divertida

Estou na festa de aniversário do Rodrigo, meu amigo de infância e ex-vocalista da minha ex-banda que se chamava SHAMBALLA. É, esse era o nome da banda. Não, não era uma banda de axé. Tocávamos rock and roll, adorávamos Beatles, entre outras coisas. Mas o nome da banda, que deveria ter sido visto como um sinal claro e flamejante de que aquilo não iria dar certo por muito tempo, é uma outra história, pra ser escrita noutra madrugada.

Cá estou eu, na festa do Rodrigo, que se casou há um ano ou dois, mais ou menos, e estou lhe dando os parabéns pelo seu aniversário e pela notícia de que ele vai ser pai. Fico feliz por ele. Quem conheceu o Rodrigo sempre soube que ele teria uma história mais ou menos asim. Bem-sucedido, casado, apaixonado e, agora, prestes a ser pai pela primeira vez. Dos que fizeram parte da banda, ele é um dos que se saíram bem.

Estas festas são nostálgicas. E eu adoro nostalgia. Encontro amigos que não vejo há anos e ouço histórias das quais havia me esquecido completamente. Ouço histórias repetidas, que já ouvi trinta vezes, e mesmo assim, literalmente choro de rir. Me lembram bons tempos e bons amigos.

Estou distraído, comendo um pedaço de sanduíche de provolone com salame e tomate seco, quando chega a mãe do Scappini, outro amigo meu de infância. A mãe dele é a Marilena. Ela acena de longe e me chama, com um sorriso no rosto. Vou até ela ainda mastigando, dou um beijo em seu rosto e pergunto, tampando a boca com a mão, como ela está. Ela não responde. Ainda sorrindo, mas agora de uma maneira, percebo, um tanto marota - essa é a palavra exata aqui: marota - enfia a mão no bolso e tira um pedaço de papel retangular, dobrado ao meio. Me entrega e diz "Olha aqui, pega", e me dá o papel como se fosse segredo.

Eu pego o papel. Ela continua: "Olha Mandruca...".

Abro o papel. Está escrito "Eliana", telefone tal e tal, com uma letra caprichada, de aluna de colégio particular. Letra de mão. O L garrafal, o pingo do i redondinho, um círculo quase fechado inteiro. Fico olhando para o papel.

"Essa menina, Mandruca, - ela continua – é um barato. Ela é farmacêutica e isso e aquilo, mora perto da sua casa. Eu alugo meu apartamento pra ela e ela é um amor. Eu estava falando com ela e ela disse como é difícil, e é mesmo, né?, hoje em dia, conhecer um rapaz le-gal."

Ela fala assim às vezes, meio espaçado.

"Aí Mandru-ca, eu disse pra ela, ah, tem um amigo do meu filho que eu que-ria te apresentar. E e essa moça é assim igual você, Mandruca, di-ver-ti-da!"

A mordida que eu dei no sanduiche ainda está na minha boca. Fiquei olhando pro pedaço de papel e parei de mastigar. Por isso, quando eu pergunto, da maneira mais canalha que consigo, se ela é bonita, falo com a boca cheia, colocando a mão em frente ao rosto pra impedir que um pedaço de tomate seco voe na Marilena. A Marilena é um amor. Conheço ela desde que conheço o Scappini, e isso faz mais de 25 anos. Ela responde:

"Ela é ótima. Super inteligente, boazinha, moça de família, bonita, é honesta, sempre paga o aluguel direitinho. E é independente, trabalha, mora sozinha, ali perto da sua casa."

Todo mundo sabe o que significa quando a gente pergunta se fulana é bonita e a resposta é loooonga e cheia de outros detalhes que não tinham sido perguntados. Relevo essa pista e pergunto como uma moça tão direita e independente simplesmente deu seu telefone pra ela, esperando que um desconhecido ligasse convidando-a para sair. “Ela está desesperada?”, pergunto. Acho que essa minha atitude estúpida não passa de uma forma de querer parecer à vontade com o que está acontecendo.

“Ela é ótima, Mandruca”. – continua -. “Falei de você pra ela. Contei que você também mora sozinho, trabalha, que é legal. Ela é muito parecida com você. E e di-ver-ti-da. Vale a pena, viu?. Liga pra ela. Liga mesmo”.

Nunca me senti tão... solteiro. De repente existem pessoas se esforçando para me apresentar garotas. Mães de amigos fazendo propaganda minha para desconhecidas. Deve ser assim que a Marilena me vê. O amigo solteiro do filho casado dela. “Coitado. Tão legal, tão inteligente, divertido, di-ver-ti-do, mas solteiro”.

Uma senhora está sentada na mesa ao lado de onde estamos, assistindo tudo, com uma expressão de divertimento no rosto. A Marilena percebe o olhar e diz: “É que eu estou louca pra arrumar uma esposa pro Mandruca, ele é amigo do meu filho”. Dou um sorriso amarelo e sem graça, desses que fazem a cara da gente encolher, e ela sorri de volta, balançando a cabeça em sinal de aprovação, se divertindo às minhas custas.

Nunca me senti tão... solteiro. Solteirão.

Agradeço a Marilena e prometo que vou telefonar para a Eliana. Guardo o papel na carteira, pego uma cerveja e e saio do salão de festas para fumar um cigarro. Encontro o Scappini e conto o que a mãe dele acabou de fazer e pergunto se ele sabia disso. “É claro” – ele responde – “Ela veio o caminho inteiro me falando dessa merda”. Maldito. Nem pra me avisar.

Passo o resto da noite reparando nos meus amigos, a maioria casados ou acompanhados pelas namoradas. Alguns já tem cabelos brancos e vão às festas usando calças sociais e camisas de manga curta. As mulheres já com cara de mães de família, reclamando do cansaço, os peitos caídos e os cabelos tingidos.

/ dia 12.6.07 / 12 Comentários