lar doce lar

Eu aqui, dentro do meu lar recém conquistado, cercado pelas regalias de uma vida moderna, enquanto do lado de fora só vejo pobreza e sofrimento.

Eu aqui, vivendo a vida com a qual sonhei desde os 15 anos, quando meu anseio por conquistar o que era meu finalmente começou a se manifestar, e lá fora só existem esperanças despedaçadas e sonhos abandonados.

Aqui eu vivo feliz e satisfeito, amparado pelos meus bens materiais que consegui com muito ou pouco esforço. Vivo feliz, cercado pela emoção do meu DVD, o entretenimento da minha TV, minha conexão rápida, meu microondas infalível e minha fiel geladeira.

E enquanto isso, do lado de fora, só vejo casas despedaçadas, crianças mal alimentadas que correm felizes, ainda inconscientes da opressão e do desespero que vão ser obrigados a encarar daqui algum tempo.

No ponto de ônibus fico lado a lado com aquele bando de gente que vai levando suas vidinhas medíocres e sem propósito. Que seguem religiosamente cada capítulo de suas novelas, que culpam o governo pelos seus futuros inevitavelmente trágicos e miseráveis. Essas pessoas que desistiram de tentar. Esse povo conformado com a derrota. Essas pessoas que se acostumaram a sofrer. Acordam todos os dias no mesmo horário, correm atrás de ônibus lotados, reclamam das más condições do transporte público e se afogam nas próprias lamúrias que são ouvidas e esquecidas, chacoalhando e se debatendo enquanto viajam em alta velocidade pelos corredores de ônibus que cortam essa cidade que fede à merda, suor e fumaça.

E eu aqui em casa, lar doce lar, com o meu computador, vendo filmes pela TV a cabo, tomando cerveja e jogando com meus amigos.

Eu amo minha casa, minha maior conquista, mas detesto meu bairro.

/ dia 11.11.04 / 0 Comentários