A lembrança da sua existência ressoa na minha mente. Embriagado, tento colocar em palavras o que me lembro ao seu respeito.
Sua voz sibilante, dizendo “foda-se” despretensiosamente. Sua risada e seu jeito de garota dizendo que não sou certo, que não sou real, e duvidando da minha existência, insistindo nas máscaras inexistentes da minha presença.
Sua despreocupação, atravessando a rua sem olhar, ignorando os perigos eminentes, uma fênix negra dançando a minha frente, zombando da minha seriedade e da minha ingenuidade.
Agora você está longe, desfrutando o descanso merecido e mentiroso, enquanto eu amaldiçôo minha falta de malícia. Queria ter te visto uma vez mais antes da sua partida traiçoeira e duplicada, duas semanas disfarçadas de uma. Sua voz ainda ressoa na minha cabeça. Desvio inesperado de eventos que me tirou do meu caminho planejado e seguro e me obrigou a mergulhar nesse mar de angústia e espera.
Você, vivendo embaixo de coqueiros, cercada por um paraíso de calmaria e uma imensidão de tranqüilidade temporária, enquanto me afogo num mar de incertezas e expectativas infundadas.
Quero partir teu coração. Quero me vingar. Fazer você sofrer e implorar. Quero sentir seu sulco fluindo na minha boca, sua carne tremendo nos meus lábios, seus gemidos ressoando sôfregos no meu ouvido. E te redimir em meus braços, generosos e intensos como você ternamente se lembrava enquaanto estava esticada na tua ilha de ternura e calmaria. Esses dias não são nada.
Não te conheço, mas te quero. Nem que seja por puro egoísmo. Te quero pra mim, eternamente entregue aos meus caprichos. E quero me entregar aos teus. Deliberadamente derrotado diante do teu charme. Te espero, num desespero contido e irracional. Que ninguém perceba, por favor. Que ninguém leia essas palavras, porque meu orgulho não pode aturar tal entrega.
Não te conheço, mas te quero. Conto os dias que restam para você voltar. Para voltar pra mim, abrandando minha angústia, preenchendo meu coração insatisfeito e descolorido. Secando minhas lágrimas.
E eu nem te conheço, mas você supera todas as outras. Invade minha memória com tua voz sacana e teu jeito despretensioso e lindo que me cativou. Com teu olhar esticado, teus olhos felinos e tímidos me olhando de longe, arrancando meu sorriso sincero e me atraindo, hipnotizado.
Te quero, não consigo te esquecer. E nem te conheço.
/ dia 4.9.06 /
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Nunca leia orelhas de livros antes de comprá-los, nunca leia sinopses nas contra-capas dos filmes antes de alugá-los e nunca, nunca ouça as críticas do Rubens Edwald Filho.
/ dia 3.9.06 /
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- Aaaaaaai, cavalo.
- Huuum...obrigado.
- Não foi elogio.
- Ah...
/ dia 3.9.06 /
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Sempre gostei de andar de metrô, principalmente por causa das pessoas. A roleta russa de vidas e histórias entrando e saindo dos vagões é fascinante. Se você fica viajando e reparando em uma ou outra pessoa então, cara, dá pra ficar louco.
“Essa garota pode ser a mulher da minha vida. Vou falar com ela. Não dá. Desceu na estação Sumaré.”
“Esse cara deve ser um psicopata” –algumas pessoas devem pensar isso quando olham pra mim. Tenho cara de cozido mesmo, fazer o que. Já tentei andar com uma expressão menos cisuda mas me senti idiota e desisti.
Gosto de ver mulheres no metrô. Lindas, horríveis, decididas ou totalmente derrotadas. Estão sempre com pressa. Sempre indo pra algum lugar. Apesar da minha cara de cozido, já flagrei uma ou outra olhando pra mim, querendo caçar assunto. Eu faço uma pose, claro, quem não faz? TODO MUNDO faz pose. A diferença é que uns sabem disfarçar melhor que outros. De qualquer maneira, nunca fui falar com nenhuma delas. Nenhuma das garotas do metrô. O máximo que me lembro ter conseguido foi espremer um sorriso falso da minha carranca, e o resultado deve ter sido horrível.
Mas pense bem. O que eu poderia possivelmente dizer para uma garota num vagão do metrô? Claro, se ela estiver lendo um livro ou ouvindo música ou com alguma coisa que possa gerar um assunto fica mais fácil, mas sem isso, as possibilidades são mínimas:
- Oi, você pega sempre o metrô nesse horário?
ou
- Em que estação você desce?
ou a pior de todas:
- Oi, você...[TUUUUUUUUUUU] chegou na estação e ela desceu. A mulher da minha vida dessa semana.
E não venha me dizer que “não precisa falar nada”. Isso funciona em alguns casos, e eventualmente você acaba falando alguma coisa. Mas no metrô é impossível tentar falar com todo aquele ruído ensurdecedor berrando no seu ouvido. E depois de algum tempo “só olhando” tenho quase certeza que a garota acaba ficando assustada e pensa “esse cara deve ser louco.”
Outra coisa que eu adoro no metrô é o barulho ensurdecedor que ele faz quando passa em alta velocidade pelos túneis. É o som do juízo final. Quando o mundo acabar, isso é o que será ouvido no mundo todo. Um ruído crescente e metálico que vai aumentando e ficando mais intenso e inevitável até se transformar num grito demente e ensurdecedor e estridente que vai aumentando e aumentando e chacoalhando tudo e as luzes piscando e cuspindo faíscas e as pessoas gritando e o pavor se espalhando e o metal gritando e raspando raspando e aumentando até que cessa repentinamente...
e só se ouve o TUUUUUUU de aviso da porta se fechando. O mundo começando uma nova viagem e eu e todas as mulheres da minha vida e todo o resto simplesmente vai ter deixado de existir.
/ dia 3.9.06 /
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O ministério da saúde adverte:
Cólera contida causa câncer de estômago, pulmão e garganta, além de gastrite, úlcera e outros males à saúde.
recomendação: Diga “foda-se” regularmente.
/ dia 3.9.06 /
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E bloqueando o caminho entre a mediocridade e o sucesso, existe apenas eu.
Eu, com meus defeitos e minha covardia. Eu. Dizendo que o caminho é realmente difícil e tortuoso. Eu, com minha fraqueza de espírito, segurando um espelho que mostra o reflexo da potencialidade do sucesso, reconhecido claramente quando visto de longe, mas turvo e anuviado quando vislumbrado de perto com uma mínima parcela de coragem. A imagem de concretização se desfaz quando observada de perto. E em seu lugar resta apenas a covardia. Um vulto do que eu poderia ter sido. Do que poderia ter alcançado. Uma imagem envelhecida, como uma foto antiga e desbotada.
Bloqueando o caminho entre tudo o que posso ser e a imensidão de possibilidades que pode se abrir, existe apenas eu.
Eu, com minha visão limitada e meu medo da crítica. Eu, irredutível no meu castelo de falsa perfeição. Eu, cercado por um exército de soldados malditos e armados com lanças envenenadas de motivos e razões. Eu, afundado até o pescoço num pântano movediço de traumas de infância. Eu, escondido atrás de uma cortina de vergonha e receio, observando a uma distância segura o que poderia ser minha vida se eu simplesmente me dedicasse mais. Eu, vagando alienado no espaço, deixando a vida passar diante dos meus olhos enquanto acredito que há tempo para tudo, enquanto os minutos escorrem descontrolados pelos meus dedos flácidos.
No entanto, existe outro eu, no final do caminho, acenando tranqüilamente, com um sorriso fácil estampado no rosto.
Eu, confiante, sóbrio e em paz comigo mesmo.
/ dia 3.9.06 /
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Estou tendo uma verdadeira overdose de Alta Fidelidade.Comprei o livro de Nick Hornby - - que já li uma vez - essa semana e hoje ao chegar em casa eu sabia, antes mesmo de olhar no guia de programação, que o filme estaria passando na TV. Decidi assistir apenas uma parte e acabei vendo o filme até o final. Pela décima quinta vez. Agora estou ouvindo a trilha sonora do filme enquanto escrevo isso.
Não sou nenhum aficionado pelo filme – ou pelo livro ou pela trilha – mas o que acontece é que Alta Fidelidade é simplesmente genial. Ele resume praticamente todos os sentimentos masculinos que dizem respeito a relacionamentos, auto-estima e perspectivas de vida.
Tudo bem. Eu assisti ao filme quinze vezes. Acho que isso me qualifica como aficionado. Mas não é pra menos. Com toda essa invasão de programas como Sex And The City e Desperate Housewifes, onde o homem comum é rotulado como insensível e acomodado, e os únicos que se importam com as mulheres são caras solteiros de meia idade com corpo atlético e pinta de galã, um filme como Alta Fidelidade trás um sentimento reconfortante de realidade.
O personagem principal, Rob, é um cara de 35 anos, rabugento, amargo e até meio cruel. Ele é dono de uma loja de discos chamada Championchip Vinyl, que não vê muitos clientes. Ele não tem dinheiro e também não tem muitos amigos. Fuma compulsivamente e é viciado em música pop. Mesmo assim ele não deixa de ser um cara legal. Tem um ótimo gosto musical e um senso de humor sarcástico e ao mesmo tempo divertido. Devo confessar que me identifico com ele em vários aspectos.
O que me atrai tanto nesse filme [e no livro] é que eu sei que todo homem passa pela mesma crise que Rob. Todo homem já se sentiu rejeitado, mal amado, sozinho, melancólico e miserável. E Rob encara todos esses sentimentos de frente e disseca e enfrenta cada um deles até a última gota de cólera e suor.
Ele enfrenta as inseguranças e desaprovações de sua mãe e se sente aterrorizado pelo comodismo e apatia de seu pai. Lida com suas incertezas e com o sentimento de que, se um dia decidir sossegar o rabo e se casar, vai perder a chance de conhecer a próxima grande mulher da sua vida. Sofre quando é trocado por outro como se fosse um pano de pia que já não retém a sujeira tão bem como antigamente. Ele sente a agonia de perceber que estamos fadados a pular de um relacionamento a outro e que tudo isso é um ciclo interminável de fantasias juvenis mal resolvidas que nunca, nunca mesmo, irão se realizar.
E isso sim é ser homem.
Tem um cara no ônibus que eu pego que é patético. Ele senta sempre no mesmo lugar e todos os dias coloca o walkman e fica olhando para todas as mulheres que entram no ônibus e então escolhe uma que considera bonita –o que nem sempre é o caso– e se oferece para segurar sua bolsa ou sacola ou mochila. Claro que a mulher aceita e ele fica lá, segurando as coisas dela e ouvindo música e olhando com o canto dos olhos como se fosse um cachorrinho que fica sentado ao lado da mesa esperando ganhar um osso ou um resto mastigado de carne. É realmente patético. O que será que ele espera? Conhecer a mulher da vida dele no ônibus porque se ofereceu pra segurar sua bolsa? Não estou dizendo que esse tipo de coisa não acontece. Já conheci uma garota na fila do raio-x do hospital do Servidor Público. E foi lindo. Ela era linda. E anotou seu telefone no meu braço engessado num ponto que eu não conseguia enxergar e tive que telefonar pra ela em frente ao espelho de casa. Coisas assim acontecem. Não com a freqüência que deveriam, mas acontecem.
A questão é que homens estão sempre, incondicionalmente, procurando. Nós vivemos para esse tipo de coisa. Eu mesmo caço assunto no ônibus [e no metrô e na rua e no hospital e nos meus sonhos mais monótonos] e alimento constantemente a fantasia de conhecer alguém de uma forma inusitada. Homens são assim.
E quando sofremos alguma desilusão ou traição ou rejeição, nós sofremos. De verdade. E aí enchemos a cara e entramos numa temporada de caça ainda mais enfurecida e intensa para tentarmos compensar esses sentimentos que destroem a gente por dentro. E depois bebemos um pouco mais.
A possibilidade de conhecer uma pessoa nova e interessante sempre está pairando no ar e é aterrorizante pensar que um dia não teremos mais isso. Que um dia teremos que desistir, sossegar, se comportar. Mas, competindo com isso, existe a idéia de conhecer aquela mulher que vai fazer todas as fantasias passarem despercebidas. Rob encontrou isso. Eu não.
Ainda.
/ dia 3.9.06 /
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