Combinei de encontrar com a Carla no Pirajá e pra variar cheguei 20 minutos atrasado. Estacionei atrás do Habib’s e quando desci do carro surgiu um flanelinha que já começava sua ladainha de “posso tomar conta senhor”, que foi interrompida pelo meu sorriso de sou um cara legal e vou te dar algum dinheiro se você não riscar meu carro, seu folgado de merda.
Procuro pela mesa onde Carla está sentada enquanto penso em várias desculpas aceitáveis que posso despejar em cima dela e ainda assim me sair bem na história toda. O bar está lotado e sou obrigado a dar passos minúsculos para passar espremido no meio da multidão. Ao mesmo tempo em que procuro pela mesa, faço um levantamento mental de todas as pessoas que estão no lugar — basicamente das mulheres. — É sempre assim quando chego em algum lugar. E não precisa ser num bar ou numa festa. Faço isso em todo lugar que vou. Pode ser no mercado, na padaria, no hospital, numa fila de banco, num ônibus ou no metrô. Já é instintivo. O que acontece é que eu adoro a caça. Adoro escolher uma mulher e ficar observando, vendo se vale à pena me aproximar, se há interesse. Sou capaz de ficar horas assim, sondando, escolhendo, caçando.
Sou viciado em observar as pessoas. Trejeitos, costumes, maneira de se vestir, de carregar uma sacola ou uma mochila, de fumar um cigarro ou beber uma cerveja, como se encostam numa parede, como se apóiam na mesa ou se seguram nas barras dentro do ônibus ou do metrô, como lêem um livro ou um jornal, como reagem à outras pessoas. Mas o que eu mais gosto de observar nas pessoas, o que mais sustenta esse meu vício, são os olhares. Os olhos entregam tudo. É como ler uma ficha detalhada sobre alguém. Os olhos deixam vazar a alma. Pelo menos para mim.
Eu tenho essa capacidade de saber como uma pessoa é, sua personalidade, seu caráter, sua essência, na primeira olhada que dou nela. Basta observar os olhos por alguns segundos e pronto. Está tudo ali, nítido, despido, revelado, sem qualquer proteção. E não tem erro. Sempre acerto em cheio. Me disseram que eu tenho “o dom de ler a essência das pessoas”. Disseram também que o nível mais alto dessa percepção permite ver até as vidas passadas de alguém com apenas um olhar. Soou como uma maldição. O que eu tenho, essa minha percepção, está na medida certa. Que as vidas passadas fiquem para trás.
Continuo tentando localizar Carla e cruzo com uma morena gostosa de uns trinta anos que deve adorar dar de quatro e olhar para trás fazendo uma cara de vadia e pedindo mais forte e depois com uma loira linda e bem vestida que não deve beijar nem chupar muito bem, mas tem um ótimo coração e poderia ser a melhor amiga de muita gente. Passo por uma mesa só com mulheres e me imagino trepando com todas ao mesmo tempo, depois percebo que elas são meio feias e tiro a idéia da cabeça. Cruzo com uma garota de uns 19 anos, cabelos pretos e curtos, vestindo uma camiseta regata preta e com uma tatuagem de orquídea no ombro e seus olhos verdes cruzam com os meus e sinto um arrepio porque ela sustenta o olhar e dá um sorriso meio malicioso, mas não olha para trás quando eu olho e cruza com dois caras que vestem camisas floridas e jeans e usam gel no cabelo e colarzinho estilo Luciano Huck e também olham para trás quando ela passa e eu penso que vadia e volto a procurar pela Carla, que reconheço com muita dificuldade sentada numa das últimas mesas do lado de fora do bar com uma lata de Coca-Cola decepcionante colocada ao lado de um copo com gelo e limão vazio e penso “que droga, a noite não vai ser como eu tinha imaginado”.
Carla observa com um olhar decepcionado o movimento dos carros que passam pela rua e não me vê chegando, o que é bom porque não vê minha expressão decepcionada quando a vejo pela primeira vez. Olho uma segunda vez, só para confirmar o que meus instintos já denunciaram logo de cara: essa noite vai ser inundada por uma torrente de monotonia e tédio absoluto.
Ela está usando uma blusa bege nada sedutora, com uns babados estranhos na frente. Os cabelos pretos e levemente ondulados estão presos para trás num penteado muito sem graça. Tem a pele morena, usa batom vermelho vivo e uns brincos enormes do tipo que enrosca no cabelo ou cutuca o olho quando a gente tenta morder a orelha ou beijar o pescoço. Pra piorar tudo, — sempre pode piorar um pouco mais — sua postura é de quem já se sente derrotada. Juro que se ela estivesse sentada com uma cara de quem está puta da vida comigo eu teria ficado mais empolgado.
Mesmo assim ainda tento cultivar uma esperança patética de que as coisas podem melhorar e me endireito, chacoalho a cabeça para clarear as idéias e me aproximo da mesa com um sorriso no rosto.
— Não causa uma boa impressão chegar atrasado no primeiro encontro, né? — digo, fazendo cara de quem está esperando uma bronca.
Ela olha pra mim e sorri instantaneamente.
— Imagina. O que aconteceu?
Droga. Que fraca. Podia ter falado “eu já estava indo embora” ou “tive que dispensar três caras que quiseram sentar aqui comigo”.
— Tive um problema com o carro. — digo, percebendo que podia ter falado qualquer coisa.
— Isso acontece. — diz, e depois, com um olhar sinceramente preocupado. — Mas está tudo bem?
— Está. Tudo bem. — sento na cadeira em frente à dela e faço um sinal para o garçom. Peço uma cerveja Sol com limão e depois me arrependo porque não quero ficar com gosto de limão na boca.
Começamos uma conversa tediosa e premeditada, primeiro falando da noite em que nos conhecemos. Dou uma risada e digo que estava realmente bêbado. Ela diz que não bebe. Depois começa com o questionário padrão de o que você faz e onde mora e gosta disso e não gosta daquilo. Isso só piora a situação. Me diz que é advogada e que trabalha numa repartição pública no centro da cidade e que odeia o trabalho, mas que pelo menos ganha bem. Conta que levou um murro na boca quando estava no trem, indo para o trabalho e que a briga começou ao lado dela e sobrou um soco no ar que foi aterrisar bem na sua cara. Me mostra o machucado na bochecha. Não sinto pena. Até tento. Pergunto onde mora e ela diz algum lugar do qual nunca ouvi falar, na puta que pariu da zona leste — também conhecida como “no man’s land” — e digo que as obras do Aerotrem são as ruínas de Pittan Camon, mas ela não entende. Começa a me contar sobre sua vida, mas eu não estou mais ouvindo, não assimilo mais as informações. Estou decepcionado. Com ela. Comigo.
Carla me conta seus planos para o futuro e eu repito na minha cabeça — Não adianta insistir. Eu já sei que não vai dar em nada. Pra que teimar? Lutar contra o inevitável? — Eu deveria ter ficado em casa, alugado um filme e dormido no sofá.
Uma hora de conversa fiada e cinco cervejas pra mim e mais uma Coca pra ela. Estou olhando dentro dos seus olhos. Ela olhando pra mim com uma expressão de apaixonada, a cabeça caída para um lado de forma débil, um sorriso tímido nos lábios. Digo vem até aqui e ela fala vem você e eu brocho quase que completamente e por pouco não me levanto e vou embora.
— Vem aqui. — repito. Então ela arrasta a cadeira pra perto de mim até encostar seu ombro no meu. Eu queria que tivesse levantado, andado até onde estou e me beijado ainda em pé. Em vez disso fica ali parada, olhando com aquela expressão pateta estampada na cara.
Ela não é feia. Na verdade é quase bonita. Só é desprovida de personalidade. É vazia, comum, regular, tamanho único, modelo padrão, edição ilimitada, linha de produção. Não temos nada em comum. O que está acontecendo agora não vai dar em nada, não tem futuro. Eu já sei que ela não é o quem estou procurando. Mesmo assim, endireito o corpo e lhe dou um beijo caprichado. Uma das mãos embrenhada nos seus cabelos que eu agilmente soltei e a outra acariciando suas costas e sua cintura. Minha língua trabalhando graciosamente dentro de sua boca, os lábios úmidos se esfregando, mordidas suaves, beijos no pescoço, o brinco enorme cutucando meu olho, a respiração ofegante. Carla dá um gemido fraco, depois outro mais alto, mais agudo, e me afasta bruscamente, suspirando.
— Que foi? — digo, com um sorriso sacana.
— Nada.
— Não, pode falar. Eu fiz alguma coisa? Peguei pesado?
Ela dá um sorriso, me olha ofegante e balança a cabeça. — Não, não é isso. É besteira, deixa pra lá.
—Tá bom — digo, enquanto me aproximo para uma nova investida.
Capricho ainda mais no segundo beijo. Isso é uma coisa engraçada. Não importa o quanto eu estou decepcionado ou como não tenho interesse nenhum em conquistar essa mulher, a hora do beijo é sagrada. Tenho que dar o melhor de mim. Me empenhar mesmo. Sei lá, é uma questão de honra. Ela pode me achar o maior canalha do mundo, mas nunca vai poder reclamar do meu beijo.
Carla solta um gemido grave, gutural, e me afasta novamente.
— Tá bom. — digo. — Pode falar.
Ela está com a cabeça baixa, não sei se de vergonha ou de tesão. Olha pra mim, inclina o rosto para um lado e diz:
— É que seu beijo é tão...especial.
— Especial?
— É.
— Especial. Especial como? — Lembro da propaganda da Sadia. Especial é com eeeeee. Malditos publicitários. A noite está ficando cada vez pior.
— Ah, é bom. É bom até demais. — dá uma risadinha tímida.
— Obrigado. — digo com falsa modéstia e um sorriso amarelo. — Então deixa eu continuar te beijando.
— Não.
— Não? Por quê?
— Porque eu...perco a cabeça.
— Mas isso é bom, não é? — Já estou ficando puto.
— É, mas é muito cedo.
— Cedo pra quê?
— Pra perder a cabeça. A gente nem se conhece direito.
Passo delicadamente os dedos na barriga dela, logo acima da cintura da calça. Ela fecha os olhos e suspira alto. Parece que estou tentando seduzir uma virgem. Qualquer toque faz ela tremer. Tento beijá-la mais uma vez, mas ela me afasta e dá um sorrisinho idiota.
— Vamos conversar mais um pouco. — diz.
— Conversar? Sério que você só quer conversar? — estou perdendo a noção. Não costumo falar assim.
— É. A gente podia conversar mais.
— Mais? Sobre o quê?
— Ah, sei lá.
— Tá bom. Que revista você lê? Capricho? — estou chegando ao meu limite.
— Não. Eu gosto de ler a revista Caras. E você?
Pronto. Pirei de vez.
— Eu? Eu vou embora. — digo, tirando minha carteira no bolso de trás da calça.
— O quê? — pergunta, fingindo não ter escutado o que acabei de falar.
— Eu vou embora. — repito, olhando diretamente pra ela, deixando a frase bem clara. Tiro vinte reais da carteira e jogo em cima da mesa. Tiro o maço de Lucky Strike do bolso da minha jaqueta marrom, acendo um cigarro e dou um sorriso.
— Mas por quê você vai embora? — ela pergunta.
— Fica aqui e pensa bem. Tenta descobrir. — Pego a garrafa de cerveja pela metade e me levanto. — Tchau.
Me enfio no mar de gente que cerca as mesas do bar e vou andando rápido, trombando todo mundo. No meio da multidão, me esfrego na bunda da morena de cabelos pretos e tatuagem de orquídea e dou uma baforada quente na sua nuca, trombo com os dois moleques de camisa florida e colarzinho, encaro um deles, que prefere encarar o chão, chego até meu carro, faço gesto de pinto pro flanelinha que vem correndo da outra ponta da rua, saio com o carro deixando para trás um rastro de borracha queimada e jogo a garrafa de cerveja contra o muro do Habib’s. Vou pra casa bater uma punheta pensando em alguma atriz pornô e dormir sem escovar os dentes. Essa noite foi uma perda de tempo.
Ligo o rádio e coloco o primeiro CD que consigo tirar do porta-luvas, ao mesmo tempo em que contorno a Praça Panamericana. My Friend, do Groove Armada, começa a tocar suavemente nos alto-falantes e aos poucos tudo vai se acalmando. Dou um longo trago no cigarro, abaixo todo o vidro do carro e passo sorrindo por um farol vermelho.
A vida é boa novamente.
/ dia 1.11.06 /
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Sexta-feira de manhã e estou deitado em minha cama com os olhos abertos e fixos no teto. Estou na mesma posição desde que acordei, meia hora atrás . A luz do sol tinge as paredes do quarto de amarelo e laranja e iluminam uma cortina de poeira que flutua preguiçosamente no ar.
Enquanto estou deitado, pássaros cantam alegremente lá fora, voando freneticamente entra as árvores e os fios de eletricidade, comemorando o começo de um novo dia.
Pessoas desconhecidas sorriem umas para as outras e dizem bom dia quando se cruzam na porta da padaria sentindo o cheiro revigorante de pão fresco e compram o jornal na banca do outro lado da rua, ansiosas para descobrirem quais as tragédias matinais de hoje.
Homens de meia-idade e esperança zero se enfileiram lado a lado no boteco da esquina e pedem a primeira dose do dia. Caninha 51, Cinar ou Rabo de Galo. Depois, o café da manhã. Um pingado e um pão com manteiga na chapa.
Taxistas empurram seus carros desligados na fila do ponto e voltam a se sentar no banco de madeira improvisado enquanto esperam pelos passageiros da manhã e assistem aos dias se arrastarem em câmera lenta enquanto suas vidas escorrem sarjeta abaixo e suas barrigas aumentam sem que percebam.
Crianças uniformizadas viajam em alta velocidade no banco da frente do carro de seus pais, que dirigem enlouquecidos a caminho da escola para deixarem seus filhos modelos e perfeitos, mesmo que acidentais, recebendo uma educação padrão e incompleta durante seis horas numa instituição que para os pais é ótima e bem recomendada, mas para os filhos é um interminável pesadelo cheio de velhos amargos e desiludidos que não têm mais para onde ir ou o que fazer com suas vidas e por isso passam seus dias ensinando matemática e história e língua portuguesa e geografia de maneira mecânica e repetitiva e descontam toda sua frustração nos pequenos monstrinhos mal criados e esnobes que são obrigados a aturar diariamente em troca de um salário miserável que não segura as contas nem até a metade do mês.
Funcionários de bancos conferem o dinheiro no caixa e se preparam para agüentar aquele bando de gente impaciente e mal educada que quer tudo na hora e acha que estão sempre tentando roubar seu dinheiro.
Operários balançam dentro de ônibus e trens lotados por toda a cidade, culpando o governo por suas vidas miseráveis e trabalhosas e sentindo o orgulho amargo de serem homens honestos e batalhadores, pensando em como seriam suas vidas se fossem milionários.
Adolescentes dirigem a caminho da faculdade em seus carros populares que ganharam de presente dos pais por passarem no vestibular do curso que não tinham certeza se era exatamente aquilo que queriam fazer para o resto de suas vidas mal começadas. A cabeça cheia de planos e sonhos mal traçados e nebulosos, sem uma perspectiva clara do que é realmente a vida e de como as coisas funcionam no mundo.
Aposentados se debruçam no portão da frente de suas casas e pensam no que vão fazer hoje depois que colocarem o lixo pra fora e onde já se viu estacionar o carro em frente suas casas, porque a calçada é pública mas é deles.
Eu ainda não me mexi.
A preguiça tomou conta do meu corpo. Não quero mexer um músculo. Quero ficar aqui o dia inteiro, na mesma posição. Quero pular esse dia. Fazer de conta que nunca existiu. Não tenho nenhum motivo específico para isso, a não ser a preguiça generalizada que se espalhou pelo meu corpo. Não estou deprimido, não estou revoltado, nada. Só estou com uma puta de uma preguiça.
Continuo encarando o teto. Meus braços e pernas estirados no lençol branco e macio da cama de casal. Pensamentos aleatórios bóiam na minha cabeça: “poderia sair com os meus amigos, tomar uma cerveja ou alguma coisa assim...tenho que pegar meu carro na funilaria...está pronto há uma semana e eu ainda não fui buscar...parece que eu não gosto desse carro... Eu não gosto mesmo. Nunca gostei. Não tem personalidade...vou vender esse e comprar o carro que eu sempre quis ter...eu poderia assistir um filme que não vejo há muito tempo...Os Intocáveis...tá aí um filme bom...tenho que passar no estacionamento da Paulista...ver como estão as coisas por lá...largar mão de ser preguiçoso, tomar um café da manhã e pegar o Metrô... reparar nas pessoas, sentir o ar da manhã...aproveitar e passar na Livraria Cultura...tomar um café no Conjunto Nacional e observar executivos frustrados e freaks à deriva perambulando pela avenida”.
Um músculo finalmente se mexe.
E levanto o corpo imitando um vampiro de filme preto e branco e sinto uma leve tontura. Procuro o controle remoto da TV no meio dos lençóis. Encontro o controle, sento na beirada da cama com o rosto há um metro da televisão e a ligo. O som de um tiroteio no último volume explode no quarto e acaba com paz matinal que ainda pairava ao meu redor. Estou prestes a xingar a televisão quando percebo que o filme que está passando é Os Intocáveis. A cena do tiroteio na ponte do Canadá, quando Eliott Ness e seu grupo confrontam mafiosos contrabandeando bebida. Volto até a cabeceira da cama e empilho dois travesseiros e uma almofada para me encostar e assistir. Sean Connery finge que está interrogando um mafioso que Elliot Ness matou no fundo da cabana. O personagem de Connery, Malone, quer impressionar um outro mafioso, que foi capturado e está dando uma de durão. Malone enfia o revólver na boca do mafioso morto e começa a contar até três, depois explode os miolos dele. A bala atravessa a cabeça do cadáver e estilhaça a janela. Ness se espanta. O mafioso grita. Eu vibro. Sorrio para mim mesmo e decido ficar em casa. Peço minha opinião:
- O que você acha?
- Depois dessa? Fica em casa. Aproveita e tira o lixo.
Aumento o volume da TV e me enrolo num lençol.
/ dia 1.11.06 /
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