diz que sabe bem o que você quer, que você gosta dela do jeito que gosta de todas as outras de quem você sempre falou. Você decide apostar tudo e conta que já chorou por causa dela duas vezes. É mentira, foram no mínimo quatro. Conta que quando ela vai embora você termina a noite com o coração partido. Ela diz, rindo de um modo diferente e mais reservado, que seu coração é enorme e tem lugar para todas as garotas com quem você sai. Você diz que ela não te conhece e pensa, mas não diz, que seu coração é vazio e está ali, frio e cinzento, só esperando por ela. Percebe então, pela primeira vez, como tem receio de se envolver com alguém novamente. Você está lá, atrapalhado com esse pensamento novo quando ela te abraça forte e fica abraçada durante um longo tempo e você pensa que o momento do beijo está se aproximando. Ela se afasta e te olha de uma maneira terna e amorosa. Você pergunta porque ela não acredita que você está falando sério e ela diz, com um olhar distante, que agora está começando a acreditar e te dá um beijo no rosto, um beijo demorado, daqueles que você sabe que quando terminam, vêm seguido por um beijo na boca. Você vê uma garota sentada em outra mesa assistindo a tudo e a encara. Ela te encara de volta com um olhar firme e você questiona a sinceridade dos seus sentimentos. O beijo no rosto termina, o beijo na boca não acontece. Ela pergunta se você não quer mesmo ir ao forró. Você diz que ela sabe porque você iria. Ela ri e diz que quer que você vá para dançar com ela. Você a lembra que não sabe dançar e ela diz que vai te ensinar. Você diz que não quer ir só para dançar e ela diz que está chamando você para dançar. Você pensa e diz que não, pois sabe que vai novamente terminar a noite com o coração partido. Ela dá de ombros, se despede e vai embora.

Seu celular toca e um amigo o convida para ir à uma casa noturna chamada Inferno. Fica perto do bar onde você está e você decide que precisa se distrair depois de toda essa confusão. Pede mais um chopp, faz mais um rasgo no papelão, fuma mais um cigarro, paga a conta e segue rumo ao Inferno.

Você desce a rua Bela Cintra em direção à rua Augusta com uma sensação estranha apertando seu peito. Um sentimento de vazio, como se tivesse desperdiçado uma oportunidade. Enquanto passa pelos puteiros dizendo “não, obrigado” a todos os porteiros que te convidam para entrar e conhecer a casa, você repassa mentalmente os diálogos que teve com ela. Tenta achar algum sentido em suas palavras. Alguma mensagem subliminar, alguma intenção disfarçada. Ela disse que queria apenas dançar, mas ao mesmo tempo disse que começava a acreditar que você realmente estava falando sério. E você estava! Você tenta chegar a alguma conclusão clara do que aconteceu. O longo abraço, o beijo demorado no rosto, o olhar distante. Você lembra da garota sentada na outra mesa olhando para você e reflete se naquele momento você não se distraiu e perdeu a chance de beijá-la, mas afasta esse pensamento, tentando ficar concentrado na busca de alguma revelação que possa surgir de todos esses acontecimentos.

Você pára na esquina da rua Augusta e fica pensando nisso quando ouve alguém chamar seu nome, olha em volta e não vê ninguém. Ouve novamente, agora mais nítido, mas não vê ninguém conhecido e começa a descer a rua. Passa por prostitutas, bêbados, mendigos, hordas de emos sentados na calçada, até que chega à porta do Inferno, onde a fila é enorme e não parece se mexer. Acende um cigarro e pensa que ela deve estar dançando com alguém nesse exato momento. Um mendigo pára na sua frente e começa a explicar que está passando por um momento de dificuldade e pergunta se você não tem um trocado para ajudá-lo a comprar uma bebida. Você pensa que todos têm problemas para resolver. Todos estão passando por algum tipo de dificuldade. Diz que não tem nada e o mendigo vai embora, agradecendo sinceramente pela sua atenção. Você então é arrebatado por uma súbita onda da cansaço e pensa que nenhuma droga criada pelo homem ou pela natureza é mais entorpecente do que um coração confuso. Liga para seu amigo que está no Inferno e diz que vai para casa porque a fila está muito grande e você está cansado, e então sobe a rua com passos rápidos e determinados a chegar até seu carro, que está num estacionamento atrás do Conjunto Nacional, e ir o mais rápido possível até o forró.

No caminho, antecipando como será o momento em que você vai encontrá-la, pensa que esse gesto impulsivo e sincero é uma prova concreta dos seus sentimentos por ela. Você está confiante. Acende um cigarro e dirige rápido pela avenida Rebouças até entrar na Faria Lima. Faz o retorno e pára o carro no estacionamento ao lado do lugar chamado Grito da Ema. Os nomes dos lugares, você pensa, estão cada vez mais estranhos.

Dentro da casa você se depara com um grande salão lotado de gente e percebe que não pensou em como faria para encontrá-la ali dentro. Sente um princípio de desespero ao pensar na possibilidade de passar a noite inteira perambulando sem conseguir encontrá-la. Até que ela surge na sua frente. De início ela não o vê e você caminha em sua direção. Seus olhos cruzam com os dela e ela abre um sorriso enorme. Você a abraça e diz em seu ouvido “agora você acredita em mim?”. Ela diz que sim, rindo e te puxando para fora do salão. Você encontra seu amigo, que te lança um olhar de cumplicidade e diz “sabia que você viria”. Você responde que existem apenas duas coisas nesse mundo que fazem um homem percorrer grandes distâncias: mulher e dinheiro. Ele concorda e te entrega uma cerveja. Todos fumam cigarros e bebem cervejas e voltam para dentro do salão. Ela puxa você para um canto e diz que vai te ensinar a dançar. Te mostra como é fácil, que são só dois passos pra lá, dois passos pra cá. Você acha fácil e começa a dançar. Não é fácil. Você se sente estúpido e descoordenado. Tenta se convencer de que ninguém está olhando, mesmo percebendo que sim, algumas pessoas estão prestando atenção em vocês dois. Mas você se concentra no lado bom da coisa: seu rosto mergulhado nos cabelos dela, aquele perfume maravilhoso invadindo seus pulmões, o corpo dela colado ao seu, as coxas dela se esfregando nas suas enquanto ela rebola com o ritmo da música. Você pensa que aquilo tudo está valendo a pena. Depois de algumas músicas ela pára de dançar e toma mais uma cerveja. Você compra outra cerveja e sai para fumar outro cigarro. Percebe que, apesar haver outras mulheres, seu interesse está focado e elas passam despercebidas. Você volta para o salão e ela está dançando com seu amigo. Ele dança muito bem e você se sente inadequado, fora do seu lugar. O sentimento de confiança que você tinha até agora começa a se dissipar vagarosamente.

Ela vê que você voltou e te puxa para dançar. Diz que você aprende muito rápido, que está sabendo “conduzir a parceira direitinho”. Você se empolga novamente e diz que só ela mesmo para fazer você dançar forró. Ela diz que existe um momento na dança onde você pode fazer o que quiser com ela. Você se anima e pergunta maliciosamente “o que eu quiser?” e ela responde que sim, que você pode girá-la ou puxá-la de volta, mudar a direção dos passos e tudo mais. Você diz que isso não tem graça e que se for para fazer o que quiser com ela, prefere beijá-la. Ela ri e dá tapinhas de leve nas suas costas. Você pára de dançar e a encara. Conta pra ela, olhando profundamente em seus olhos, como se sentiu mal quando ela foi embora. Como subiu a rua Augusta praticamente correndo para pegar o carro e ir encontrá-la. Como aquele era o tipo de lugar que você nunca iria, se não fosse para estar com ela. E diz como odeia dançar, mas que vale a pena passar por isso só para poder ficar abraçado com ela, sentindo seu perfume e o calor do seu corpo. Ela sorri aquele sorriso que você não queria ver e dá tapinhas de leve no seu peito. E diz no seu ouvido “eu te falei que queria que você viesse aqui pra dançar comigo. Só pra dançar.” com aquele tom de quem se absolve de alguma acusação criminosa. Você a abraça e diz que não está cobrando nada, mas que precisava falar aquilo, e sente como se uma faca gelada tivesse atravessado seu corpo. Seu amigo chega animado e puxa os dois para dançar. Não tem idéia do que está acontecendo. Você fica mais uns vinte minutos. Não quer parecer dramático demais e ir embora antes de todos, mas se sente destruído. Todos a sua volta parecem felizes. E todos parecem dançar muito bem.

Você acompanha ela e seu amigo até o carro dele, pensa em oferecer uma carona a ela mas decide que isso só iria piorar as coisas. Se despede dos dois como se nada tivesse acontecido. Entra no seu carro, dirige até sua casa, entra no seu apartamento, troca de roupa e vai dormir. Acorda no dia seguinte com uma dor de cabeça enorme e uma ressaca moral devastadora. Pensa que deveria ter ido para o Inferno e ficado lá, sem criar ilusões e histórias mirabolantes. Você percebe então que está atrás de uma paixão arrebatadora e fica se agarrando a qualquer sinal mal interpretado, pensando que o momento tão esperado finalmente chegou. Você chega a conclusão de que não adianta forçar, que essas coisas acontecem na hora que devem acontecer e, principalmente, sem qualquer envolvimento ou decisão da nossa parte. Elas acontecem sozinhas e nos arrastam sem pedir permissão. E numa conclusão triste mas tranquilizante você pensa que, enquanto isso não acontece, sempre existirão todas as outras.

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vida besta - 1

Você chega em casa às dez da noite após um dia maldito de trabalho. Entra no banheiro, tira as lentes de contato e quando vai colocar seus óculos, uma das lentes se desprende da armação, cai no chão de azulejo e se espatifa como se fosse um copo de cristal. Cacos de vidro se espalham pelo banheiro, corredor e quarto do apartamento. Você grita "filha da puta", levanta a cabeça, olha para o seu reflexo no espelho e começa a colocar novamente as lentes de contato e uma semana depois fica 500 reais mais pobre por causa de um parafuso de 3 milímitros que estava mal apertado.

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