Começa como um pesadelo, onde você corre em círculos por um corredor estreito e escuro em forma de espiral ascendente, com paredes cinzas e gordurosas. A pintura descascada e embolorada fere seus olhos. Nesse corredor existem centenas de portas idênticas que dão acesso a salas também idênticas, e para encontrar a saída é preciso verificar uma a uma.
O interior de todas as salas é formado por uma mesa de aço escovado, que mais parece uma mesa de cirurgia. Um telefone branco analógico com manchas de gordura e números gastos fica no canto direito da mesa, alinhado a nada. Uma cadeira de ferro, com encosto de espuma revestido por um couro bege desbotado, pende arriada entre a mesa e a parede. A mesma parede úmida e descascada do corredor. O cheiro de mofo e umidade parece substituir o oxigênio. Uma luminária fosca de alumínio pende no centro do teto. Suas lâmpadas florescentes, amareladas e falhas, emitem um chiado metálico e repetitivo que invade a sala como uma sinfonia demente.
Quando você começa a olhar dentro dessas salas, uma após a outra, está empolgado com o começo da busca. Acredita que vai encontrar a saída em uma das primeiras salas, e abre cada porta como se fosse a certa. Aquele sorriso infantil estampado no rosto, como uma criança numa tarde de Páscoa, procurando seus ovos de chocolate entre as árvores do jardim de casa.
Depois de olhar dentro de umas cinqüenta salas idênticas, de ouvir o mesmo chiado, respirar o mesmo ar úmido e olhar para o mesmo telefone engordurado, você perde o pique.
Começa então um movimento viciado de abrir uma porta, olhar dentro da sala, ver o maldito telefone, sentir o ar mofado invadir seus pulmões e tentar fechar a porta antes de ouvir o chiado estridente e ardido das lâmpadas defeituosas.
Mas você sempre ouve.
Isso se transforma numa dança mórbida executada por um boneco mecânico com partes endurecidas pela ferrugem.
Abre, olha, fecha rápido, ouve. Próxima porta. Abre, olha, fecha rápido, ouve. Próxima porta. Abre, olha, fecha rápido, ouve. Próxima porta.
E a espiral ascendente vai se tornando cada vez mais íngreme.
Abre, olha, fecha rápido, ouve. Próxima porta. Abre, olha, fecha rápido, ouve. Próxima porta. Abre, olha, fecha rápido, ouve. Próxima porta.
E nessa seqüência insana e interminável de decepções e respostas repetitivas você perde a noção da realidade e começa a achar que é você que não sabe olhar dentro das salas. Que está fazendo alguma coisa errada. Perdendo algum detalhe.
Ou que alguém está entrando nas portas certas antes que você.
Quando você chega nesse ponto, já era. Certo? Errado. É nesse momento que você deve perceber que o pesadelo todo na verdade é uma fachada. Uma fachada criada pela sua própria mente, pelos seus medos e limitações que você impôs a sim mesmo.
Não passa de uma camuflagem que impede você de encontrar algo realmente bom. Algo que dura mais do que uma sala certa. Que significa muito mais do que abrir uma porta correta. Quando você percebe isso, as portas perdem a importância.
Funciona assim:
Enquanto entra de porta em porta olhando dentro de cada sala e se decepcionando sempre com o que encontra, você começa a tentar achar o erro. Onde você está falhando. E vai tentando melhorar, fazer diferente, fazer melhor. E vai se aprimorando na ação de abrir portas e olhar dentro das salas. É aí que está o grande erro.
Você não precisa saber abrir a maldita porta, nem saber olhar para dentro das salas. A grande sacada é saber “quem” está correndo por esse corredor. Você tem que esquecer as portas e voltar sua atenção para você. Quando isso acontecer, não vai importar qual sala é a certa. Porque a porta que você procura está esperando por você. Basta você estar preparado para encontrá-la.
E ela vai aparecer. Vai brilhar no meio desse corredor que agora não é mais em espiral e sim plano, iluminado e largo. E você não vai mais correr por ele. Vai andar calmamente, os braços balançando preguiçosos ao longo do corpo, até chegar à sua porta. O brilho amarelado ofuscando sua visão. Você pousa a mão sobre a maçaneta, o metal parece estar quente, mas não queima sua mão. Só lhe dá uma sensação de conforto e conclusão. Você a gira e começa a abrir a porta. O brilho vindo de dentro da sala se torna mais claro que o da porta. Um brilho branco e morno, aconchegante como uma brisa num final de tarde de verão. E então você vê. Vê o interior da sala.
O que você vê dentro da sala? Aí é você quem sabe.
/ dia 14.10.02 /
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