instantes de jorge luiz borges

Prometi a mim mesmo não colocar textos de outros autores neste site, já que a proposta aqui não é ficar postando conteúdo diversificado pra gerar page views. Mas, escrevendo o texto abaixo [2005 e grandes expectativas], não pude deixar de lembrar de Jorge Luiz Borges.

A sensação que temos no ano novo é sempre a mesma: começar uma vida nova. Deixar todos os erros para trás e, por mais chavão que seja, começar de novo. Tudo isso sabendo que o ano é novo mas a vida é a mesma, e que essa zerada de placar acontece só na nossa cabeça e, talvez, no plano espiritual/astral/cósmico.

Movido por essa sensação de “format c:/”, lembrei de “Instantes”, do escritor argentino Jorge Luiz Borges. E comecei a chorar.

Soa piegas pra cacete, mas o que acontece é que sempre que leio esse texto eu choro e choro e choro feito um desgraçado, soluçando e rindo ao mesmo tempo. Soluçando de emoção e rindo da situação, porque eu já conheço cada palavra decor e mesmo assim, basta ler a primeira linha que começo a chorar incontrolavelmente e demora mais ou menos meia hora até eu conseguir parar. Basta pensar numa frase que já me dá um nó na garganta.

Não sei explicar porque isso acontece. Mesmo. É um texto maravilhoso, sem dúvida, mas a reação que essas palavras causam em mim sempre será um mistério. Quando leio esse texto, não sinto tristeza. As palavras parecem tocar minha alma, exorcizando demônios que vivem adormecidos dentro de mim. E depois de todo o choro, me sinto purificado.

Se um dia eu for capaz de escrever algo que cause uma reação tão incontrolável e avassaladora em alguém, como essas palavras causam em mim, poderei morrer feliz.

Ainda estou chorando. É difícil enxergar o monitor com os olhos cheios de lágrimas e respirar com o nariz entupido.

Sem mais, deixo aqui as palavras de Jorge Luiz Borges.


Instantes

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito... relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido,
na verdade bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.

Correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvete e menos lentilha,
teria mais problemas reais e
menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu
sensata e produtivamente cada minuto da vida;
claro que tive momentos de alegria.

Mas, se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida,
só de momentos, não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma
sem um termômetro e uma bolsa de água quente,
um guarda-chuva e um pára-quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a
andar descalço no começo da primavera e
continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e
brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo...


/ dia 31.12.04 / 0 Comentários

2005 e grandes expectativas

Quinta-feira, dez da noite e estou aqui curtindo meu penúltimo dia de 2004 em São Paulo. Boa parte da vizinhança já foi viajar, todos os meus amigos também. Eu vou amanhã. Hoje queria sair pra uma balada desenfreada, regada à música tecno, cerveja e cigarro, mas acabei ficando em casa por falta de turma.

No e-mail, dezenas de mensagens melosas desejando um feliz ano novo e um ótimo 2005 cheio de realizações e blá blá blá. Não li nenhuma delas com atenção. Porque a maioria das pessoas que me enviaram essas mensagens não fala comigo há muito tempo. Teve um cara que eu até esqueci que existia e que me mandou uma mensagem desejando sinceramente que eu e minha família fossemos felizes no ano que vai nascer. Argh. Mensagens de fim de ano via Orkut. Um mal que eu não vi chegando. Mas tudo bem. No fundo no fundo, bem lá no fundo, virando à esquerda e seguindo em frente, existe uma pontinha de sinceridade nessas mensagens.

Por outro lado, recebi de peito aberto os votos de felicidades e grandes realizações vindos dos meus amigos e amigas com quem mantenho contato e que escreveram ou ligaram ou que fizeram pessoalmente e de todo coração esse discurso loopado.

E para essas pessoas desejo que, aproveitando o início de um novo ano, repensem suas vidas, mudem o que não as satisfazem e insistam naquilo que as completam. Que aqueles planos e projetos que permaneceram adormecidos ou abandonados, por falta de tempo ou recurso, reapareçam definitivos e revigorados e acabem se concretizando. Que aproveitem a zerada do cronômetro para olharem para suas próprias vidas de uma perspectiva diferente, pois alegria e tristeza sempre estão lá. É tudo uma questão de ponto de vista.

Que amores esquecidos ressurjam ou desapareçam para sempre. Que novos amores em potencial sejam vislumbrados a cada esquina, mesmo que durem apenas alguns segundos, pois até paixões-relâmpagos devem ser vividas. Que amores duradouros se consolidem ainda mais e se provem irredutíveis e inquestionáveis.

Que todos aprendam a viajar mais leve, cometer mais erros e levar menos coisas a sério, como escreveu Jorge Luiz Borges.

E se nada disso acontecer... bom, sempre há o ano seguinte.


/ dia 30.12.04 / 0 Comentários

beatnick dreams

Esta noite sonhei que era um beatnick. Vestia calças jeans desbotadas e camiseta branca de algodão e dirigia enlouquecidamente um cadilac branco e azul por intermináveis estradas de terra que cortavam o país enquanto conversava sobre o mundo e as pessoas e porque as coisas acontecem, debruçado sobre o volante e com um cigarro pela metade pendurado entre os lábios. Conhecia gente nova a cada parada e à noite saía com os amigos para curtir diversos bares e ouvir jazz e bop e aproveitar cada momento de uma existência louca e sem destino, extraindo a essência da vida até sua última gota e pedindo mais e mais até atingir um ápice inimaginável de prazer e satisfação de estar vivo.

Acordei atrasado, corri atrás do ônibus até o ponto e segui em frente, esmagado numa maçaroca de gente até a Avenida Paulista para mais um dia de trabalho.

/ dia 22.12.04 / 0 Comentários